O Misterioso Desaparecimento dos Cristãos Reencarnacionistas

Introdução

Que fique claro desde o princípio: Este é um artigo histórico, e não doutrinário. Seu objetivo não é defender reencarnação, mas sim perguntar: Por que um ramo inteiro do Cristianismo primitivo simplesmente desapareceu sob o poder romano, praticamente sem deixar rastros?

Para os cristãos de hoje, a questão é muito óbvia: Cristianismo e Reencarnação são como água e óleo, e assim não se misturam. Mas, poucos sabem que nem sempre foi assim. Existiam nos primórdios do Cristianismo alguns grupos que acreditavam nas doutrinas básicas do Cristianismo, mas também defendiam o princípio da Reencarnação.

Porém, pouco sabemos sobre esses grupos, porque a maioria de seus textos básicos simplesmente desapareceram, assim como boa parte da literatura que foi considerada como herética por parte da nascente Igreja Católica.

 

Orígenes e seus Discípulos

O pouco que sabemos sobre o assunto vem de algumas citações de Orígenes, um teólogo cristão nascido em Alexandria no século II d.e.c., e considerado por alguns o maior erudito da Igreja Cristã primitiva. Discípulo de Clemente de Alexandria, é possível que tenha tomado contato com essa doutrina através deste último que, além de teólogo, era filósofo neo-platonista.

Os discípulos de Orígenes ficaram conhecidos como Origenistas, provavelmente seriam enquadrados entre os cristãos gnósticos, tendo a doutrina da reencarnação como uma espécie de doutrina secreta, transmitida apenas aos mais experientes, iniciados em seus mistérios.

Sobre isso, a Enciclopédia Católica afirma:

“São Jerônimo nos diz que a metempsicose era uma doutrina secreta de certos sectários em sua época, mas era tão evidentemente oposta à doutrina Católica da Redenção que nunca se firmou. Era defendida, contudo, de uma forma platônica pelos gnósticos, e era assim ensinada por Orígenes, em sua grande obra, Peri archon.

A existência corpórea, segundo Orígenes, era uma condição penal e não-natural, uma punição pelo pecado cometido em um estado prévio de bênção, a grosseria do pecado sendo a medida da queda.” (Catholic Encyclopedia – Metempsychosis)

 

Referências à Reencarnação

Uma leitura atenta do Peri archon, também conhecido como De Principiis, revela que Orígenes não tinham nenhuma postura muito diferente sobre a questão da salvação, do sacrifício expiatório de Jesus, ou mesmo da ressurreição, todos temas centrais dentro da doutrina cristã.

Porém, há momentos na obra em que ele faz sutis referências à Reencarnação, sem adentrar muitos pormenores. Curiosamente, ele a utiliza, por exemplo, para atribuir as profecias do reajuntamento de Israel à Igreja Cristã:

“Todos, sendo assim, dentre os que descendem à terra são, segundo seus desertos, ou conforme a posição que lá ocupavam, ordenados a nascerem neste mundo, em um país diferente, ou em meio a uma nação diferente, ou em um diferente modo de vida, ou cercados por enfermidades de um tipo diferente, ou descendendo de pais religiosos, ou pais que não são religiosos; de modo que pode às vezes acontecer que um israelita descenda entre os císsicos, e um pobre egípcio é trazido para a Judéia.

E ainda assim nosso Salvador veio juntar as ovelhas perdidas da casa de Israel; e tantos quantos dos israelitas não aceitaram Seu ensinamento, aqueles que pertenciam às nações foram chamados. Disso parece suceder que aquelas profecias entregues às nações individuais devem se referir na verdade às almas e suas diferentes mansões celestiais.” (De Principiis – Livro 3 – Capítulo 1 – seção 3)

Em alguns trechos de sua obra Contra Celsum, onde rebate os argumentos de Celso, um filósofo pagão que era contra o Cristianismo, Orígenes faz algumas referências defendendo a doutrina da Reencarnação. Abaixo, duas dessas principais referências:

“Ou não é mais em conformidade com a razão que toda alma, por certas razões misteriosas… é introduzida num corpo e introduzida segundo seus desertos e ações passadas?

É provável, portanto, que essa alma também, que também outorgou mais benefício por sua morada na carne do que muitos homens… permaneceu em necessidade de um corpo não apenas superior aos outros, mas investido de suas excelentes qualidades.” (Contra Celso 1:32)

“Mas nós sabemos que a alma, que é imaterial e indivisível em sua natureza, não existe em lugar material, sem ter um corpo adequado à natureza daquele lugar.

Semelhantemente, às vezes deixa para trás um corpo que era necessário antes, mas que não é mais adequado em seu estado modificado, e o troca por um segundo; e noutro momento assume outra adição ao primeiro, que é necessária para melhor cobertura, adequada às regiões etéreas mais puras do céu.

Quando vem a este mundo nascer, lança fora as camadas que necessitava no ventre; e antes de fazer isso, se reveste de outro corpo adequado à sua vida sobre a terra.” (Contra Celso 7:32)

Fora essas, a única coisa que sobreviveu dos grupos cristãos reencarnacionistas são algumas críticas aos Origenistas, feitas especialmente por Jerônimo e Epifânio, no século IV d.e.c.. Provavelmente pelo fato de Orígenes ter sido um importante apologista cristão, os Origenistas provavelmente foram mais tolerados do que os demais, e sobreviveram mais tempo. Por exemplo:

“Primeiramente se, como os Origenistas dizem, outro corpo sucede este, então o juízo de Deus não é justo, pois ou Ele estará condenando o novo corpo pelos pecados do primeiro, ou ele estará concedendo.a ele sua gloriosa e celestial herança em reconhecimento aos jejuns, vigílias e perseguições sofridas pelo Nome de Deus em um corpo anterior.” (Epifânio, Ancoratus 87)

 

O Mistério do Pensamento de Orígenes

Dos escritos de Orígenes, sabemos que ele cita algumas obras que não foram consideradas canônicas pela Igreja Católica, quando os bispos de Roma definiram o cânon final do Novo Testamento.

Delas, Orígenes cita como livros inspirados o Evangelho de Pedro, o Evangelho dos Hebreus, os Atos de Paulo, a Epístola de I Clemente, a Epístola de Barnabás, o Didaquê, e o Pastor de Hermas. Nem todas sobreviveram. Dentre as que temos acesso, contudo, nenhuma delas fala explicitamente sobre reencarnação.

O que nos faz indagar: Teria Orígenes deduzido a reencarnação puramente a partir dos textos bíblicos? Ou teria ele tido acesso a alguma literatura que hoje está perdida?

A segunda hipótese não é nada improvável, considerando duas coisas:

1) A Reencarnação era uma doutrina popular na Grécia, em virtude do pensamento de Platão;
2) Via de regra, todas doutrinas cristãs primitivas tidas como heréticas tinham algum livro tido por sagrado que as defendesse;

Um outro mistério é igualmente intrigante: Aparentemente, Orígenes em dado momento mudou de ideia.

Observe o que ele diz acerca de João Batista:

“Neste lugar não me parece que por ‘Elias’ se fale da alma, para que não caia no dogma da transmigração, que é estranho à Igreja de Deus, e não foi transmitido pelos Apóstolos, nem em lugar algum apontado nas Escrituras.” (Comentário de Mateus 13:1)

Teria Orígenes se tornado reencarnacionista com o tempo? Ou teria ele abdicado de tal doutrina? E, se abdicou dessa doutrina, o fez por convicção pessoal ou foi forçado a fazê-lo por perseguição ideológica? E por que seus seguidores mantiveram tal doutrina?

 

Conclusão Herege

É importante lembrar que o autor deste material é judeu, e apresenta os fatos acima como curiosidade histórica. Mas ressalta que mesmo no Judaísmo, a Reencarnação não é uma crença que deriva do Tanakh (Bíblia Hebraica), mas sim de obras terceiras, geralmente comentários místicos da Idade Média. Porém, como no Judaísmo a questão não mexe com nenhuma doutrina essencial, a polêmica acerca disso foi muito menor.

Embora não seja cristão, o autor reconhece que o chamado Novo Testamento, sozinho, não respaldaria a doutrina da Reencarnação. Mas, é absolutamente inegável historicamente que existiram cristãos reencarnacionistas. Sendo assim, o autor é da opinião de que esses grupos cristãos tinham alguma literatura sagrada própria, que infelizmente não sobreviveu à perseguição ideológica.

Seja qual for a opinião do leitor, contrária ou favorável à Reencarnação, numa coisa espero que todos concordem: É muito triste que livros tenham sido destruídos e parte da história tenha sido apagada por razões ideológicas. Todo grupo religioso tem direito a defender seus dogmas, mas queimar livros e destruir textos sagrados deve ser considerado crime contra o patrimônio da humanidade.

 

Bibliografia

ADAMANTIUS, Orígenes. Frederick Crombie (Trad.). Contra Celsum. Ante-Nicene Fathers, Vol. 4. Buffalo: Christian Literature Publishing Co., 1885.

ADAMANTIUS, Orígenes. Philip Schaff (Trad.). De Principiis. Ante-Nicene: Volume IV. Fathers of the Third Century: Tertullian, Minucius Felix; Commodian; Origen, Parts First and Second. CreateSpace Independent Publishing Platform, 2017.

DAVIS, Glenn. Origen. The Development of the Canon of. the New Testament. Disponível em <http://www.ntcanon.org/Origen.shtml>. Acessado em 16/11/2017.

EPIFÂNIO de Salamis. Young Richard Kim (Trad.). Ancoratus. Fathers of the Church, vol. 128. Washington: The Catholic University of America Press, 2014.

MENZIES, Allan (Org.). Ante-Nicene Fathers, Vol. 9. Buffalo: Christian Literature Publishing Co., 1885.

Catholic Encyclopedia: Metempsychosis. Edição de 1917. Disponível em <http://www.newadvent.org/cathen/10234d.htm>. Acessado em 16/11/2017.

As Festas Perdidas do Templo de Jerusalém

Introdução
Em Levítico 23, a Bíblia apresenta uma série de festividades que seriam celebradas no Tabernáculo ou, posteriormente, no Templo de Jerusalém. Elas são bastante conhecidas nos meios judaico e cristão.

Porém, o que muitos não sabem é que, à época do Segundo Templo, essa lista não era unânime. E um manuscrito surpreendente, descoberto nas cavernas do Mar Morto, traz pelo menos duas festividades que não se encontram na lista de nenhuma das Bíblias de que temos notícia.

Apelidado de “Manuscrito do Templo”, traz recomendações de como seria a vida de Israel no fim dos tempos, com sua vida religiosa centrada no Templo de Jerusalém.

As Festas do Vinho e do Óleo
E é justamente esse manuscrito que apresenta duas festividades adicionais de peregrinação: A Festa do Vinho Novo e a Festa do Óleo Novo.

É importante se recordar que a primeira festa de peregrinação na Bíblia é a Festa dos Ázimos, que ocorre no começo da primavera, quando da colheita da cevada. A festa seguida, denominada de Festa das Semanas, ocorre sete semanas depois, quando da ocasião da colheita do trigo.

A Festa do Vinho Novo viria justamente sete semanas depois da Festa das Semanas, quando seria realizada a colheita das uvas e a apresentação das primícias do vinho que fosse feito naquele ano. Nessa festividade, Israel deveria novamente se reunir para celebrar perante o Eterno, no Templo, em moldes semelhantes aos das outras duas solenidades.

Já a Festa do Óleo Novo viria sete semanas depois da Festa do Vinho Novo, marcando o momento em que os israelitas apresentariam uma colheita de olivas e ofereceriam azeite ao Criador. A ocasião seria também marcada por uma festividade.

Trecho do Manuscrito do Templo
Abaixo, trecho que fala sobre essas solenidades:

“Contarás a partir do dia em que trouxeres a nova oferta ao ETERN[O] – o pão das primícias – sete semanas, sete semanas completas, até o dia depois do sétimo Shabat. Contarás cinquenta dias, então [sa]crifícarás vinho novo como oferta de bebida: quatro hin de todas as tribos de Israel, um terço de hin para cada tribo. Além do vinho, ofertarás naquele dia doze carneiros para o ETERNO…

Então comerão no átrio perante o ETERNO, e [os sacerdo]tes beberão um pouco do novo vinho. Eles beberão lá primeiro, então os Levitas em segundo… [e depois deles…]; então todo o povo, gran[de] e pequeno, poderá beber o novo vinho e comer uvas das videiras, quer maduras ou verdes, pois [n]este [di]a farão expiação pelo vinho. Então os filhos de Israel se regozijarão pera[nte] o ETERNO, sendo este um [estatuto] perpétuo, geração por geração, onde quer que habitem. Eles se alegrarão neste d[ia] no festival do [vinho novo] para derramar oferta de vinho fermentado, novo vinho sobre o altar do ETERNO, um culto anual.

V[ós] contareis daquele dia sete semanas – sete vezes sete dias , quarenta e nove dias, sete semanas completas – até o dia depois do sétimo Shabat: contareis cinquenta dias. Então oferecereis óleo novo dos lugares onde as [tr]ibos dos fi[lhos de Is]rael habitarem, meio hin de cada tribo, óleo recém-extraído. [Oferecerão as primícias do] óleo no altar de oferta queimada, como primícias perante o ETERNO […]…

Então apresentarão ao ETERNO uma oferta dos carneiros e cordeiros; a coxa direita, o peito da oferta movida e, como a melhor parte, [a perna dianteira.] As faces e o estômago pertencerão aos sacerdotes como sua porção, seguindo as regulamentações costumeiras. Os levitas receberão o ombro.

Depois, as porções serão trazidas para fora até os filhos de Israel, que darão aos sacerdotes um carneiro e um cordeiro, os levitas o mesmo, e cada tribo o mesmo. Eles os comerão perante o SENHOR naquele mesmo dia no átrio. Esse é um estatuto perpétuo, de geração em geração, como rito anual. Depois de terem comido, ungirão a si mesmos com novo óleo e comerão azeitonas, pois naquele dia terão feito expiação por [t]odo [o óleo] da terra perante o ETERNO, como rito anual uma vez por ano. Os filhos de Israel se regozijarão […].” (11Q19 – Col. 19:11-16,12-16,8-16)

Análise do Manuscrito
Como o manuscrito é fragmentado, não está claro se as solenidades seriam ocasiões em que se proibiria o trabalho, a exemplo das festas bíblicas tradicionais. Porém, considerando que o mesmo tipo de prescrição é feito em termos de sacrifícios, bem como considerando que na Col. 11 do mesmo manuscrito as menciona todas juntas, é bem provável que seguisse o modelo das demais festividades.

O mais curioso dessa festividade é que, de fato, a Bíblia não menciona datas para se trazer as primícias de tais elementos, que eram bastante importantes na economia israelita.

A Bíblia fala das primícias da colheita à época da cevada, do trigo e do começo do outono. Mas, e as demais? Não é muito claro quando seriam trazidos.

Provavelmente, o objetivo dessa lei era justamente regulamentar essa questão, fazendo com que pudessem entregar tais coisas em datas mais organizadas, para suprir o Templo.

É pouco provável que essa ideia tenha se originado nas cavernas de Qumran, no Mar Morto, pois a seita de Qumran estava afastada do convívio do Templo. No mínimo, deve ter havido algum tipo de prática semelhante em que a comunidade se inspirou para poder escrever o “Manuscrito do Templo”.

Conclusão Herege
O autor herege acredita que é bem provável que originalmente o sistema do Tabernáculo e, posteriormente, do Templo tenha mesmo se fixado mais nas primícias dos grãos. Há quem diga, contudo, que essas solenidades remontam até os tempos bíblicos.

Na opinião do autor, o mais provável é que o texto supracitado seja uma inovação da seita de Qumran, mas que deva estar baseada numa prática já existente no Templo, de organizar as primícias.

No mínimo, serve para ajudar a compreender que a questão das solenidades bíblicas estava muito mais ligada a questões logísticas do que pode parecer ao leitor das Escrituras.

Bibliografia
VERMES, Geza. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Londres: Penguin Books, 1995.

WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

A Criação da Matéria e do Espírito

O Relato da Criação
O relato de Gênesis 1 não se propõe a ser um tratado científico sobre a Criação do mundo, mas sim dar ao leitor semita uma perspectiva que ele fosse capaz de compreender, utilizando linguagem e simbolismo que já lhe era familiar, tal como a ideia de jardins, serpentes e frutos proibidos.

Contudo, o relato passou a fascinar gerações posteriores, que buscavam nele entendimento sobre a essência das coisas, bem como respostas acerca de como a criação de fato ocorreu.

A Leitura de Fílon
Uma das visões heterodoxas mais importantes sobre a Criação, mas nem sempre das mais conhecidas, é a de Fílon (Yedidya haKohen), um filósofo e sacerdote judeu de Alexandria que viveu no século 1 d.e.c.

Ele traz uma abordagem bastante curiosa sobre Gênesis 1 e 2. Veja abaixo o que ele diz:

“E o céu e a terra e todo o seu mundo foi concluído.” Tendo anteriormente relatado a criação da mente e do sentido, Moisés agora procede para descrever a perfeição que trouxe ambos. E ele diz que nem a mente indivisível nem as sensações particulares receberam perfeição, mas somente ideias, uma é a ideia da mente, a outra da sensação.

E falando simbolicamente ele chama à mente de céu, uma vez que as naturezas que só podem ser compreendidas pelo intelecto estão no céu. E à sensação ele chama terra, porque é a sensação que obteve uma constituição corpórea e de alguma forma terrena. Os ornamentos da mente são todos coisas incorpóreas, que são percebidas somente pelo intelecto.

As coisas da sensação são corpóreas e, resumindo, tudo o que é perceptível pelos sentidos exteriores.” (Interpretação Alegórica 1:1)

O Despertar da Consciência
O que diferencia a visão de Fílon dos demais é que, para ele, o relato da criação em Gênesis 1 e 2 não é um relato *de fato* sobre a criação dos céus e da terra, mas sim um relato sobre o desenvolvimento da percepção humana.

Para Fílon, quando a Bíblia diz que o Eterno criou os céus, essa é uma referência ao despertar da humanidade quanto às coisas espirituais.

Como ele próprio explica no texto, as coisas espirituais são chamadas metaforicamente de celestiais, porque o ser humano só podia perceber os céus através de sua inteligência e abstração, já que não tinha acesso a ele.

Já a criação da terra, para Fílon, tem relação com a percepção das coisas ao nosso redor. Isto é, aquilo que nós experimentamos pelos sentidos: o tato, o paladar, a visão, etc.

Em outras palavras, para Fílon, o relato de Gênesis 1 e 2 tem a ver com o despertar da consciência do homem, não com a criação do cosmos.

Para ele, a Bíblia de um modo geral é um modelo para esse despertar. Cada narrativa, cada história e parábola, é uma história de nós mesmos. E de nosso movimento na direção da eternidade do Criador.

Conclusão Herege
O pensamento de Fílon é bastante interessante. E provavelmente encontraria mais adeptos na atualidade do que na antiguidade.

É inegável que Fílon foi influenciado pelo pensamento platônico. Todavia, o autor herege considera um erro atribuir todo e qualquer tipo de dualidade existencial ao Platonismo, pois a Bíblia traz sim uma dualidade entre espiritualidade e matéria, desde justamente o relato do Gênesis.

O autor herege não crê que o relato de Gênesis 1 e 2 tenha por objetivo falar do despertar da consciência. Porém, vê com bons olhos a ideia de ler as Escrituras a partir do prisma do Eu – isto é – daquilo que as Escrituras podem ensinar a respeito de cada um de nós.

Bibliografia
CAIRD, Edward. The Evolution of Theology in the Greek Philosophers vol. 2 – Lecture Twenty-first: The Philosophy and Theology of Philo. Glasgow: University of Glasgow, 1904.

HENDERSON, Jeffrey (Org.) Philo – Volume 1 – Allegorical Interpretation of Genesis II, III. Cambridge: Harvard University Press, 1929.

Moisés: Anjo, Messias e Rei da Humanidade

Além de Libertador e Profeta
A importância de Moisés nas religiões que crêem na Bíblia Hebraica é inegável. Figura central na libertação do povo de Israel do Egito, Moisés também foi o grande revelador que recebeu a Lei do Senhor no monte Sinai.

Apesar de sua grande importância, hoje o status de Moisés perante tais religiões é o de um homem grandemente honrado. Porém, no Judaísmo pós-exílico a coisa nem sempre ficou apenas nisso.

Moisés enquanto Anjo
Um dos manuscritos do Mar Morto, do século 2 a.e.c. conhecido como “Um Apócrifo de Moisés”, parece fazer alusão ao profeta como mais do que apenas um ser humano:

“Enquanto isso Moisés, o homem de Deus, estava com Deus na nuvem. E a nuvem o cobria, pois […] a medida que era santificado. Deus falava através de sua boca como um anjo; de fato, que mensageiro das boas novas houve como ele? […] Ele era homem piedoso e […] tal como nunca foi criado antes, e que para sempre […]” (4Q377 – Frag. 2 – Col. 2)

Aqui, Moisés parece como mais do que um simples ser humano. Trata-se de um ser humano especial, tal qual nunca fora criado. E ele também é chamado de Mensageiro das Boas Novas.

A “angelização” de Moisés – por assim dizer – aparece de forma mais explícita um pouco mais acima: Quando Deus fala através de sua boca, como um anjos.

É verdade que o texto acima poderia ser lido apenas como uma espécie de homenagem exagerada. Mas, ele não está sozinho. E indica uma tendência de divinização de Moisés.

A Exaltação de Moisés
Preservado entre os escritos de Eusébio de Cesaréia estão uma série de citações de um poema conhecido como Exagogue, que significa “conduzindo para fora”, e que conta a narrativa do êxodo.

Essa obra foi escrita por Ezequiel, um poeta judeu que viveu em Alexandria no século 3 a.e.c.. E ela traz uma descrição de uma visão de Moisés que é bastante peculiar. Observe:

“Tive uma visão de um grande trono no topo do monte Sinai e ele se estendia até os batentes dos céus. Um nobre estava sentado sobre ele, com uma coroa e um grande cetro em sua mão esquerda.

Ele me chamou com sua destra e eu me aproximei e me coloquei perante o trono. Ele me deu o cetro e me instruiu a me sentar no grande trono. Então ele me deu uma coroa real e se levantou do trono.

Contemplei toda a terra à volta e vi além da terra e acima dos céus. E uma multidão de estrelas se ajoelhou perante mim e eu as contei. Elas desfilaram perante mim como um batalhão de homens. Então acordei de meu sono em temor.

Raguel [disse:] Meu amigo, este é um sinal de Deus. Que eu possa viver para ver o dia em que essas coisas se cumprirão. Tu estabelecerás um grande trono e te tornarás um juiz e líder dos homens. Quanto à tua visão de toda a terra, o mundo abaixo e o acima dos céus – isso significa que tu verás o que é, o que era e o que há de ser.” (Fragmento da Visão de Moisés)

Repare que o texto também traz uma divinização de Moisés. A linguagem é semelhante ao que se chama no Judaísmo pós-exílico de “Anjo da Presença”, um conceito de origem persa que fala sobre o primeiro em comando da divindade, capaz de executar suas obras na Criação. Originalmente, a função era atribuída a Mitra da Pérsia, tornando-se Metatron no Judaísmo.

Anjo da Presença, Messias e Rei
No texto, Moisés é descrito como alguém que toma um trono divino e se assenta, como o Anjo da Presença do Eterno.

No entanto, a coisa também não para por aí: A ele é dado domínio primeiramente dos filhos de Israel, mas também de toda a humanidade.

Moisés é apontado como o grande juiz que veria o passado, presente e futuro da humanidade e julgaria os filhos dos homens segundo a palavra do Senhor.

Em outras palavras: Em termos inequívocos, Ezequiel de Alexandria aponta Moisés como Messias.

As Razões de Alexandria
Isso não surpreende, pois a insatisfação dos judeus de Alexandria para com a liderança judaica em Jerusalém após o exílio, bem como para com o próprio Templo, era fato notório e é tema de muitas obras, inclusive de livros pseudo-epígrafes.

Ter Moisés como Messias, que possivelmente viria a julgar a humanidade no futuro, certamente serviria como bom substituto da autoridade corrupta (à visão da comunidade de Alexandria) à época do Segundo Templo.

Além disso, em meio às discussões sobre a legitimidade da liderança, quem ousaria questionar um governo do próprio Moisés?

Mas, mais interessante ainda, a glorificação de personagens como Enoque e Moisés na literatura da época do Segundo Templo mostra um fenômeno curioso: O da exaltação gradual dos profetas.

É bom recordar que de personagem desconhecido, Enoque passa a ser escriba celestial e posteriormente Messias (na obra de 1 Enoque) – posteriormente, seria também ele exaltado à condição de Anjo da Presença noutras outras.

Semelhantemente, aqui temos Moisés passando de profeta a anjo. E de anjo a Anjo da Presença, rei da humanidade e Messias de Israel.

Essas figuras do passado, glorificadas, visavam estabelecer contraste com os líderes corruptos ou reprováveis da geração dos autores, bem como demonstravam uma expectativa de tempos melhores.

Conclusão Herege
Evidentemente, o autor herege não crê que Moisés tenha se tornado anjo. E vê com ressalvas até mesmo a ênfase em reis ou governantes humanos exaltados, pois entende que isso tira o foco da figura do próprio Eterno.

Todavia, é interessante observar esse fenômeno para compreender porque, por exemplo, profetas ou mestres carismáticos – a exemplo do próprio Jesus do Cristianismo – tenham gradativamente deixado de ser vistos como homens comuns e passados a ser enxergados com algum grau de divindade.

O movimento de glorificação de Moisés pode não ter sobrevivido no Judaísmo por muito tempo, mas a observação da relação da ultra-ortodoxia judaica com seus líderes – a atribuição de grandes milagres, a mediação depois de mortos, entre outros – indica que, de fato, não há nada de novo debaixo do sol.

Mas, é difícil argumentar contra Ezequiel de Alexandria. Se fosse para exaltar alguém a essa condição, quem melhor do que Moisés?

Bibliografia
JACOBSON, H. The Exagoge of Ezekiel. Cambridge: Cambridge University Press, 1983.

HOLLADAY, C. R. Fragments from Hellenistic Jewish Authors: Vol. II, Poets. Atlanta: Scholars, 1989.

VERMES, Geza. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Londres: Penguin Books, 1995.

WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

O Discípulo que morreu no lugar de Jesus

Imagem Universal? Nem Sempre.
A imagem de Jesus pendurado no madeiro, enquanto sacrifício expiatório, é praticamente uma unanimidade no mundo cristão de hoje.

Mas, talvez, surpreenderia a muitos cristãos saber que nem sempre foi assim. Houve um tempo em que muitos cristãos não só consideravam a questão da crucificação algo terrível e sem importância teológica, como ainda chegavam até mesmo a negar que Jesus tivesse de fato morrido na cruz.

Simão de Cirene
Nos episódios que antecedem a morte de Jesus, o evangelho de Mateus (na forma cristã atual) diz:

“E, quando saíam, encontraram um homem cireneu, chamado Simão, a quem constrangeram a levar a sua cruz.” (Mateus 27:32)

Aqui apresenta, portanto, o leitor à figura de Simão de Cirene, um dos seguidores de Jesus que teria oferecido para carregar a cruz quando Jesus se encontrava fraco demais para prosseguir caminho.

No entanto, para uma boa parte dos cristãos gnósticos, a oferta de Simão teria sido de natureza bem diferente.

Simão e os Gnósticos
Embora a Igreja Católica Romana tenha se esforçado ao máximo para eliminar evangelhos e relatos tidos como espúrios, alguns fragmentos permaneceram em citações e em sítios arqueológicos isolados.

No mais importante deles, em Nag Hammadi no Egito, os ensinamentos gnósticos permaneceram. E, segundo eles, Simão teria tido um papel bem mais importante.

Embora apenas fragmentos desse ensinamento tenham permanecido, sabe-se que os cristãos agnósticos acreditam que Simão de Cirene teria se oferecido não para carregar a cruz, mas sim para morrer no lugar de seu mestre.

Esse ensinamento aparece nos fragmentos de um manuscrito – cuja maior parte se perdeu – denominado de Segundo Tratado do Grande Set, numa referência a Set, filho de Adão e Eva.

O Fragmento do Manuscrito
Esse fragmento diz o seguinte:

“Pois minha morte, que eles acreditam ter acontecido, aconteceu a eles em seu erro e cegueira, uma vez que pregaram o homem deles para a morte. Seus pensamentos não me viram, pois eram surdos e cegos. Mas ao fazer tais coisas, condenam a si mesmos.

Sim, eles me viram; eles me puniram. Foi outro, o pai deles, que bebeu do fel e do vinagre; não fui eu. Eles me feriram com vara; foi outro, Simão, que suportou a cruz em seu ombro. Foi sobre outro que eles colocaram a coroa de espinhos. Mas eu regozijava na altura sobre toda a riqueza dos governantes e da descendência de seu erro, de sua glória vazia. E eu me ria da ignorância deles.” (O Segundo Tratado do Grande Set)

Mas, qual seria a relevância teológica para esses cristãos de Jesus não ter morrido na cruz? A resposta pode estar numa citação de Irineu, bispo romano do século 2 a.e.c.

O Evangelho Perdido de Basílides
Ele descreve os ensinamentos heréticos de um certo cristão gnóstico copta chamado Basílides. Esse último teria escrito um evangelho contando as tradições gnósticas. Mas, tal manuscrito infelizmente também se perdeu.

Irineu, contudo, descreve os ensinamentos de Basílides da seguinte forma:

“Ela apareceu na terra como homem e realizou milagres. Mas ele próprio não sofreu. Ao invés disso, um certo Simão de Cirene foi obrigado a carregar a cruz por ele. Foi ele que, errônea e ignorantemente, foi crucificado, tendo sido por ele transfigurado, para que pudessem pensar que era Jesus. Além disso, Jesus assumiu a forma de Simão e permaneceu a seu lado rindo-se deles.

Pois uma vez que ele era um poder incorpóreo, a mente inata do Pai, ele se transfigurava como desejasse, e assim subiu àquele que o enviou, escarnecendo deles, tal como não podia ser capturado e era invisível a todos.

Aqueles, portanto, que conhecem essas coisas se libertaram dos principados que formaram o mundo; de modo que não nos é necessário confessar aquele que foi crucificado, mas aquele que veio à semelhança de um homem, e que pensou-se terem crucificado, que era chamado de Jesus; e que foi enviado pelo pai, para que esta dispensação possa destruir as obras dos que fizeram o mundo.

Se alguém, portanto, declara, confessa o crucificado, aquele homem é um escravo, e sob os poderes daqueles que formaram nossos corpos; mas aquele que a nega [i.e. crucificação] está livre desses seres, se familiarizou com a dispensação do Pai inato.” (Contra Heresias -1:24:4)

Se os relatos de Irineu estiverem precisos, a ideia de Basílides é a de que Jesus não teria vindo ao mundo para ser crucificado, mas sim para encorajar as pessoas a viverem uma vida voltada para a espiritualidade.

Ter a crucificação como cerne doutrinário era algo que – para os gnósticos – fomentava a ideia ignorante de foco naquilo que é carnal.

Muito provavelmente, a atribuição da crucificação a Simão de Cirene teve justamente por objetivo combater a prática da idolatria a Jesus enquanto homem, ou de ter sua cruficiação como sacrifício expiatório.

Afinal, seria muito mais difícil idolatrar uma pessoa crucificada no lugar de Jesus.

Conclusão Herege
O autor herege acha pouco provável que Simão de Cirene tenha mesmo morrido no lugar de Jesus, mas acha de grande importância que se conheça essa questão, para se perceber que a morte de Jesus na cruz – hoje tema central no Cristianismo – já teve importância bem reduzida.

O que se observa entre os cristãos primitivos é que os ensinamentos de Jesus pareciam ter mais relevância do que o ato em si de ter sido crucificado. No entanto, até isso é discutível.

Mesmo não sendo cristão, o autor herege lamenta mais um caso de livros que foram destruídos e eliminados, para se combater uma ideia.

É importante que o leitor compreenda que o cristianismo gnóstico foi, em dado momento, extremamente popular. E, se as reviravoltas políticas tivessem sido diferentes, poderia até mesmo ter se tornado sua forma mais tradicional.

Bibliografia
MEYER, Marvin (Org.). The Nag Hammadi Scripturs: The International Edition. Nova Iorque: HarperCollins, 2009.

ROBERTS, Alexander (Org.) Saint Ireneus of Lyon – Against Heresies: The Complete English Translation from the First Volume of THE ANTE-NICENE FATHERS. Ex Fontibus Co., 2015.

Catholic Encyclopedia: Basilides. Edição de 1917. Disponível em <http://www.newadvent.org/cathen/02326a.htm>. Acessado em 24/07/2017.

Os Salmos Perdidos de Davi

Uma Informação Surpreendente
Na Bíblia Hebraica tradicional, existem 150 salmos e cânticos. Desses, 73 são atribuídos a Davi.

No entanto, o trecho de um manuscrito do século 2 a.e.c. encontrado junto a vários salmos, nas cavernas do Mar Morto, faz uma afirmação impressionante:

“E eis que Davi filho de Jessé foi sábio e brilhante como a luz do sol; um escriba, homem de discernimento e perfeito em todos os seus caminhos perante Deus e os homens.

O ETERNO lhe deu um espírito brilhante e de discernimento. Ele escreveu 3.600 salmos e 364 cânticos para cantar perante o altar para o sacrifício diário perpétuo, por todos os dias do ano; e 52 cânticos para as ofertas de sábado; e 30 cânticos para as luas novas, para as festividades e para o Dia da Expiação.

Ao todo, os cânticos foram 446, além dos 4 cânticos para fazer música em favor daqueles que foram acomedidos por espírito maligno.

Todos esses ele proferiu através de profecia, que lhe foi dada perante o Altíssimo.” (11Q5 – Col. 27)

Análise do Manuscrito
Segundo esse manuscrito, o universo de composições davídicas não se limitaria aos 73 salmos e cânticos, mas sim a um impressionante número de 4.050!

Alguns desses salmos mencionados em Qumran também se encontram no cânon da Bíblia Siríaca, que contém não apenas 150, mas sim 155 salmos. E contém 5 salmos atribuídos a Davi.

Infelizmente, a maioria dos salmos e cânticos em Qumran encontra-se degradada pela ação do tempo, sobrevivendo apenas na forma de fragmentos. Dentre eles, há um salmo adicional atribuído a Davi, específico para exorcismo (o que será objeto de outro artigo).

Isso elevaria o total de salmos e cânticos davídicos para 79. Ainda assim, restaria a pergunta: Onde estão os outros 3.971 salmos e cânticos atribuídos a Davi?

Pode ser que os 3.600 referidos pelo manuscrito sejam um número teórico ou simbólico, uma tradição que indicaria que Davi compôs muita coisa.

No entanto, a maneira como o autor de 11Q5 fala sobre os 450 cânticos – 446 litúrgicos e 4 de exorcismo – é certo que esse número não é figurativo.

Em outras palavras: Do universo de composições atribuídas a Davi, temos como afirmar com bastante convicção que 371 realmente se perderam. A pergunta é: Por que?

Motivos para a Perda
Existem diversas possíveis teorias para isso:

Teoria 1 – Pseudo-Epígrafos
A teoria mais provável é de que muitos desses salmos seriam considerados pseudo-epígrafos. Isto é, salmos atribuídos a Davi, porém de autoria real desconhecida. Essa prática era bastante comum à época dos tempos bíblicos.

Porém, isso não justificaria a eliminação das obras. Até porque, sabe-se que pelo menos uma parte dos 73 salmos bíblicos tradicionalmente atribuídos a Davi também não foram escritos por ele, pois trazem linguagem pós-exílica.

Teoria 2 – Composições Menores
Outra teoria que tem algum mérito é a de que Davi escreveu muita coisa. E que seria impossível preservar absolutamente tudo que ele escreveu. Afinal, preservar textos na antiguidade era tarefa bastante árdua.

Pode ser que boa parte do que Davi escreveu realmente tenha tido por objetivo servir de liturgia no Tabernáculo. Assim sendo, os salmos mais belos (ou prediletos dos líderes de Israel) teriam sobrevivido.

Teoria 3 – Omissão Intencional
Por mais que salmos e cânticos sejam, em sua maioria, inócuos, é inevitável que tragam alguma teologia interna. E, como prevaleceu a teologia dos grupos vencedores, essas composições foram relegadas a segundo plano.

De todo jeito, permanece a pergunta: Aonde estão os 371 salmos perdidos de Davi? Ou seriam mesmo 3.971?

Conclusão Herege
O autor herege acredita que a verdade não esteja numa única teoria exclusivamente, mas que essas três teorias tragam, juntas, a resposta.

É bem provável que Davi tenha mesmo escrito muito mais coisa do que foi possível preservar. Se mesmo hoje há composições perdidas de músicos famosos, imagine nos tempos bíblicos.

Também é certo que salmos foram escritos em nome de Davi. Aliás, o termo hebraico leDawid pode ser traduzido como “de Davi” ou “para Davi”, podendo até se tratar de homenagens. Nem todos esses cânticos e salmos se tornariam populares.

Por fim, também é bem provável que a agenda teológica tenha levado algumas dessas obras a serem destruídas. Ou, pelo menos, que tenham deixado intencionalmente de serem preservadas.

De todo jeito, o autor herege gostaria muitíssimo de ter acesso a esses textos e o que dizem. Quem sabe venham ainda a ser descobertos um dia?

Bibliografia
VERMES, Geza. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Londres: Penguin Books, 1995.

WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

Qual a Bíblia mais antiga?

As Listas Mais Antigas
Muita gente se pergunta: Qual a Bíblia mais antiga de todas?

Quando o assunto é Bíblia Hebraica, existe bem menos controvérsia do que, por exemplo, quanto à Bíblia Cristã. Mas, isso não significa que o assunto tenha sempre sido unânime. Para chegar ao cânon mais antigo, três testemunhos são importantes.

A lista mais antiga de todas elas é a que aparece no texto do livro de Josué Ben Sira, também conhecido apenas como Ben Sira ou como Eclesiástico.

Essa obra faz menção a todos os livros da Bíblia, à exceção de Ruth, Cantares, Ester e Daniel. Os dois últimos, provavelmente por serem posteriores a Ben Sira, ou ainda não terem atingido um status de canônicos à sua época. Não se sabe, contudo, a razão pela qual Ruth e Cantares se fazem ausentes.

Outra lista importante é a de livros que aparecem nas cavernas do Mar Morto. Deles, observa-se que todos os livros da Bíblia Hebraica se fazem presentes, à exceção de Ester. Não é certo se isso ocorre pelo fato de Ester ser um livro posterior, ou se era rejeitado pela seita de Qumran.

Porém, em Qumran aparecem Tobias e Ben Sira, um dos livros que figuram entre os chamados Apócrifos da Septuaginta, hoje presentes nas Bíblias Católicas. E também aparecem duas obras que hoje só estão presentes entre as comunidades etíopes (cristã e judaica). A saber, 1 Enoque e Jubileus.

Já Flávio Josefo menciona 22 livros, dos 24 livros hoje presentes na Bíblia Judaica. Mas, ele não os menciona por nome. Sendo assim, quais seriam os 2 livros que estariam ausentes? Uns suspeitam de Ester, e talvez de Ezequiel. Outros, contudo, acreditam que era apenas uma questão de dividir os livros de maneira diferente.

Prova Por Ausência?
O mais difícil quanto a essas listas está no fato de que estamos lidando com o que se chama de “prova por ausência.” Isto é, a ausência de menção a determinadas obras sendo interpretada como tais obras não sendo canônicas. Não há nada que garanta isso, pois pode se tratar de simples coincidência.

Disputas Internas no Judaísmo
Mas, há obras que foram, em vários momentos da história, questionadas. A seguir, as principais delas:

No Talmude Babilônio, há registro de várias discussões sobre os status de determinadas obras. Especialmente porque os judeus da antiguidade consideravam que os manuscritos bíblicos poderiam afetar as regras de pureza cerimonial. Então, saber quais obras eram inspiradas ou não era importante, para fins cerimoniais.

Os seguintes livros eram apontados por alguns como livros não-inspirados. Vale ressaltar que os livros tidos como não-inspirados não eram necessariamente vistos como livros ruins. No fim, a conclusão foi a de que todos eles eram inspirados. Porém, se foram debatidos é porque nem sempre foi assim.

Dos livros tidos como históricos: Ruth e Ester;
Dos livros poéticos e de sabedoria: Eclesiastes, Cantares e Provérbios;
Dos livros proféticos: Ezequiel;

Referências: b. Shabat 14a; b. Meguilá 7a;

Motivos dos Questionamentos
Abaixo, um resumo das possíveis razões para os questionamentos. Não apenas talmúdicos, mas em geral:

Ruth: As razões de questionamento provavelmente revolvem em torno de uma moabita como personagem principal. É um livro também considerado por muitos como uma estória romanceada.

Eclesiastes: A visão de mundo bastante ácida e pesada do autor certamente não agradou a todos. Porém, a oposição a essa obra foi relativamente pequena.

Cantares: O conteúdo da obra fala da relação entre homem e mulher e, por isso, houve bastante polêmica. A tendência posterior foi a espiritualização do relato, associando-o a Deus e Israel.

Provérbios: O livro de Provérbios sempre foi visto como uma obra louvável. Porém, por se tratar de uma coletânea de conselhos, trechos de sua obra em dados momentos foram questionados. Embora, na essência, tenha sido amplamente aceito.

Ezequiel: O livro mais polêmico do cânon judaico. Em virtude de seu sistema litúrgico divergir da Torá e ser um livro de caráter mais espiritualizado, alguns sábios judeus se opuseram fortemente a ele. No fim, porém, prevaleceu a visão da maioria, de que o livro deveria ser incluído.

Ester: Três eram as razões para o questionamento. A primeira, sua possível composição exílica. A segunda, a ausência de menção a Deus. E a terceira, o fato de ser uma Meguilá, isto é, um texto escrito especificamente com propósito litúrgico, que pode não ser totalmente histórico. Além disso, há uma disputa quanto ao conteúdo. A versão hebraica de Ester é consideravelmente menor do que a versão grega.

Daniel: Daniel não figura em algumas das listas mais antigas. O mais provável, contudo, é que isso se deva por ter sido o livro mais recente da Bíblia Hebraica, posterior a algumas de tais listas, tendo sido escrito durante a Revolta dos Macabeus. Além disso, há uma diferença no conteúdo. A versão grega de Daniel é mais extensa, trazendo outros contos da corte babilônia.

Salmos: Embora os 150 salmos da Bíblia Hebraica sejam aparentemente unânimes, outros cânons figuram salmos que não aparecem nessa lista. Na Septuaginta, temos 151 salmos. Na Peshitta Aramaica, 155. E, no Mar Morto, há também outros que não figuram no texto hebraico. O mais provável é que cada comunidade tenha acrescentado seus próprios salmos com o passar do tempo.

A Provável Lista Mais Antiga
Se considerarmos apenas os livros não-controversos e que não estão ausentes das listas mais antigas, provavelmente a mais antiga da Bíblia Hebraica era algo assim:

Instrução (Torá): Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio.
Profetas: Josué, Juízes, Samuel (1 e 2), Reis (1 e 2), Isaías, Jeremias, os Doze Menores (Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias)
Escritos: Crônicas (1 e 2), Esdras/Neemias, Salmos, Jó e Lamentações.

Ou seja, da Bíblia Hebraica atual teríamos apenas 18 dos 24 livros, com 7 ausências. Na contagem cristã, teríamos 32 livros.

Uma curiosidade interessante: Esse é um número relevante na cultura judaica, pois é o número da palavra “vive” (חי – Hay). Teria a lista original primitiva sido composta por 18 livros? Não é uma hipótese improvável!

Dos 7 livros ausentes, dois possuem mais de uma versão. A saber, Daniel e Ester. O mesmo acontece com o livro de Salmos, dentre os livros canônicos e provavelmente ocorria com as versões mais antigas do livro de Provérbios.

Vale ressaltar que nem sempre não-canônico significava ruim ou pouco importante. Apenas, significava que não eram obras vistas unanimemente pelas lideranças. Algumas delas, depois de muito debate e discussão, foram incluídas. Outras, foram relegadas ao esquecimento.

Conclusão Herege
Em boa parte, a dificuldade de se chegar a uma lista original está em dois fatos: O primeiro, a dificuldade arqueológica e histórica de resgatar informações tão antigas.

A segunda está no fato de que talvez não houvesse uma “lista original”. A formação do cânon teve mais a ver com tentar preservar livros essenciais face à perseguição do que criar uma lista exclusiva. De toda forma, consegue-se perceber quais os livros eram, na antiguidade, tidos como os mais importantes para instrução nos caminhos do Criador.

Vale ressaltar ainda o seguinte: Há obras que talvez até por serem extensas demais não tenham figurado no cânon, mas com ensinamentos magníficos. É o caso de Ben Sira (Eclesiástico), que será abordado com mais detalhe noutra ocasião.

Há outros ainda que poderiam ter mudado a cara do que seriam, hoje, Judaísmo e Cristianismo, caso tivessem se tornado unânimes, como Jubileus e 1 Enoque. Mas, novamente, é assunto para outra ocasião.

Por fim, é importante deixar claro que novas descobertas arqueológicas podem trazer novos entendimentos sobre o assunto. O leitor herege deve se recordar que cem anos atrás os Manuscritos do Mar Morto ainda nem haviam sido descobertos; e eles mudaram muito nosso entendimento sobre o panorama geral das Escrituras.

Bibliografia:
ABEGG, Martin Jr. (Org.) et al. The Dead Sea Scrolls Bible. HarperCollins: São Francisco, 1999.

FREHOF, Solomon B. Ezekiel. Disponível em: <http://www.myjewishlearning.com/article/ezekiel/>. Acesso em 20 Jul. 2017.

JOSEFO, Flavio. William Whiston. Contra Apion. Cambridge: Cambridge University Press, 1736.

LEIMAN, S. The Canonization of Hebrew Scripture: The Talmudic and Midrashic Evidencel. Hamden: Connecticut Academy of Arts and Sciences, 1976.

SINGER, Isidor (org.); et al. The Jewish Encyclopedia: BIBLE CANON. Nova Iorque: Funk and Wagnalls Company, 1906.

VERMES, Geza. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Londres: Penguin Books, 1995.

WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

A New English Translation of the Septuagint: Sirach Prologue. Nova Iorque: Oxford University Press, 2007

Babylonian Talmud. Tradução de Rabbi Dr. Isidore Epstein. Soncino Press, Reino Unido: 1934.

O Mistério dos Dois Jesus

Introdução ao Adocionismo
Antes de se aventurar por este texto, recomendo ao leitor que leia este aqui, onde se fala sobre a questão do adocionismo, também conhecido como docetismo.

Resumidamente, era talvez a doutrina cristã primitiva mais popular para falar sobre a divindade de Jesus. Nela, Jesus teria sido um homem comum, revestido do Espírito Santo – também chamado de Espírito de Cristo – e assim “adotado” como filho de Deus, no mesmo sentido em que os reis de Israel eram chamados de filhos de Deus.

A Salvação e os Cristãos Primitivos
Essa doutrina também impactava a maneira como os cristãos primitivos viam a questão da salvação. Para eles, a salvação vinha de crer em e obedecer ao Espírito de Cristo, não de idolatrar a pessoa de Jesus ou procurar ter a pessoa de Jesus como mediador.

Poderia-se dizer, numa linguagem mais condizente com o Judaísmo antigo, que muitos grupos proto-cristãos e cristãos primitivos acreditavam que a salvação vinha por crer em e obedecer ao Espírito Santo. Só assim poderiam se libertar das amarras do pecado.

Combate à Idolatria?
Mas, os adocionistas também se preocupavam muito em combater a ideia de que a pessoa de carne e osso de Jesus viesse a ser idolatrada. Para eles, Jesus teve mérito de ser o veículo para o Espírito Santo, mas não era para ser tomado como objeto de fé.

Um dos textos mais claros sobre isso é o chamado Apocalipse Copta de Pedro. E o próprio texto, em si, é um mistério. Datando do século 2 d.e.c., foi encontrado entre os escritos gnósticos na Biblioteca de Nag Hammadi, um compêndio de textos gnósticos encontrados no Egito em 1945.

Dois Jesus?
Esse texto traz uma forte condenação àqueles que teriam elevado Jesus, o homem, a uma condição de idolatria, ou mesmo de tê-lo como purificação dos pecados.

Para a obra, a purificação ocorreu quando a carne deixou de ser habitada pelo Espírito de Cristo e foi entregue às impurezas. Sendo assim, aceitá-la como mediador seria a mesma coisa que associar-se a tais impurezas.

Como se pode perceber, o autor do Apocalipse Copta de Pedro não estava muito feliz com o ganho de força da doutrina da divindade inata de Jesus.

O Apocalipse Copta de Pedro
Abaixo, trechos da obra:

“E eles se apegarão ao nome de um homem morto, pensando que irão ficar puros. Mas eles se tornaram grandemente contaminados e cairão em um nome de erro, e na mão de um homem enganoso e em muitos dogmas. E serão governados sem lei…

“E o salvador me disse: Aquele que você viu no madeiro, feliz e risonho, esse é o Jesus vivo. Mas esse em cujas mãos e pés eles colocam os pregos é sua parte carnal, que é o substituto colocado à vergonha, aquele que veio a existir à sua imagem. Mas, olhe para e ele e olhe para mim…

Aquele a quem crucificaram é o primogênito, a morada dos demônios, o vaso de pedra no qual habitam, de Deus, da cruz, que está debaixo da lei. Mas aquele que está ao lado dele é o salvador vivo, o primeiro nele, quem tomaram e soltaram, que está alegremente olhando para aqueles que cometeram violência contra ele, enquanto estão divididos entre eles.

Portanto, ele ri da falta de percepção deles, sabendo que nasceram cegos. Então aquele que está suscetível ao sofrimento virá, uma vez que seu corpo é o substituto. Mas o que eles soltaram foi meu corpo incorpóreo. Mas eu sou o Espírito intelectual preenchido de luz radiante.”

Jesus x Espírito de Cristo
Em suma, o autor do Apocalipse Copta de Pedro entende que seria errado depositar sua confiança no homem de carne e osso, que seria uma similitude para o “Espírito de Cristo”.

Observe, portanto, que ele fala da existência de dois Jesus: Um terreno, humano, e o outro que na realidade seria o Espírito de Cristo. Para o leitor cristão de hoje, a existência de dois Jesus seria algo tido como bizarro.

Trata-se de um passo adiante do adocionismo ou docetismo tradicional, mas que provavelmente não seria tido como uma visão assim tão estranha por parte dos próprios adocionistas.

Mas, outro ponto bastante curioso dessa obra é revelar a tensão crescente nas comunidades cristãs acerca da natureza de Jesus.

Se mesmo a Bíblia Cristã em sua forma atual dá margens a diferentes em relação a isso, quando se olha para a história, o que se vê são conflitos bastante tensos acerca dessa questão.

Conclusão Herege
O autor herege é judeu e não cristão. E, assim sendo, não crê em Jesus e evita dar palpites sobre a doutrina cristã. Mas, é inegável que a teoria adocionista, embora não seja essencialmente judaica, está mais próxima do Judaísmo antigo do que doutrinas posteriores, como o Arianismo, o Modalismo ou o próprio Trinitarismo.

Seja qual for a crença do leitor, o autor herege considera interessante que os cristãos conheçam como se desenvolveu a doutrina acerca da figura de Jesus até atingir um certo consenso.

Consenso esse que vem sendo bastante contestado, a medida que a autoridade da Igreja Católica em estabelecê-lo é contestada. E se essas diferenças eram bastante difundidas nos tempos antigos, não deveriam ser mais toleradas entre os próprios cristãos?

Bibliografia
MEYER, Marvin (Org.). The Nag Hammadi Scripturs: The International Edition. Nova Iorque: HarperCollins, 2009

James Brashler; Roger A. Bullurd. The Apocalypse of Peter. Leiden: Brill.

A Festa Perdida da Aliança

Uma Festa Agrícola
Na Lei de Moisés, no livro de Levítico, encontramos a seguinte observação:

“Depois para vós contareis desde o dia seguinte ao sábado, desde o dia em que trouxerdes o molho da oferta movida; sete semanas inteiras serão. Até ao dia seguinte ao sétimo sábado, contareis cinquenta dias; então oferecereis nova oferta de alimentos ao Senhor.” (Levítico 23:15,16)

A origem das festividades bíblicas é predominantemente agrícola, começando pela festa das primícias da colheita da cevada na primavera, conhecida como a Festa dos Ázimos.

A segunda festa é conhecida como Festa das Semanas, referindo-se à nova oferta de alimentos feita pelos israelitas sete semanas depois da primeira. Muito provavelmente, quando começava a colheita do trigo.

É a festa conhecida no meio cristão como Pentecostes, em virtude da Septuaginta trazer Pentēkostē, que no grego significa cinquenta – pois a festa era celebrada um dia depois das sete semanas (7×7 = 49).

Outra Tradição Mosaica
Existe, contudo, uma outra tradição, de tempos em que os costumes bíblicos ainda não estavam tão consolidados e, possivelmente, que as variantes textuais dos manuscritos permitiam outras interpretações.

Uma obra que persistentemente faz isso é aquela chamada de Livro dos Jubileus, uma obra do século 2 a.e.c. que re-narra os acontecimentos e as leis de Moisés de uma maneira bastante diferente. Essa obra, muito importante para a seita de Qumran no Mar Morto, ainda permanece no cânon da Bíblia dos judeus etíopes, bem como também dos cristãos etíopes ortodoxos.

Muito provavelmente, Jubileus foi escrito na comunidade de Alexandria, por judeus que, descontentes com o sistema religioso (tido como corrupto) do Segundo Templo, buscavam pautar suas práticas noutras origens. O livro procura fortemente associar as festividades bíblicas com os costumes dos patriarcas de Israel.

O mais curioso de Jubileus é que ele entra em choque com diversos trechos do Pentateuco tal qual o conhecemos, mas sem deixar de ser extremamente religioso – muitas vezes, mais até do que a recomendação do próprio Pentateuco. Reconhece a revelação dada a Moisés no Sinai, mas ainda assim combate abertamente determinados pontos do texto bíblico.

Teria Jubileus sido escrito numa época em que o texto bíblico era mais fluido e prevaleciam as tradições orais? Ninguém sabe.

Festa das Semanas ou dos Juramentos?
Mas, um dos fatos mais curiosos sobre Jubileus tem a ver justamente com a Festa da Semanas.

No hebraico, a palavra “semanas” (shavu`ot – שבעת) se escreve de maneira idêntica à palavra “juramentos” (shevu`ot – שבעת), a diferença estando apenas na primeira vogal. Porém, o texto bíblico original não era escrito com vogais, que são um artifício criado muitos séculos depois.

Em outras palavras, olhando apenas para a palavra em si, é impossível determinar se estamos falando da Festa das Semanas ou da Festa dos Juramentos. A interpretação tradicional vai na primeira direção.

A Explicação de Jubileus
Vamos, portanto, conhecer a posição menos tradicional. Abaixo, um trecho do Livro de Jubileus:

“E ele deu a Noé e seus filhos um sinal de que não haveria mais dilúvio na terra para destruí-la por todos os dias da terra. Por essa razão, está ordenado e apontado nas tábuas celestiais, que devem celebrar a Festa dos Juramentos neste mês uma vez por ano, para renovar a aliança todo ano.

E esse festival todo era celebrado no céu desde o dia da criação até os dias de Noé – vinte e seis jubileus e cinco semanas de anos – e Noé e seus filhos o observaram por sete jubileus e uma semana de anos, até o dia da Morte de Noé.

E desde o dia da morte de Noé os seus filhos o aboliram até os dias de Abraão. E comiam sangue. Mas Abraão o observou; e Isaque e Jacó e seus filhos o observaram até os teus dias. E nos teus dias os filhos de Israel se esqueceram dele até tu o celebraste renovado sobre esta montanha.

E ordena os filhos de Israel a celebrarem esta festa por todas as suas gerações. Pois é a Festa dos Juramentos e a Festa das Primícias: essa festa tem duas partes e é de dupla natureza.” (Jubileus 6:15-21)

Como se pode perceber, para o autor de Jubileus, Shevu`ot, a Festa dos Juramentos, não é apenas uma festividade agrária. Ela é a mais importante de todas as solenidades, quando os filhos de Deus deveriam renovar suas alianças perante eles.

Isso era levado extremamente à sério na comunidade de Qumran, que possuíam uma cerimônia elaboradíssima para a renovação desses votos. E, o mais curioso, é que para Jubileus isso não se restringe a Israel, mas foi estendido a toda a humanidade.

Como as festividades de Israel adquiriram, ao longo do tempo, caráter bastante nacionalista, frequentemente celebrando momentos importantes de sua história, era raro ver a recomendação de que essas festividades fossem celebradas por toda a humanidade. Embora, haja traços disso em textos como, por exemplo, Zacarias 14, a referência parece ser a uma homenagem a Israel e seu papel.

A posição do autor de Jubileus é bastante incomum e curiosa, estendendo a obrigatoriedade a todos os povos.

De Festa Agrícola a Festa da Aliança
Muito provavelmente, a origem dessa leitura de Jubileus é a mesma que veio a associar a Festa das Semanas com a outorga da Lei Mosaica, embora a própria Lei Mosaica nada diga a essa respeito.

Isto é, uma vez que se estava no exílio, com o Templo em ruínas, ficava difícil se identificar com uma festividade que comemorava basicamente a entrega das primícias da segunda colheita da primavera. O mesmo vale para comunidades, como Alexandria e Qumran, que haviam rompido com o sistema do Templo

Um dado no relato de Jubileus também é interessante: O esquecimento da celebração. Muito provavelmente, essa celebração havia passado a ser secundária para os israelitas exilados.

A solução de associá-la a algo tão importante – a renovação da aliança – visava justamente o resgate de seu status. Provavelmente, o mesmo benefício que se viu fazendo a associação da festividade com a Outorga da Lei Mosaica, algo que perdurou na linha mais tradicional.

De todo jeito, percebe-se um fenômeno bastante interessante: A festividade permanecendo, mas as razões para ela sendo modificadas com o tempo. Isso se pode perceber não apenas nessa, mas em todas as festas bíblicas e até mesmo algumas festas extra-bíblicas, tais como Hanuká.

No Cristianismo, o mesmo fenômeno se observou, com a adoção de festividades e costumes das religiões pagãs, adaptados à fé nascente.

É mais fácil mudar a explicação do que combater uma prática já estabelecida, da mesma forma que é mais fácil dar uma boa razão para a festa do que tentar convencer o povo a celebrar algo que já não faz mais parte de sua realidade.

Conclusão
O autor herege entende que Shavu`ot (Semanas) é a leitura mais original, pois a origem agrícola é inegavelmente a mais antiga. O próprio texto de Jubileus, fazendo alusão ao “duplo sentido” da festividade indica que sua leitura é inovadora.

Porém, a prática de reler palavras hebraicas com outras vogais para dar novo sentido foi bastante importante na época do Segundo Templo. Foi, inclusive, o que fez com que as sete semanas profetizadas por Jeremias se tornassem as setenta semanas de Daniel (deixo essa pesquisa a cargo do leitor.)

O texto de Jubileus pode explicar porque às vezes vemos mandamentos tão fortes ou severos para coisas aparentemente de importância menor: Seria difícil entender porque a aliança com Deus dependeria de uma simples cerimônia de renovação de votos.

Quando compreendemos, porém, que esse peso veio para evitar o esquecimento, podemos entender melhor os motivos do autor e até mesmo apreciar sua tentativa de salvar sua cultura religiosa.

Bibliografia
CHARLES, R. H. The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament. Oxford: The Clarendon Press, 1913.

DAVENPORT, Gene L. The Eschatology of the Book of Jubilees. Leiden: Brill, 1971.

VERMES, Geza. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Londres: Penguin Books, 1995.

WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

George H. Schodde. The Book of Jubilees. Columbus: Lazarus Ministry Press, 1999.

Robert Henry Charles. The Book of Jubilees: An Ancient Jewish Religious Work. Oxford: The Clarendon Press, 1895.

Quando Elias e a Profecia Retornaram a Israel

Promessas Proféticas

“Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor.” (Malaquias 4:5)

A enigmática profecia feita por Malaquias gera, até hoje, muita discussão com relação à pergunta que ela própria deixa: Quem cumpriu a profecia do retorno do profeta Elias, ou quando ela viria a ser cumprida?

Para deixar as coisas mais enigmáticas, uma profecia de Oséias diz:

“Porque os filhos de Israel ficarão por muitos dias sem rei, e sem príncipe, e sem sacrifício, e sem estátua, e sem éfode ou terafim.” (Oséias 3:4)

Muitos associam ambas as passagens e entendem que o retorno de Elias marcaria também o tempo em que a profecia voltaria a Israel. Hoje em dia, as religiões entendem que isso ainda está por se cumprir. Mas, nem sempre foi assim.

E muito antes da associação que viria a ser feita pelos cristãos entre João Batista e Elias, o povo judeu já havia feito outra associação de Elias com um personagem de sua história.

O Sumo-Sacerdote
Refiro-me a João Hircano (Yo’hanan Hurqanus, no hebraico). Filho de Simão o macabeu e, portanto, sobrinho de Judá o macabeu, João Hircano foi sumo sacerdote na região da província independente da Judéia por trinta anos, entre 134 a.e.c. e 100 a.e.c..

A biografia de João Hircano é extensa demais para ser citada neste artigo, porém a figura de João Hircano geralmente é cercada de amor e ódio, como ocorre com todo líder forte.

Uma pessoa de muitas posses, João Hircano reabasteceu o Templo do Senhor com muitos tesouros, frutos de sua imensa generosidade. Uma pessoa bastante compromissada com sua fé, João Hircano combateu o helenismo e foi muito querido pela seita dos fariseus, no começo de sua existência.

Amado e Odiado
Porém, viria a ser visto com desconfiança pelos próprios fariseus, quando começou a se aproximar dos saduceus. Há quem diga que isso ocorreu por afinidade doutrinária e há quem diga que isso aconteceu por pressão dos fariseus de que ele abdicasse do trono de Israel em favor de um descendente da família de Davi.

Também foi odiado por samaritanos, em virtude de sua guerra com Samaria, bem como visto com desconfiança também pela seita de Qumran, que esperava que Israel fosse governado por um sacerdote da linhagem de Zadoque.

Profeta ou Falso Profeta?
Porém, há três referências históricas a ele que impressionam. Observe o que diz o historiador judeu Flavio Josefo (século 1 d.e.c.):

“Quando [João] Hircano colocou fim a essa divisão, depois disso viveu alegremente e administrou o governo da melhor maneira por trinta e um anos e então morreu, deixando depois dele cinco filhos. Ele era estimado por Deus como digno dos maiores privilégios – o governo de sua não, a dignidade do sumo sacedócio e a profecia; pois Deus era com ele e o capacitou a conhecer o futuro; e a prever, particularmente quanto a seus dois filhos mais velhos, que não continuariam nos assuntos públicos do governo; cuja infeliz catástrofe será digna de nossa descrição, para que possamos então aprender quanto a como foram inferiores à fortitude de seu pai.” (Antiguidades 13:10:7)

Josefo afirma categoricamente que ele teria tido dons proféticos. Mas, o mais curioso é que a seita de Qumran, do século 2 a.e.c., confirma isso, porém o categoriza entre os falsos profetas de Israel, dizendo:

“[F]alsos profetas que se levantaram em I[srael:] Balaão [filho de] Beor; [O] idoso de BEtel; [Zede]quias filho de Que[na]aná; [Aca]be filho de C[ol]aías; [Zede]quias filho de Ma[a]séias; [Semaías o n]elamita; [Hananias filho de A]zur; [João filho de Sim]ão… [o profeta que foi de Gibe]ão.” (4Q339)

Para que se tenha uma ideia da importância de João Hircano, todos os demais nomes listados nesse manuscrito são de pessoas descritas pela própria Bíblia. Ao que tudo indica, essa lista foi compilada justamente com o propósito de dizer que o sumo-sacerdote João Hircano teria sido um falso profeta.

Se ele era tido como falso profeta, então isso significa que realmente seus supostos dons proféticos seriam conhecidos pelo povo.

Rei, Sumo-Sacerdote, Profeta e… Elias
E o mais impressionante é que esse pensamento acerca de João Hircano perdurou bastante, pois o Targum Pseudo-Jonathan, do século 8 d.e.c., afirma:

“Abençoa, Senhor, o sacrifício da casa de Levi, que dá o dízimo do dízimo; e a oblação pela mão de Elias o sacerdote, que oferecerá no monte Carmelo, recebe-a com tua aceitação; quebra os lombos de Acabe seu inimigo e o pescoço dos falsos profetas que se levantam contra ele, que os inimigos de João o sumo sacerdote não tenham pé em que se levantar.” (Targum Pseudo-Jonathan – Deuteronômio 33:11)

Aqui temos uma identificação de João Hircano como o próprio Elias! Certamente que essa tradição é bastante antiga e reflete a grande popularidade do sumo sacerdote, bem como o reconhecimento do povo de seus dons proféticos.

Como se pode perceber, os dons proféticos de João Hircano eram bastante conhecidos em Israel. Curiosamente, se ele era um falso profeta ou um profeta verdadeiro tem mais a ver com conflitos e disputas políticas do que com cumprimento, ou não, daquilo que dizia.

De fato, na época do Segundo Templo, a profecia não era tida como um dom perdido, mas sim algo bastante presente. Há, por exemplo, inúmeros manuscritos do Mar Morto que fazem profecias acerca do destino de Israel, da Era Messiânica e até do fim dos tempos.

O que elas dizem? Isso é assunto para outros artigos hereges.

Conclusão Herege
Como este é um site de natureza histórica, não compete ao autor herege avaliar se João Hircano foi ou não um profeta, ou seria o cumprimento da profecia de Malaquias sobre o retorno de Elias.

Porém, é inegável que João Hircano, além de rei sobre a Judéia e sumo-sacerdote, era também tido como um grande profeta por muitos e um falso profeta por seus adversários.

Em virtude das aspirações das religiões em estabelecer suas visões tradicionalistas, essa associação e atribuição foi para sempre esquecida, lacrada a sete chaves, mas ainda lembrada pelos livros históricos e teses acadêmicas.

Bibliografia
VERMES, Geza. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Londres: Penguin Books, 1995.

JOSEFO, Flavio. Whiston, William. The Antiquities of the Jews. Project Gutemberg, 2001.

WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

John Wesley Etheridge. The Targums of Onkelos and Jonathan Ben Uzziel: On the Pentateuch With The Fragments of the Jerusalem Targum From the Chaldee. 1862.