A Criação da Matéria e do Espírito

O Relato da Criação
O relato de Gênesis 1 não se propõe a ser um tratado científico sobre a Criação do mundo, mas sim dar ao leitor semita uma perspectiva que ele fosse capaz de compreender, utilizando linguagem e simbolismo que já lhe era familiar, tal como a ideia de jardins, serpentes e frutos proibidos.

Contudo, o relato passou a fascinar gerações posteriores, que buscavam nele entendimento sobre a essência das coisas, bem como respostas acerca de como a criação de fato ocorreu.

A Leitura de Fílon
Uma das visões heterodoxas mais importantes sobre a Criação, mas nem sempre das mais conhecidas, é a de Fílon (Yedidya haKohen), um filósofo e sacerdote judeu de Alexandria que viveu no século 1 d.e.c.

Ele traz uma abordagem bastante curiosa sobre Gênesis 1 e 2. Veja abaixo o que ele diz:

“E o céu e a terra e todo o seu mundo foi concluído.” Tendo anteriormente relatado a criação da mente e do sentido, Moisés agora procede para descrever a perfeição que trouxe ambos. E ele diz que nem a mente indivisível nem as sensações particulares receberam perfeição, mas somente ideias, uma é a ideia da mente, a outra da sensação.

E falando simbolicamente ele chama à mente de céu, uma vez que as naturezas que só podem ser compreendidas pelo intelecto estão no céu. E à sensação ele chama terra, porque é a sensação que obteve uma constituição corpórea e de alguma forma terrena. Os ornamentos da mente são todos coisas incorpóreas, que são percebidas somente pelo intelecto.

As coisas da sensação são corpóreas e, resumindo, tudo o que é perceptível pelos sentidos exteriores.” (Interpretação Alegórica 1:1)

O Despertar da Consciência
O que diferencia a visão de Fílon dos demais é que, para ele, o relato da criação em Gênesis 1 e 2 não é um relato *de fato* sobre a criação dos céus e da terra, mas sim um relato sobre o desenvolvimento da percepção humana.

Para Fílon, quando a Bíblia diz que o Eterno criou os céus, essa é uma referência ao despertar da humanidade quanto às coisas espirituais.

Como ele próprio explica no texto, as coisas espirituais são chamadas metaforicamente de celestiais, porque o ser humano só podia perceber os céus através de sua inteligência e abstração, já que não tinha acesso a ele.

Já a criação da terra, para Fílon, tem relação com a percepção das coisas ao nosso redor. Isto é, aquilo que nós experimentamos pelos sentidos: o tato, o paladar, a visão, etc.

Em outras palavras, para Fílon, o relato de Gênesis 1 e 2 tem a ver com o despertar da consciência do homem, não com a criação do cosmos.

Para ele, a Bíblia de um modo geral é um modelo para esse despertar. Cada narrativa, cada história e parábola, é uma história de nós mesmos. E de nosso movimento na direção da eternidade do Criador.

Conclusão Herege
O pensamento de Fílon é bastante interessante. E provavelmente encontraria mais adeptos na atualidade do que na antiguidade.

É inegável que Fílon foi influenciado pelo pensamento platônico. Todavia, o autor herege considera um erro atribuir todo e qualquer tipo de dualidade existencial ao Platonismo, pois a Bíblia traz sim uma dualidade entre espiritualidade e matéria, desde justamente o relato do Gênesis.

O autor herege não crê que o relato de Gênesis 1 e 2 tenha por objetivo falar do despertar da consciência. Porém, vê com bons olhos a ideia de ler as Escrituras a partir do prisma do Eu – isto é – daquilo que as Escrituras podem ensinar a respeito de cada um de nós.

Bibliografia
CAIRD, Edward. The Evolution of Theology in the Greek Philosophers vol. 2 – Lecture Twenty-first: The Philosophy and Theology of Philo. Glasgow: University of Glasgow, 1904.

HENDERSON, Jeffrey (Org.) Philo – Volume 1 – Allegorical Interpretation of Genesis II, III. Cambridge: Harvard University Press, 1929.

Felipe Moura

Felipe Moura

Felipe Moura é judeu, teólogo, herege e não se responsabiliza pelo destino da sua alma se você ler as informações contidas neste site.

Os textos postados aqui no Portal O Herege visam levar conhecimento de conteúdo histórico e não necessariamente expressam a visão de mundo ou as crenças do autor.

1 thought on “A Criação da Matéria e do Espírito”

  1. A medida que o ser humano vai evoluindo, ele vai tendo sua percepção ampliada. Antes eu cria que Gênesis era algo literal, mas ao estudar e ler junto as fontes judaicas, além da reflexão pessoal, pude aprender que cada livro tem seu estilo literário, portanto, o não conhecimento das figuras de linguagens e gêneros literários nos leva a ter várias interpretações equivocadas, além claro da subjetividade. Sem contar da forçação de barra em querer colocar a nossa visão como absoluta e inerrante.

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