O Mistério dos Dois Jesus

Introdução ao Adocionismo
Antes de se aventurar por este texto, recomendo ao leitor que leia este aqui, onde se fala sobre a questão do adocionismo, também conhecido como docetismo.

Resumidamente, era talvez a doutrina cristã primitiva mais popular para falar sobre a divindade de Jesus. Nela, Jesus teria sido um homem comum, revestido do Espírito Santo – também chamado de Espírito de Cristo – e assim “adotado” como filho de Deus, no mesmo sentido em que os reis de Israel eram chamados de filhos de Deus.

A Salvação e os Cristãos Primitivos
Essa doutrina também impactava a maneira como os cristãos primitivos viam a questão da salvação. Para eles, a salvação vinha de crer em e obedecer ao Espírito de Cristo, não de idolatrar a pessoa de Jesus ou procurar ter a pessoa de Jesus como mediador.

Poderia-se dizer, numa linguagem mais condizente com o Judaísmo antigo, que muitos grupos proto-cristãos e cristãos primitivos acreditavam que a salvação vinha por crer em e obedecer ao Espírito Santo. Só assim poderiam se libertar das amarras do pecado.

Combate à Idolatria?
Mas, os adocionistas também se preocupavam muito em combater a ideia de que a pessoa de carne e osso de Jesus viesse a ser idolatrada. Para eles, Jesus teve mérito de ser o veículo para o Espírito Santo, mas não era para ser tomado como objeto de fé.

Um dos textos mais claros sobre isso é o chamado Apocalipse Copta de Pedro. E o próprio texto, em si, é um mistério. Datando do século 2 d.e.c., foi encontrado entre os escritos gnósticos na Biblioteca de Nag Hammadi, um compêndio de textos gnósticos encontrados no Egito em 1945.

Dois Jesus?
Esse texto traz uma forte condenação àqueles que teriam elevado Jesus, o homem, a uma condição de idolatria, ou mesmo de tê-lo como purificação dos pecados.

Para a obra, a purificação ocorreu quando a carne deixou de ser habitada pelo Espírito de Cristo e foi entregue às impurezas. Sendo assim, aceitá-la como mediador seria a mesma coisa que associar-se a tais impurezas.

Como se pode perceber, o autor do Apocalipse Copta de Pedro não estava muito feliz com o ganho de força da doutrina da divindade inata de Jesus.

O Apocalipse Copta de Pedro
Abaixo, trechos da obra:

“E eles se apegarão ao nome de um homem morto, pensando que irão ficar puros. Mas eles se tornaram grandemente contaminados e cairão em um nome de erro, e na mão de um homem enganoso e em muitos dogmas. E serão governados sem lei…

“E o salvador me disse: Aquele que você viu no madeiro, feliz e risonho, esse é o Jesus vivo. Mas esse em cujas mãos e pés eles colocam os pregos é sua parte carnal, que é o substituto colocado à vergonha, aquele que veio a existir à sua imagem. Mas, olhe para e ele e olhe para mim…

Aquele a quem crucificaram é o primogênito, a morada dos demônios, o vaso de pedra no qual habitam, de Deus, da cruz, que está debaixo da lei. Mas aquele que está ao lado dele é o salvador vivo, o primeiro nele, quem tomaram e soltaram, que está alegremente olhando para aqueles que cometeram violência contra ele, enquanto estão divididos entre eles.

Portanto, ele ri da falta de percepção deles, sabendo que nasceram cegos. Então aquele que está suscetível ao sofrimento virá, uma vez que seu corpo é o substituto. Mas o que eles soltaram foi meu corpo incorpóreo. Mas eu sou o Espírito intelectual preenchido de luz radiante.”

Jesus x Espírito de Cristo
Em suma, o autor do Apocalipse Copta de Pedro entende que seria errado depositar sua confiança no homem de carne e osso, que seria uma similitude para o “Espírito de Cristo”.

Observe, portanto, que ele fala da existência de dois Jesus: Um terreno, humano, e o outro que na realidade seria o Espírito de Cristo. Para o leitor cristão de hoje, a existência de dois Jesus seria algo tido como bizarro.

Trata-se de um passo adiante do adocionismo ou docetismo tradicional, mas que provavelmente não seria tido como uma visão assim tão estranha por parte dos próprios adocionistas.

Mas, outro ponto bastante curioso dessa obra é revelar a tensão crescente nas comunidades cristãs acerca da natureza de Jesus.

Se mesmo a Bíblia Cristã em sua forma atual dá margens a diferentes em relação a isso, quando se olha para a história, o que se vê são conflitos bastante tensos acerca dessa questão.

Conclusão Herege
O autor herege é judeu e não cristão. E, assim sendo, não crê em Jesus e evita dar palpites sobre a doutrina cristã. Mas, é inegável que a teoria adocionista, embora não seja essencialmente judaica, está mais próxima do Judaísmo antigo do que doutrinas posteriores, como o Arianismo, o Modalismo ou o próprio Trinitarismo.

Seja qual for a crença do leitor, o autor herege considera interessante que os cristãos conheçam como se desenvolveu a doutrina acerca da figura de Jesus até atingir um certo consenso.

Consenso esse que vem sendo bastante contestado, a medida que a autoridade da Igreja Católica em estabelecê-lo é contestada. E se essas diferenças eram bastante difundidas nos tempos antigos, não deveriam ser mais toleradas entre os próprios cristãos?

Bibliografia
MEYER, Marvin (Org.). The Nag Hammadi Scripturs: The International Edition. Nova Iorque: HarperCollins, 2009

James Brashler; Roger A. Bullurd. The Apocalypse of Peter. Leiden: Brill.

Felipe Moura

Felipe Moura

Felipe Moura é judeu, teólogo, herege e não se responsabiliza pelo destino da sua alma se você ler as informações contidas neste site.

Os textos postados aqui no Portal O Herege visam levar conhecimento de conteúdo histórico e não necessariamente expressam a visão de mundo ou as crenças do autor.

2 thoughts on “O Mistério dos Dois Jesus”

  1. O que o artigo toca numa discussão essencial do cristianismo. A crença que Jesus é DEUS mas, essa discussão não é de agora, já vem de mais de 2017 anos. Eu sou evangélico, e acredito em Jesus hoje como um sábio, um homem justo e piedoso. Antes eu tinha medo de questionar essa doutrina, por medo de ir para o inferno, mas, ao buscar á DEUS de forma reflexiva e humilde, sabendo que nada sei, consegui entender nas entrelinhas e discordâncias dos evangelhos sobre o verdadeiro Jesus. Hoje, continuo sendo evangélico, porém não creio na trindade. Creio assim como Jesus disse ao ser indagado no evangelho de Mateus 12:29, onde Jesus recita o shemá israel. Esse é apenas um dos textos que mostram o verdadeiro Jesus.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *