Quando Enoque virou Messias

I – Introdução: Dois Mistérios
Duas passagens bíblicas são cercadas de muito mistério. E, por razão disso, já foram tema de muitas especulações. E, quando necessário, foram muito usadas para construir teologias.

Uma dessas passagens é a da morte (?) de Enoque: “E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou.” (Gênesis 5:24)

Ora, por que Deus teria tomado Enoque para si? Uma resposta predileta de muitos é: Para livrá-lo da destruição causada pelo dilúvio em Gênesis 5. Ou seja, Enoque era tão justo que Deus resolveu preservá-lo.

Outra passagem enigmática é a do filho do homem em Daniel: “Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele. E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído.” (Daniel 7:13,14)

O versículo 27 do mesmo capítulo de Daniel parece indicar que o filho do homem aí mencionado é alusão ao Reino de Israel, nos tempos finais, quando seu reino teria domínio por toda a terra. Porém… Será que o filho do homem representa Israel como reino, ou representa o Messias que Israel aguarda? Ambas as leituras existem mesmo no meio judaico.

Juntar essas duas passagens era apenas questão de uma pitada de criatividade. Será que Enoque teria sido preservado por Deus justamente para poder voltar depois como um glorioso governante?

 

II – A Angústia por um Libertador
Agora vamos ao pano-de-fundo histórico: Desde o retorno do exílio babilônio, o Judaísmo começou a experimentar fragmentações cada vez maiores. E, com isso, crescia a insatisfação de determinados grupos com seus governantes.

Avançamos um pouco e vamos para a época da dominação dos selêucidas até a Revolta dos Macabeus: Líderes corruptos, brigas políticas, o Templo profanado, acordos de bastidores, e a religião judaica ameaçada. Para muitos judeus, aquele era tempo final. O tão temido apocalipse judaico havia chegado!

Temos pelo menos um fruto desse tempo dentro da própria Bíblia Hebraica: O livro de Daniel. Que, justamente, descreve a Revolta dos Macabeus como culminando na vinda da Era Messiânica. E muitas outras obras foram escritas nessa linha.

Um dos grupos de sacerdotes descontentes, e seus discípulos, refugiou-se nas cavernas do Mar Morto, depois de terem sido provavelmente expulsos do convívio com o Templo. Num de seus textos, lemos:

“’As serpentes são os reis das nações; e ‘o vinho deles’ são os seus costumes; e o ‘veneno das víboras’ é o chefe dos reis da Grécia, que vem fazer vingança sobre eles.” (4Q266 – Col. 8)

Com o sacerdócio profanado, a liderança corrompida e Israel sofrendo ocupação, era apenas natural que alguns grupos passassem a pensar: A saída não está num filho de Davi, nem no sacerdócio levítico. É preciso olhar para um tempo anterior a esse, para alguém que não se corrompeu.

 

III – Enoque como Solução
E aí, então, chegamos em Enoque. Um homem tão justo que foi poupado da destruição, tomado por Deus. Teria ele sido preservado justamente para vir a ser esse rei escatológico que comandaria os justos de Israel?

É assim que o próprio livro de Enoque se refere ao “filho do homem”, que também aprece na tradição de Daniel. Observe as passagens abaixo:

“Desde o princípio o Filho do Homem foi ocultado, e o Altíssimo o preservou na presença da Sua força e o revelou aos escolhidos.” (1 Enoque 62:1)

“E a soma do juízo foi dada ao Filho do Homem; e ele fez os pecadores perecerem e serem destruídos da face da terra; e aqueles que corromperam o mundo.” (1 Enoque 69:27)

A medida que as coisas iam se tornando mais tensas e o sofrimento do povo ia ficando maior, começava a crescer em Israel a ideia de um Messias poderoso. Porém, ele não poderia vir do meio desse pandemônio maluco. Ele teria que ser isento, incorruptível, totalmente alheio a esse contexto.

Foi em meio a isso, que Enoque se tornou o filho do homem, o Messias prometido.

Nesses momentos, criatividade não faltava para lidar com os “requisitos”. Da mesma forma que os Hasmoneus encontraram uma maneira de se manter no poder, também os “enoquianos” encontraram uma forma de vincular Enoque a esses requisitos. Teria, por exemplo, havido uma tradição de Enoque enquanto um rei na região de Jerusalém, tal como Melquisedeque?

Nos manuscritos do Mar Morto, encontramos referências desse tipo para ambos, inclusive. Teriam os membros da seita de Qumran acreditado que Melquisedeque e Enoque fossem a mesma pessoa? Tudo é possível. Mas, estamos na esfera da conjectura.

 

IV – Enoque como Messias Vindouro
Porém, fato é que encontramos o seguinte no livro de Enoque:

“E então o anjo veio a mim e com sua voz me saudou, dizendo: Tu és o Filho do Homem, que nasceu para a justiça, e a justiça repousou sobre ti.

E a retidão do Ancião de Dias não te abandonará… De ti procederá a paz em nome do mundo vindouro. Pois de lá procedeu a paz desde a criação do mundo, e assim te sucederá para sempre. Contigo será a habitação deles; nem de ti se separarão para todo sempre.” (1 Enoque 71:14-15)

Considerando a popularidade do Livro de 1 Enoque, fica muito evidente que um grande grupo de judeus acreditava que Enoque voltaria dos céus, pois tinha sido preservado para que pudesse reinar sobre os homens no Reino de Paz, que aconteceria logo depois que as nações fossem envergonhadas.

 

V – A Crença no Cristianismo Primitivo
Há um fator que também surpreende: Como poderia essa obra, que identifica Enoque como Messias, ter sido tão popular no meio cristão?

Que ela era considerada Escritura inspirada por, pelo menos, boa parte dos primeiros cristãos é fato inegável, pois ela é citada como tal pela Epístola de Judas 1:14-15, que a chama de profética.

Como, então, poderia tal livro influenciar cristãos, se ele trazia um “concorrente” para a própria figura de Jesus? E não podemos sequer afirmar que se tratava de outra obra, pois 1 Enoque foi preservada justamente pelo Cristianismo Ortodoxo, mais especificamente pela Igreja Etíope.

Há, então, quatro possibilidades:

1) Falta de Compreensão.
Não seria surpresa se a falta de entendimento do texto possa ter feito essa contradição passar desapercebida. Afinal, isso aconteceu com um dos mais renomados tradutores de 1 Enoque, Robert Henry Charles.

Em sua tradução, quando chega no ponto de Enoque identificado como Filho do Homem, Charles afirma: “Aqui há uma passagem perdida, em que o Filho do Homem era descrito como acompanhando o Ancião de Dias; e Enoque indagou a um dos anjos (como no 46:3) acerca do Filho do Homem e quem ele era.”

Alegar que havia uma “passagem perdida” era uma boa saída. Mas, é bastante improvável, pois o texto etíope está muito completo e bem preservado. Talvez Charles não tenha feito de propósito. Talvez ele tenha mesmo achado o texto estranho nesse trecho.

Semelhantemente, pode ser que os primeiros cristãos também tenham passado batido por esse trecho.

2) Mais de um Messias
Nos Manuscritos do Mar Morto, somos apresentados a mais de um Messias. Afinal, o termo ‘messias’ significa literalmente ungido e pode se aplicar a qualquer cargo ou função de destaque.

A seita do Mar Morto, por exemplo, esperava o Messias de Aarão e Israel (conforme o Documento de Damasco) e um Messias governante.

É possível que os cristãos que criam em 1 Enoque também poderiam crer assim. Embora no Judaísmo seja comum a ideia de vários ungidos/messias, no Cristianismo a ideia se consolida unicamente em torno de Jesus. Mas, talvez nem sempre tenha sido assim.

A principal dificuldade dessa ideia, porém, não é a quantidade de Messias, mas sim o fato de que Enoque é apresentado como sendo o Messias mais importante, a saber, o governante das nações na Era de Paz.

Será que, em dado momento, alguns dentre os primeiros cristãos consideraram Jesus um Messias secundário? Epifânio, por exemplo, cita um grupo chamado de “os pobres” (eviyonim/ebionitas) que tinham Jesus como uma espécie de profeta, mas não como Messias davídico. A ideia, portanto, não seria totalmente estranha.

3) A Mesma Pessoa
Não era estranho ao Judaísmo o hábito de vincular duas ou mais figuras importantes. Nos comentários judaicos, frequentemente vemos Sem virando Melquisedeque, Queturá sendo o nome próprio de Hagar, Lemuel sendo um dos nomes de Salomão e muitos outros.

Não seria de todo estranho conjecturar que alguns grupos pudessem associar Enoque a Jesus.

A maior dificuldade dessa posição seria a ausência de textos confirmadores de tal hipótese. Mas, como a história é contada pelos vencedores, isso não pode ser totalmente descartado.

4) Messiologia Diferente
Aqui está a mais provável hipótese: A de que os primeiros cristãos diferenciassem entre o “Espírito de Messias” e Jesus. Isto é, terem Jesus como um ser humano, que teria sido revestido de uma função espiritual messiânica.

Essa função espiritual é que seria, por assim dizer, um caráter divino ou semi-divino daquele que fosse escolhido. Isso permitiria que Enoque e Jesus partilhassem de uma mesma função no imaginário dos cristãos primitivos, sem haver aí contradição de ideias.

 

VI – O Impacto no Judaísmo
No Judaísmo, o livro de 1 Enoque não sobreviveu, salvo pelos fragmentos encontrados no Mar Morto, que são suficientes para indicar a grande importância da obra em dado momento histórico.

Porém, há um resquício dela na parábola judaica denominada Midrash de Shemhazai e Azael, no Midrash Rabatai.

Em dado trecho, essa parábola diz: “No momento da decisão da vinda do Dilúvio ao mundo chegou, o Sagrado, bendito seja Ele, enviou Metatron como mensageiro a Shemzahai. Ele lhe reportou: ‘O Sagrado, bendito seja Ele, está planejando destruir o mundo.’ Shemzahai se levantou e chorou em alta voz e lamentou, e se entristeceu pelo mundo e por seus filhos.”

Metatron, uma hebraicização da figura de Mitra da Pérsia, era tido pelos místicos judeus como uma espécie de ‘messias celestial’, bem como um mediador. A saber, o principal anjo que habitava na presença do Criador e governava os demais.

Em 1 Enoque, é justamente Enoque o primeiro a anunciar a destruição do mundo, logo no capítulo 1. E é justamente ele quem aparece dizendo o que acima é trazido pelo Midrash Rabatai:

“Os Sentinelas me chamaram – Enoque o escriba – e me disseram: Enoque, tu és o escriba da justiça, vai e declara aos Sentinelas que deixaram o alto céu, o santo lugar eterno e se profanaram com mulheres, e fizeram conforme os filhos da terra fazem, e tomaram para si esposas… mesmo que eles se deleitem em seus filhos, o assassinato de seus amados eles verão, e sobre a destruição de seus filhos lamentarão, e faram súplica pela eternidade, mas não terão misericórdia nem paz.” (1 Enoque 12:4-6)

Numa obra mística denominada Sefer Raziel haMalakh (o Livro de Raziel, o anjo), da Idade Média, preservou-se a tradição de associar Enoque com Metatron:

“A transformação de Enoque em Metatron foi feroz: sua carne se transformou em chama, seus ossos em carvões brilhantes, seus olhos brilhavam com brilho estelar, seus globos oculares se tornaram centelhas ardentes.”

Outras obras cabalistas posteriores preservaram a ideia. Essa ideia evoluiu e, com o passar do tempo, foi reinterpretada como simbólica do potencial humano de tornar-se divino através de suas boas ações.

 

Conclusão do Herege
Como se pode observar, Enoque foi no passado uma figura de grande importância, associada tanto nas tradições judaica e cristã com as criaturas mais elevadas, seja na terra ou na mitologia celestial.

Talvez a idolatria tenha tornado isso desconfortável, ao ponto da ideia praticamente desaparecer de ambas as tradições.

Embora não acredite em Messias algum (nem aguarde tal figura), o autor herege está aqui para lembrar que para uma importante parcela de pessoas na antiguidade, tanto no Judaísmo quanto no Cristianismo, Enoque um dia já foi Messias, tanto terreno quanto celestial.

Talvez se os desdobramentos políticos tivessem sido outros, essa ideia poderia ter se tornado mais tradicional nos tempos atuais.

Há um viés interessante nisso tudo. A elevação de Enoque simboliza o desejo do povo de se desprender das autoridades terrenas, corruptíveis, que eram vistas como responsáveis pelas calamidades que assolaram o povo judeu.

Ou seja, a mitologia enoquiana acaba por também lembrar da importância da pureza e da liberdade no serviço do Criador. E esses conceitos não merecem cair no esquecimento, mesmo que ninguém hoje pense em Enoque como um Messias ou um homem que se tornou anjo.

Bibliografia
BOCCACCINI, Gabriele (Org.) Enoch and Qumran Origins: New Light on a Forgotten Connection. Michigan, Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 2005.

HURST, L. D. Did Qumran Expect Two Messiahs? Davis: University of California, 1999.

SHAPIRO, Rami. Enoch’s Ascent: A Tale of a Jewish Angel. Zeek, 2009. Disponível em <http://zeek.forward.com/articles/115651/>. Acesso em 28 Jun. 2017.

WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

Midrash Bereshit Rabbati. Hanokh Albeck. Jerusalém: Mekitze Nirdamim, 1940.

The Book of Enoch. Robert Henry Charles. Oxford: The Clarendon Press, 1906.

The Book of Enoch the Prophet. Richard Laurence. Londres: Kegan Paul, Trench & Co., 1883.

Felipe Moura

Felipe Moura

Felipe Moura é judeu, teólogo, herege e não se responsabiliza pelo destino da sua alma se você ler as informações contidas neste site.

Os textos postados aqui no Portal O Herege visam levar conhecimento de conteúdo histórico e não necessariamente expressam a visão de mundo ou as crenças do autor.

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