Expiação Coletiva pelos Mortos

A Prática de Orar Pelos Mortos
A passagem abaixo provavelmente é desconhecida da maior parte dos judeus e também dos cristãos protestantes, uma vez que figura apenas o cânon da Septuaginta. Trata-se do livro de 2 Macabeus que, a exemplo do primeiro, contém informações históricas muito relevantes sobre a época do Segundo Templo, independente de ser ou não canônico:

“Depois, tendo organizado uma coleta individual, enviou a Jerusalém cerca de duas mil dracmas de prata, a fim de que se oferecesse um sacrifício pelo pecado: agiu assim absolutamente bem e nobremente, com o pensamento na ressurreição. De fato, se ele não esperasse que os que haviam sucumbido iriam ressuscitar, seria supérfluo e tolo rezar pelos mortos. Mas, se considerava que uma belíssima recompensa está reservada para os que adormecem na piedade, então era santo e piedoso o seu modo de pensar. Eis por que ele mandou oferecer esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido, a fim de que fossem absolvidos do seu pecado.” (2 Macabeus 12:43-45)

Essa passagem é teologicamente estranha para cristãos protestantes, já para os judeus é algo absolutamente normal, bem como para várias outras vertentes do Cristianismo. A saber, a questão de fazer expiação pelos pecados dos mortos.

Um Texto Quase Esquecido
Embora o tema em si seja relativamente conhecido, o que será apresentado neste artigo provavelmente não é, pois trata-se de um texto mais obscuro, que só sobrevive em duas comunidades religiosas minoritárias.

Refiro-me à obra conhecida como Testamento de Abraão, um texto judaico que foi escrito no máximo no século 1 d.e.c., que apresenta uma série de ideias através de uma alegoria de Abraão sendo levado aos céus, perto de sua morte.

Indubitavelmente de origem judaica pós-exílica, pois fala de arcanjos, céu e inferno, não se sabe exatamente se essa obra se originou na Judéia, ou se sua origem está na comunidade de Alexandria, que já tinha grande importância na ocasião.

A obra foi introduzida dos Beta Israel, judeus de origem etíope. Por maior isolamento geográfico de seus pares, acabaram preservando tradições muito distintas da ortodoxia judaica. E o Testamento de Abraão está entre elas.

Um Tema Central
O mais interessante dessa obra está justamente na questão da expiação pelos mortos. Muito mais do que apenas citá-la de passagem, como o faz a obra de 2 Macabeus, essa obra coloca a questão do justo fazer expiação pelos mortos como um tema central.

Isso ocorre como resposta a um sentimento que é bastante tardio nas religiões de origem Monoteísta: A ideia de que mesmo os ímpios mereçam o perdão. Embora o arrependimento esteja presente nos textos judaicos e cristãos, a ideia dos ímpios serem amplamente perdoados, ao invés de sumariamente destruídos, era inovadora.

Tão inovadora que ela ocupa também lugar central nesse texto, onde Abraão aparece aprendendo a lição de que não se deve desejar o mal para os ímpios. Algo muito diferente, por exemplo, dos desabafos dos justos nos livros dos Salmos.

Essa ideia gera, naturalmente, uma grande angústia: Como fazer para que o ímpio tenha uma chance de redenção, mesmo após a morte?

O Texto
O texto apresenta uma solução curiosa. Comentarei sobre ela após apresentar trechos da obra:

Após Abraão pedir ao Senhor para ver a terra toda antes de morrer, o Senhor ordena que Miguel, o arcanjo, o tome numa carruagem de querubins. A partir daí, temos a seguinte narrativa:

“E passando por eles viu homens com espadas, empunhando em suas mãos espadas afiadas, e Abraão perguntou ao capitão-chefe: Quem são esses? O capitão-chefe disse: Esses são ladrões, que intencionam cometer assassinato, e roubar e queimar e destruir. E Abraão disse: Senhor, Senhor, ouve minha voz, e ordena que feras selvagens venham da floresta e os devorem. E enquanto falava vieram feras selvagens e os devoraram.

E ele viu noutro lugar um homem com uma mulher cometendo prostituição um com o outro, e disse, Senhor, Senhor, ordena que a terra se abra e os engula, e imediatamente a terra se abriu e os engoliu.

E viu noutro lugar homens pilhando uma casa e levando embora os bens de outros homens, e ele disse: Senhor, Senhor, ordena que venha fogo dos céus e os consuma. E enquanto falava desceu fogo dos céus e os consumiu. E imediatamente uma voz veio do céu para o capitão-chefe, assim dizendo: Miguel, capitão-chefe, ordena que a carruagem pare, e muda o caminho de Abraão para que não veja toda a terra, pois ele verá que todos vivem em iniquidade e destruirá toda criação. Pois eis que Abraão não pecou e não tem piedade dos que pecam, mas Eu fiz o mundo e não desejo destruir nenhum deles, mas espero pela morte do pecador, até que ele se converta e viva. Mas leva Abraão ao primeiro portão do céu, para que veja julgamentos e recompensas e o arrependimento das almas dos pecadores que ele destruiu.” (Testamento de Abraão 10)

A passagem acima apresenta Abraão tendo a típica reação dos justos, indignados com a destruição da terra promovida pelos iníquos. Chega a ser difícil ler a passagem acima e não pensar: “Bem-feito!”

Porém, mais adiante, Abraão vê o juízo dos justos e dos iníquos e as coisas começam a mudar:

“Então Miguel virou a carruagem e trouxe Abraão ao Leste, ao primeiro portão do céu; e Abraão viu dois caminhos, um estreito e curto, outro largo e espaçoso, e lá viu dois portões: o portão largo no caminho largo, e o outro estreito no caminho estreito…

E eles viram muitas almas conduzidas pelos anjos ao longo do caminho largo, e outras almas, menores em número, que foram conduzidas pelos anjos pelo caminho estreito…

E Abraão disse ao capitão-chefe, meu senhor o capitão-chefe: A alma que o anjo detinha em sua mão, por que foi julgada e posta no meio? E o capitão-chefe disse: Ouve, oh justo Abraão. Porque o juiz considerou seus pecados, e sua retidão, iguais. Ele nem foi ordenado ao juízo nem salvo, até que o Juiz de tudo venha.

Abraão disse ao capitão-chefe: E o que falta para a alma ser salva? E o capitão-chefe disse: Se ela obtiver uma retidão acima de seus pecados, ela entrará na salvação. Abraão disse ao capitão-chefe: Vem aqui, capitão-chefe Miguel, façamos oração por essa alma e veremos se o Senhor nos ouvirá. O capitão-chefe disse: Amém, assim seja. E eles fizeram oração e pediram pela alma.

E Deus os ouviu e, quando se levantaram de sua oração, não viram a alma lá parada. E Abraão disse ao anjo: Onde está a alma que detinhas aqui no meio? E o anjo respondeu: Foi salva por causa de tua oração justa. E eis que um anjo de luz a tomou e a conduziu ao paraíso. E Abraão disse ao anjo: Glorifico o nome de meu Deus, o Altíssimo, em sua incomensurável misericórdia.

E Abraão disse ao capitão-chefe: Eu te imploro, arcanjo, dá ouvido ao meu pedido, e invoquemos o Senhor, e supliquemos Sua compaixão, e peçamos misericórdia para as almas daqueles que eu anteriormente, em minha ira, amaldiçoei e destruí, a quema. terra devorou, que as feras selvagens despedaçaram e que o fogo consumiu através de minhas palavras. Eis que pequei perante o Senhor nosso Deus.

Vem, então, Miguel, capitão-chefe dos exércitos superiores, vem e invoquemos o Senhor com lágrimas para que Ele perdoe meu pecado… E uma voz veio do céu, dizendo: Abraão, Abraão, eu ouvi tua voz e tua oração, e perdoei teu pecado, e aqueles que pensas que destruíste, Eu os chamei e os trouxe à vida pela minha imensa bondade, pois por um tempo os puni com juízo, e aqueles que destruí vivendo sobre a terra, não os punirei na morte.” (Testamento de Abraão 11,14)

Aqui temos a reviravolta. O impasse diante das almas que não são nitidamente justas, nem nitidamente ímpias, mostra a preocupação do autor com aquelas pessoas comuns, com pecados mais corriqueiros, que fizeram coisas boas e coisas ruins.

Depois de perceber que sua oração por aquela alma fez com que ela adentrasse o Paraíso, Abraão se dá conta do erro de desejar o mal para o iníquo.

E aí aparece uma das missões do justo, que é diferente daquilo que o leitor está acostumado: O justo deve se preocupar em fazer orações pelos mortos, para permitir que eles tenham a chance da Redenção.

Mesmo no Judaísmo, a expiação pelos mortos aparece muito pouco, geralmente restrita a fazer algo por uma pessoa próxima. Certamente não é tomada como uma missão nacional, ou incumbência dos justos.

A Árdua Missão do Justo
Mas, nesse texto, o episódio tem posição central. O justo não deve se preocupar apenas em levar o seu próximo, em vida, a se arrepender. Ele deve também fazer algo ativamente para assegurar a redenção dos que já partiram.

Já era clara, naquela época, a ideia de que era importante conduzir os pecadores ao arrependimento, para que pudessem ser remidos. Isso é dito explicitamente, por exemplo, no livro de Ezequiel, que traz:

“Se eu disser ao ímpio: Ó ímpio, certamente morrerás; e tu não falares, para dissuadir ao ímpio do seu caminho, morrerá esse ímpio na sua iniquidade, porém o seu sangue eu o requererei da tua mão. Mas, se advertires o ímpio do seu caminho, para que dele se converta, e ele não se converter do seu caminho, ele morrerá na sua iniquidade; mas tu livraste a tua alma.” (Ezequiel 33:8,9)

Porém, o texto acima fala sobre a morte física como punição ao ímpio. Não entra no mérito do pós-morte, ou mesmo da ressurreição, temas que só passam a ser mais importantes na literatura judaica a partir justamente do exílio.

O passo lógico seguinte seria: Se eu devo fazer algo para trazer os ímpios ao arrependimento, o que fazer quando já morreram? A resposta do autor do Testamento de Abraão é: Buscar orar ao Eterno, preferencialmente de maneira coletiva. Repare que Abraão chama até o arcanjo para orar junto com ele, o que dá a ideia da importância de um esforço coletivo em prol dos mortos.

No texto, o Senhor responde revelando que não punirá os ímpios eternamente. No Judaísmo, essa ideia também é bastante conhecida. No Cristianismo de linha Protestante, a teologia vai na direção oposta, decretando a perdição eterna para o pecador.

Porém, a ideia de fazer algo ativamente pelos que morreram na iniquidade dificilmente teria encontrado terreno fértil nas mentes de um povo que, desde o cativeiro babilônio, foi brutalmente perseguido e massacrado. Uma coisa é orar pela sua família e pessoas queridas. Outra bem diferente é por povos bárbaros, por exemplo.

Ainda assim, surpreendentemente, a ideia permaneceu viva na comunidade dos judeus etíopes. 

Conclusão Herege
O autor herege não considera o texto acima canônico ou inspirado, nem tem a intenção de criar dogmas sobre a morte e o juízo. Até porque, muito pelo contrário, acredita que não é bom ser muito dogmático quanto a isso.

Porém, a mudança de atitude promovida pelo texto é louvável: Encorajar que os justos tenham misericórdia até mesmo das piores pessoas, ao ponto de desejar que elas sejam plenamente recuperadas.

Da mesma forma, o autor não é contrário a qualquer tipo de oração em favor de pessoas que já partiram. Como o Senhor está fora do tempo, não vê problemas quanto a isso. Mas, entende que se o Senhor responderá ou não a isso cabe somente a Ele.

Numa oração, seja ela qual for, mais vale a intenção do coração daquele que pede do que o resultado final daquilo que o Senhor efetivamente fará.

Creia o leitor ou não na possibilidade de interceder pelos mortos, buscar o perdão para os grandes transgressores é uma experiência muito singular e que certamente vale à pena ser buscada.

Bibliografia
DE JONGE, M. (Org.) Outside the Old Testament: Testament of Abraham. Cambridge: Cambridge University Press, 1985.

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SINGER, Isidor (org.); et al. The Jewish Encyclopedia: ABRAHAM, TESTAMENT OF. Nova Iorque: Funk and Wagnalls Company, 1906.

SPARKS, H.F.D. (Org.) The Apocryphal Old Testament: Testament of Abraham. Oxford: Oxford University Press, 1985.

Felipe Moura

Felipe Moura

Felipe Moura é judeu, teólogo, herege e não se responsabiliza pelo destino da sua alma se você ler as informações contidas neste site.

Os textos postados aqui no Portal O Herege visam levar conhecimento de conteúdo histórico e não necessariamente expressam a visão de mundo ou as crenças do autor.

2 thoughts on “Expiação Coletiva pelos Mortos”

  1. Sim, sei disso. Por isso disse que consta na Septuaginta, que essencialmente é o cânon seguido pelos católicos romanos e ortodoxos.

    Mas, também é verdade que não consta no cânon do Texto Massorético, que é o cânon judaico tradicional.

    Quanto ao Testamento de Abraão, só consta no cânon da Bíblia Hebraica (“Antigo” Testamento) dos judeus etíopes, também conhecidos como Beta Israel. Esse é o texto que, na chamada do artigo, descrevo como um texto que quase se perdeu.

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