Medindo o Bem e o Mal no Espírito

A Dificuldade com o Pecado
Você já se perguntou por que tem algumas pessoas têm tanta dificuldade de não pecar e outras parecem ter maior facilidade? Ou por que pessoas que crescem no mesmo ambiente fazem escolhas diferentes?

E se fôssemos capazes de medir a quantidade de inclinação ao mal e a quantidade de inclinação ao bem, cientificamente?

Uma importante comunidade judaica uma vez imaginou que isso pudesse ser possível. E desenvolveu toda uma teoria a esse respeito.

O Misterioso Manuscrito 4Q186
Em meio aos manuscritos tão famosos, de livros bíblicos, um pequeno e fragmentado rolo traz um dos mais fascinantes mistérios da história do povo judeu. Trata-se do manuscrito 4Q186.

Esse misterioso manuscrito de cerca de 2,2 mil anos apresenta uma teoria inédita de que cada um de nós nasce com uma dada quantidade de tendência ao bem, assim como outra quantidade de tendência ao mal.

O conceito das inclinações ao bem e ao mal no Judaísmo não são nenhuma novidade. Porém, tentar definir isso cientificamente é inédito. Bem, pelo menos, com o que se poderia considerar científico naquela época, em que havia, inclusive, menor separação entre ciência e fé.

Segundo o manuscrito 4Q186, nove partes da seu espírito são distribuídas entre a Casa da Luz e a Casa das Trevas. Isto é, você pode ter de 1 a 8 partes de tendência a ser uma boa ou má pessoa.

O Exemplo de Esaú e Jacó
Tome o caso de Esaú como exemplo. Pelos cálculos dos judeus de Qumran, ele era tido como alguém que tinha apenas uma parte de seu espírito na Casa da Luz, e oito partes de seu espírito na Casa das Trevas.

O que serviria para explicar porque ele descambou tanto para a desobediência. E também para explicar porque Jacó, seu irmão gêmeo, precisou também batalhar muito com suas próprias tentações.

Porque essas nove partes de luz ou de trevas teria a ver com a fase da lua em que a pessoa nasceu. Quanto mais iluminada a lua, mais luz o espírito da pessoa teria absorvido ao nascer.

Sobre Esaú, a Bíblia diz: “E saiu o primeiro ruivo e todo como um vestido de pêlo; por isso chamaram o seu nome Esaú.” (Gênesis 25:25)

Talvez isso também possa ter a ver com a raspagem de pelos ser um procedimento de purificação cerimonial: “E aquele que tem de purificar-se lavará as suas vestes, e rapará todo o seu pêlo, e se lavará com água; assim será limpo; e depois entrará no arraial, porém, ficará fora da sua tenda por sete dias.” (Levítico 14:8)

Efeito do Espírito no Corpo?
Segundo os judeus de Qumran, as características físicas de uma pessoa também eram uma manifestação de quanta luz, ou quantas trevas, a pessoa teria. E, portanto, serviriam para ver qual a probabilidade da pessoa ter dificuldades com o pecado.

Veja abaixo algumas das principais características físicas da luz e das trevas. Infelizmente, temos apenas algumas pois o texto é bastante fragmentado.

Indícios de Negatividade
Testa larga; cabeça grande e encurvada; olhos que dão medo; dentes protuberantes; dedos da mão ou do pé grossos e curtos; cabelo grosso e bem abundante;

Indícios de Positividade
Olhos alongados ou fixos; Coxas alongadas ou magras; dedos da mão ou do pé alongados e finos;

Características Neutras
Olhos nem claros nem escuros; barba rala, mediana ou encaracolada; dentes medianos; nem alto nem baixo; solas do pé normais;

Luz e Trevas ao Nascer
Quanto à fase da lua, funcionaria mais ou menos assim: Este que aqui vos fala nasceu um dia depois da lua cheia, que é quando a lua está mais iluminada.

Isso significa que eu teria por volta de umas duas partes na Casa das Trevas e sete partes na Casa da Luz. Ou seja, eu teria mais facilidade de resistir ao pecado do que alguém que tenha mais partes do espírito na Casa das Trevas.

Já meu irmão teria sido o extremo oposto. Nascido logo depois do crescente visível, teria umas duas partes na Casa da Luz e o restante na Casa das Trevas. Assim sendo, ele estaria mais propício a pecar. Será que é por isso que ele foi uma peste terrível quando pequeno?

Se você tem curiosidade de saber se os judeus de Qumran te considerariam uma pessoa boa ou uma praga, você pode clicar aqui para saber a fase da lua no dia em que nasceu.

Ao contrário do que possa parecer, o documento de Qumran não tem por objetivo ser mágico, nem tampouco astrológico, no sentido atual do termo.

Pelo contrário, a preocupação em identificar as características físicas também manifestas de acordo com o nível de luz ou trevas da inclinação da pessoa também tinha por objetivo alertar as pessoas para que pudessem trabalhar com isso.

O manuscrito também entende que isso influencia outros fatores, como por exemplo se a pessoa nascerá em condições de pobreza ou riqueza. E o manuscrito também associa seu nascimento a determinados tipos de pedra, animais e a dadas constelações.

Um Trecho do Manuscrito
Infelizmente, não há informações suficientes para entender melhor essas questões, porque o manuscrito é muito fragmentado.

Abaixo, apenas a título de curiosidade, um pequeno trecho do manuscrito apenas para que o leitor o conheça:

“[E] qualquer pessoa [cujos] olhos são [… e lo]ngos, mas el[e]s são fix[o]s, cujas coxas são longas e magras, cujos dedos do pé são longos e magros e que nasceu durante a segunda fase da lua: ele possui um espírito com seis partes de luz, mas três partes na Casa das Trevas. Essa será a constelação abaixo de qual tal pessoa nascerá: o quadril do touro. Ele será pobre. Esse é o seu animal: o touro.” (4Q186 – Frag. 1 – Col. 2)

Com o passar do tempo, a ideia de algumas pessoas pudessem ter uma inclinação ao bem e/ou ao mal maior do que outras acabou deixando a corrente do pensamento majoritário.

Talvez porque essa ideia não ressoe bem com a de um juízo igual para todos os homens. Contudo, certamente é inevitável imaginar que as circunstâncias na qual um homem nasce – sejam elas influenciadas pelo que forem – também são determinantes em seu comportamento.

Livre Arbítrio?
O que não está claro pelo fragmento que sobreviveu é se há ou não o reconhecimento do livre arbítrio.

Isto é, seriam essas porções na Casa da Luz e na Casa das Trevas uma predestinação da pessoa quanto a agir de acordo com isso?

Ou seriam apenas tendências, com as quais tanto a pessoa, quanto seus pais, deveriam tomar cuidado?

O autor herege supõe que 4Q186 vá mais na segunda direção, de indicar tendências, com o objetivo de alertar as pessoas.

Conclusão Herege
O autor não acredita que a personalidade de uma pessoa possa ser determinada pelas fases da lua. Mas, o texto não deixa de ser interessante.

Embora ele indique uma ciência mais simples, primitiva, mostra uma tentativa de entender o universo, conciliando com a espiritualidade. Não em oposição, mas em complemento.

Tentar encontrar uma forma de explicar a espiritualidade em linguagem científica ainda é um sonho distante para a humanidade, mas não se pode desistir desse objetivo.

É também igualmente interessante o reconhecimento de que nem sem sempre as pessoas têm a mesma dificuldade de viver uma vida mais reta. O que, claro, não serviria de pretexto para o ato em si.

Bibliografia
WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

Felipe Moura

Felipe Moura

Felipe Moura é judeu, teólogo, herege e não se responsabiliza pelo destino da sua alma se você ler as informações contidas neste site.

Os textos postados aqui no Portal O Herege visam levar conhecimento de conteúdo histórico e não necessariamente expressam a visão de mundo ou as crenças do autor.

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