As Palavras Perdidas do Arcanjo Miguel

Um Manuscrito Surpreendente
Um dos mais ousados textos descobertos nas cavernas do Mar Morto é também, infelizmente, um dos mais fragmentados.

O texto, conhecido como “As Palavras do Arcanjo Miguel”, foi encontrado num vaso de barro, na quarta caverna de Qumran, no deserto da Judéia. Um outro fragmento do mesmo texto na sexta caverna.

Abaixo, o que restou do texto:

“As palavras do livro que Miguel disse aos anjos […] ele disse, eu lá encontrei tropas de fogo […] […] nove montanhas, duas ao leste, [duas ao oeste, duas ao norte e duas] ao sul. Lá eu vi o anjo Gabriel […] […] ele me mostrou uma visão e me disse […] no meu livro do Grandioso, Senhor Eterno, está escrito […] os filhos de Ham e os filhos de Sem, e eis o Grandioso, Senhor Eterno […] quando as lágrimas fluírem livremente […] e eis que uma cidade será construída no nome do Grandioso, [Senhor Eterno… e nada] maligno será feito perante o Grandioso, o Senhor [Eterno] […] e o Grandioso, Senhor Eterno, se lembrará da Sua criação […] misericórdia pertence ao Grandioso, Senhor Eterno, e também […] nas terras distantes haverá um homem […] é ele, e dirá a ele: Esta é [minha Santa montanha…] a mim prata e ouro […] e o homem justo” (4Q529 & 6Q23)

Análise do Texto
O texto é pós-exílico, escrito em aramaico, datando de cerca do século 2 a.e.c. Nele, o arcanjo Miguel se dirige aos anjos do Senhor, bem como ao arcanjo Gabriel.

Há uma referência a exércitos de seres ardentes, numa provável alusão a anjos que executariam juízo sobre uma cidade iníqua.

O texto fala sobre uma cidade onde se fazia apenas o mal. O mais provável é que essa seja uma referência à Babilônia, por causa da contextualização que se refere aos filhos de Noé. Porém, frequentemente nos tempos antigos, os textos eram escritos de forma figurativa.

Assim sendo, há acadêmicos que entendem que as palavras são ditas contra Roma, outros entendem que se referem à própria Jerusalém.

O texto também se refere a uma cidade que seria construída no futuro, cercada por nove montanhas. Para Michael Wise, é uma referência a uma reconstrução de Sião. Já Geza Vermes afirma que a referência pode ser também ao monte Sinai.

Chamado do Justo na Terra Distante
Outra grande surpresa é uma referência a um homem, aparentemente justo, que seria supostamente chamado em uma terra distante.

Seria esse homem um libertador de Israel, como foi, por exemplo, Ciro da Pérsia? Seria um profeta chamado pelo Senhor, que a comunidade de Qumran esperava?

E a Santa montanha que aparece em conexão com esse local? Trata-se, certamente, de um lugar próspero, pois fala-se de ouro e de prata. Mas, seria essa a montanha na mesma cidade em que se refere o manuscrito anteriormente, ou seria ainda noutro lugar?

Considerando o contexto ultra-nacionalista de Qumran, parece mais provável que seja mesmo uma referência à própria Sião. Porém, o espalhar da glória do Senhor pelas nações também é mencionado na literatura do Segundo Templo.

O Misterioso Livro do Arcanjo Miguel
Por fim… que livro é esse, que aparece ditado pelo arcanjo Miguel numa visão? Não há qualquer referência a isso em lugar algum, dentro da literatura da época do Segundo Templo.

A ideia de anjos trazendo livros revelados em visões pode soar estranha ao leitor, mas era bastante comum na época. O livro apócrifo conhecido como Jubileus, por exemplo, atribui até a Torá, a Lei de Moisés, a visões que ele teria tido com anjos no monte Sinai.

Se Vernes estiver certo, e as nove montanhas forem atribuídas à região do Sinai, então é possível que fizesse alusão a Moisés ter supostamente recebido essa revelação. Se, contudo, for referência a Sião, pode ser uma visão de um dos profetas.

De todo jeito, não temos a mínima ideia de que obra é essa. O que, infelizmente, mostra o quão pouco sobreviveu das obras do Segundo Templo.

Teria essa obra se perdido acidentalmente, não tendo tido a sorte de ser preservada? Ou teria ela sido suprimida intencionalmente? Ou ainda, estaria ela por ser descoberta? Ninguém sabe.

Conclusão Herege
O autor herege acredita que os dados são muito pequenos e o manuscrito muito fragmentado para que se possa tirar muitas conclusões.

O manuscrito traz mais perguntas do que respostas. De todo jeito, parece indicar um tempo posterior, no qual o Senhor finalmente traria juízo, pondo fim a iniquidade. E esse é um tema bastante comum na Bíblia, uma ocasião que todos esperam ansiosamente.

Bibliografia
WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

VERMES, Geza. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Londres: Penguin Books, 1995.

Felipe Moura

Felipe Moura

Felipe Moura é judeu, teólogo, herege e não se responsabiliza pelo destino da sua alma se você ler as informações contidas neste site.

Os textos postados aqui no Portal O Herege visam levar conhecimento de conteúdo histórico e não necessariamente expressam a visão de mundo ou as crenças do autor.

2 thoughts on “As Palavras Perdidas do Arcanjo Miguel”

  1. Até que enfim consegui acessar herege gostei muito. Havia tantos textos elucidativos. Pena que muitos foram destruídos.

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