A Festa Perdida da Aliança

Uma Festa Agrícola
Na Lei de Moisés, no livro de Levítico, encontramos a seguinte observação:

“Depois para vós contareis desde o dia seguinte ao sábado, desde o dia em que trouxerdes o molho da oferta movida; sete semanas inteiras serão. Até ao dia seguinte ao sétimo sábado, contareis cinquenta dias; então oferecereis nova oferta de alimentos ao Senhor.” (Levítico 23:15,16)

A origem das festividades bíblicas é predominantemente agrícola, começando pela festa das primícias da colheita da cevada na primavera, conhecida como a Festa dos Ázimos.

A segunda festa é conhecida como Festa das Semanas, referindo-se à nova oferta de alimentos feita pelos israelitas sete semanas depois da primeira. Muito provavelmente, quando começava a colheita do trigo.

É a festa conhecida no meio cristão como Pentecostes, em virtude da Septuaginta trazer Pentēkostē, que no grego significa cinquenta – pois a festa era celebrada um dia depois das sete semanas (7×7 = 49).

Outra Tradição Mosaica
Existe, contudo, uma outra tradição, de tempos em que os costumes bíblicos ainda não estavam tão consolidados e, possivelmente, que as variantes textuais dos manuscritos permitiam outras interpretações.

Uma obra que persistentemente faz isso é aquela chamada de Livro dos Jubileus, uma obra do século 2 a.e.c. que re-narra os acontecimentos e as leis de Moisés de uma maneira bastante diferente. Essa obra, muito importante para a seita de Qumran no Mar Morto, ainda permanece no cânon da Bíblia dos judeus etíopes, bem como também dos cristãos etíopes ortodoxos.

Muito provavelmente, Jubileus foi escrito na comunidade de Alexandria, por judeus que, descontentes com o sistema religioso (tido como corrupto) do Segundo Templo, buscavam pautar suas práticas noutras origens. O livro procura fortemente associar as festividades bíblicas com os costumes dos patriarcas de Israel.

O mais curioso de Jubileus é que ele entra em choque com diversos trechos do Pentateuco tal qual o conhecemos, mas sem deixar de ser extremamente religioso – muitas vezes, mais até do que a recomendação do próprio Pentateuco. Reconhece a revelação dada a Moisés no Sinai, mas ainda assim combate abertamente determinados pontos do texto bíblico.

Teria Jubileus sido escrito numa época em que o texto bíblico era mais fluido e prevaleciam as tradições orais? Ninguém sabe.

Festa das Semanas ou dos Juramentos?
Mas, um dos fatos mais curiosos sobre Jubileus tem a ver justamente com a Festa da Semanas.

No hebraico, a palavra “semanas” (shavu`ot – שבעת) se escreve de maneira idêntica à palavra “juramentos” (shevu`ot – שבעת), a diferença estando apenas na primeira vogal. Porém, o texto bíblico original não era escrito com vogais, que são um artifício criado muitos séculos depois.

Em outras palavras, olhando apenas para a palavra em si, é impossível determinar se estamos falando da Festa das Semanas ou da Festa dos Juramentos. A interpretação tradicional vai na primeira direção.

A Explicação de Jubileus
Vamos, portanto, conhecer a posição menos tradicional. Abaixo, um trecho do Livro de Jubileus:

“E ele deu a Noé e seus filhos um sinal de que não haveria mais dilúvio na terra para destruí-la por todos os dias da terra. Por essa razão, está ordenado e apontado nas tábuas celestiais, que devem celebrar a Festa dos Juramentos neste mês uma vez por ano, para renovar a aliança todo ano.

E esse festival todo era celebrado no céu desde o dia da criação até os dias de Noé – vinte e seis jubileus e cinco semanas de anos – e Noé e seus filhos o observaram por sete jubileus e uma semana de anos, até o dia da Morte de Noé.

E desde o dia da morte de Noé os seus filhos o aboliram até os dias de Abraão. E comiam sangue. Mas Abraão o observou; e Isaque e Jacó e seus filhos o observaram até os teus dias. E nos teus dias os filhos de Israel se esqueceram dele até tu o celebraste renovado sobre esta montanha.

E ordena os filhos de Israel a celebrarem esta festa por todas as suas gerações. Pois é a Festa dos Juramentos e a Festa das Primícias: essa festa tem duas partes e é de dupla natureza.” (Jubileus 6:15-21)

Como se pode perceber, para o autor de Jubileus, Shevu`ot, a Festa dos Juramentos, não é apenas uma festividade agrária. Ela é a mais importante de todas as solenidades, quando os filhos de Deus deveriam renovar suas alianças perante eles.

Isso era levado extremamente à sério na comunidade de Qumran, que possuíam uma cerimônia elaboradíssima para a renovação desses votos. E, o mais curioso, é que para Jubileus isso não se restringe a Israel, mas foi estendido a toda a humanidade.

Como as festividades de Israel adquiriram, ao longo do tempo, caráter bastante nacionalista, frequentemente celebrando momentos importantes de sua história, era raro ver a recomendação de que essas festividades fossem celebradas por toda a humanidade. Embora, haja traços disso em textos como, por exemplo, Zacarias 14, a referência parece ser a uma homenagem a Israel e seu papel.

A posição do autor de Jubileus é bastante incomum e curiosa, estendendo a obrigatoriedade a todos os povos.

De Festa Agrícola a Festa da Aliança
Muito provavelmente, a origem dessa leitura de Jubileus é a mesma que veio a associar a Festa das Semanas com a outorga da Lei Mosaica, embora a própria Lei Mosaica nada diga a essa respeito.

Isto é, uma vez que se estava no exílio, com o Templo em ruínas, ficava difícil se identificar com uma festividade que comemorava basicamente a entrega das primícias da segunda colheita da primavera. O mesmo vale para comunidades, como Alexandria e Qumran, que haviam rompido com o sistema do Templo

Um dado no relato de Jubileus também é interessante: O esquecimento da celebração. Muito provavelmente, essa celebração havia passado a ser secundária para os israelitas exilados.

A solução de associá-la a algo tão importante – a renovação da aliança – visava justamente o resgate de seu status. Provavelmente, o mesmo benefício que se viu fazendo a associação da festividade com a Outorga da Lei Mosaica, algo que perdurou na linha mais tradicional.

De todo jeito, percebe-se um fenômeno bastante interessante: A festividade permanecendo, mas as razões para ela sendo modificadas com o tempo. Isso se pode perceber não apenas nessa, mas em todas as festas bíblicas e até mesmo algumas festas extra-bíblicas, tais como Hanuká.

No Cristianismo, o mesmo fenômeno se observou, com a adoção de festividades e costumes das religiões pagãs, adaptados à fé nascente.

É mais fácil mudar a explicação do que combater uma prática já estabelecida, da mesma forma que é mais fácil dar uma boa razão para a festa do que tentar convencer o povo a celebrar algo que já não faz mais parte de sua realidade.

Conclusão
O autor herege entende que Shavu`ot (Semanas) é a leitura mais original, pois a origem agrícola é inegavelmente a mais antiga. O próprio texto de Jubileus, fazendo alusão ao “duplo sentido” da festividade indica que sua leitura é inovadora.

Porém, a prática de reler palavras hebraicas com outras vogais para dar novo sentido foi bastante importante na época do Segundo Templo. Foi, inclusive, o que fez com que as sete semanas profetizadas por Jeremias se tornassem as setenta semanas de Daniel (deixo essa pesquisa a cargo do leitor.)

O texto de Jubileus pode explicar porque às vezes vemos mandamentos tão fortes ou severos para coisas aparentemente de importância menor: Seria difícil entender porque a aliança com Deus dependeria de uma simples cerimônia de renovação de votos.

Quando compreendemos, porém, que esse peso veio para evitar o esquecimento, podemos entender melhor os motivos do autor e até mesmo apreciar sua tentativa de salvar sua cultura religiosa.

Bibliografia
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