Os Salmos Perdidos de Davi

Uma Informação Surpreendente
Na Bíblia Hebraica tradicional, existem 150 salmos e cânticos. Desses, 73 são atribuídos a Davi.

No entanto, o trecho de um manuscrito do século 2 a.e.c. encontrado junto a vários salmos, nas cavernas do Mar Morto, faz uma afirmação impressionante:

“E eis que Davi filho de Jessé foi sábio e brilhante como a luz do sol; um escriba, homem de discernimento e perfeito em todos os seus caminhos perante Deus e os homens.

O ETERNO lhe deu um espírito brilhante e de discernimento. Ele escreveu 3.600 salmos e 364 cânticos para cantar perante o altar para o sacrifício diário perpétuo, por todos os dias do ano; e 52 cânticos para as ofertas de sábado; e 30 cânticos para as luas novas, para as festividades e para o Dia da Expiação.

Ao todo, os cânticos foram 446, além dos 4 cânticos para fazer música em favor daqueles que foram acomedidos por espírito maligno.

Todos esses ele proferiu através de profecia, que lhe foi dada perante o Altíssimo.” (11Q5 – Col. 27)

Análise do Manuscrito
Segundo esse manuscrito, o universo de composições davídicas não se limitaria aos 73 salmos e cânticos, mas sim a um impressionante número de 4.050!

Alguns desses salmos mencionados em Qumran também se encontram no cânon da Bíblia Siríaca, que contém não apenas 150, mas sim 155 salmos. E contém 5 salmos atribuídos a Davi.

Infelizmente, a maioria dos salmos e cânticos em Qumran encontra-se degradada pela ação do tempo, sobrevivendo apenas na forma de fragmentos. Dentre eles, há um salmo adicional atribuído a Davi, específico para exorcismo (o que será objeto de outro artigo).

Isso elevaria o total de salmos e cânticos davídicos para 79. Ainda assim, restaria a pergunta: Onde estão os outros 3.971 salmos e cânticos atribuídos a Davi?

Pode ser que os 3.600 referidos pelo manuscrito sejam um número teórico ou simbólico, uma tradição que indicaria que Davi compôs muita coisa.

No entanto, a maneira como o autor de 11Q5 fala sobre os 450 cânticos – 446 litúrgicos e 4 de exorcismo – é certo que esse número não é figurativo.

Em outras palavras: Do universo de composições atribuídas a Davi, temos como afirmar com bastante convicção que 371 realmente se perderam. A pergunta é: Por que?

Motivos para a Perda
Existem diversas possíveis teorias para isso:

Teoria 1 – Pseudo-Epígrafos
A teoria mais provável é de que muitos desses salmos seriam considerados pseudo-epígrafos. Isto é, salmos atribuídos a Davi, porém de autoria real desconhecida. Essa prática era bastante comum à época dos tempos bíblicos.

Porém, isso não justificaria a eliminação das obras. Até porque, sabe-se que pelo menos uma parte dos 73 salmos bíblicos tradicionalmente atribuídos a Davi também não foram escritos por ele, pois trazem linguagem pós-exílica.

Teoria 2 – Composições Menores
Outra teoria que tem algum mérito é a de que Davi escreveu muita coisa. E que seria impossível preservar absolutamente tudo que ele escreveu. Afinal, preservar textos na antiguidade era tarefa bastante árdua.

Pode ser que boa parte do que Davi escreveu realmente tenha tido por objetivo servir de liturgia no Tabernáculo. Assim sendo, os salmos mais belos (ou prediletos dos líderes de Israel) teriam sobrevivido.

Teoria 3 – Omissão Intencional
Por mais que salmos e cânticos sejam, em sua maioria, inócuos, é inevitável que tragam alguma teologia interna. E, como prevaleceu a teologia dos grupos vencedores, essas composições foram relegadas a segundo plano.

De todo jeito, permanece a pergunta: Aonde estão os 371 salmos perdidos de Davi? Ou seriam mesmo 3.971?

Conclusão Herege
O autor herege acredita que a verdade não esteja numa única teoria exclusivamente, mas que essas três teorias tragam, juntas, a resposta.

É bem provável que Davi tenha mesmo escrito muito mais coisa do que foi possível preservar. Se mesmo hoje há composições perdidas de músicos famosos, imagine nos tempos bíblicos.

Também é certo que salmos foram escritos em nome de Davi. Aliás, o termo hebraico leDawid pode ser traduzido como “de Davi” ou “para Davi”, podendo até se tratar de homenagens. Nem todos esses cânticos e salmos se tornariam populares.

Por fim, também é bem provável que a agenda teológica tenha levado algumas dessas obras a serem destruídas. Ou, pelo menos, que tenham deixado intencionalmente de serem preservadas.

De todo jeito, o autor herege gostaria muitíssimo de ter acesso a esses textos e o que dizem. Quem sabe venham ainda a ser descobertos um dia?

Bibliografia
VERMES, Geza. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Londres: Penguin Books, 1995.

WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

Qual a Bíblia mais antiga?

As Listas Mais Antigas
Muita gente se pergunta: Qual a Bíblia mais antiga de todas?

Quando o assunto é Bíblia Hebraica, existe bem menos controvérsia do que, por exemplo, quanto à Bíblia Cristã. Mas, isso não significa que o assunto tenha sempre sido unânime. Para chegar ao cânon mais antigo, três testemunhos são importantes.

A lista mais antiga de todas elas é a que aparece no texto do livro de Josué Ben Sira, também conhecido apenas como Ben Sira ou como Eclesiástico.

Essa obra faz menção a todos os livros da Bíblia, à exceção de Ruth, Cantares, Ester e Daniel. Os dois últimos, provavelmente por serem posteriores a Ben Sira, ou ainda não terem atingido um status de canônicos à sua época. Não se sabe, contudo, a razão pela qual Ruth e Cantares se fazem ausentes.

Outra lista importante é a de livros que aparecem nas cavernas do Mar Morto. Deles, observa-se que todos os livros da Bíblia Hebraica se fazem presentes, à exceção de Ester. Não é certo se isso ocorre pelo fato de Ester ser um livro posterior, ou se era rejeitado pela seita de Qumran.

Porém, em Qumran aparecem Tobias e Ben Sira, um dos livros que figuram entre os chamados Apócrifos da Septuaginta, hoje presentes nas Bíblias Católicas. E também aparecem duas obras que hoje só estão presentes entre as comunidades etíopes (cristã e judaica). A saber, 1 Enoque e Jubileus.

Já Flávio Josefo menciona 22 livros, dos 24 livros hoje presentes na Bíblia Judaica. Mas, ele não os menciona por nome. Sendo assim, quais seriam os 2 livros que estariam ausentes? Uns suspeitam de Ester, e talvez de Ezequiel. Outros, contudo, acreditam que era apenas uma questão de dividir os livros de maneira diferente.

Prova Por Ausência?
O mais difícil quanto a essas listas está no fato de que estamos lidando com o que se chama de “prova por ausência.” Isto é, a ausência de menção a determinadas obras sendo interpretada como tais obras não sendo canônicas. Não há nada que garanta isso, pois pode se tratar de simples coincidência.

Disputas Internas no Judaísmo
Mas, há obras que foram, em vários momentos da história, questionadas. A seguir, as principais delas:

No Talmude Babilônio, há registro de várias discussões sobre os status de determinadas obras. Especialmente porque os judeus da antiguidade consideravam que os manuscritos bíblicos poderiam afetar as regras de pureza cerimonial. Então, saber quais obras eram inspiradas ou não era importante, para fins cerimoniais.

Os seguintes livros eram apontados por alguns como livros não-inspirados. Vale ressaltar que os livros tidos como não-inspirados não eram necessariamente vistos como livros ruins. No fim, a conclusão foi a de que todos eles eram inspirados. Porém, se foram debatidos é porque nem sempre foi assim.

Dos livros tidos como históricos: Ruth e Ester;
Dos livros poéticos e de sabedoria: Eclesiastes, Cantares e Provérbios;
Dos livros proféticos: Ezequiel;

Referências: b. Shabat 14a; b. Meguilá 7a;

Motivos dos Questionamentos
Abaixo, um resumo das possíveis razões para os questionamentos. Não apenas talmúdicos, mas em geral:

Ruth: As razões de questionamento provavelmente revolvem em torno de uma moabita como personagem principal. É um livro também considerado por muitos como uma estória romanceada.

Eclesiastes: A visão de mundo bastante ácida e pesada do autor certamente não agradou a todos. Porém, a oposição a essa obra foi relativamente pequena.

Cantares: O conteúdo da obra fala da relação entre homem e mulher e, por isso, houve bastante polêmica. A tendência posterior foi a espiritualização do relato, associando-o a Deus e Israel.

Provérbios: O livro de Provérbios sempre foi visto como uma obra louvável. Porém, por se tratar de uma coletânea de conselhos, trechos de sua obra em dados momentos foram questionados. Embora, na essência, tenha sido amplamente aceito.

Ezequiel: O livro mais polêmico do cânon judaico. Em virtude de seu sistema litúrgico divergir da Torá e ser um livro de caráter mais espiritualizado, alguns sábios judeus se opuseram fortemente a ele. No fim, porém, prevaleceu a visão da maioria, de que o livro deveria ser incluído.

Ester: Três eram as razões para o questionamento. A primeira, sua possível composição exílica. A segunda, a ausência de menção a Deus. E a terceira, o fato de ser uma Meguilá, isto é, um texto escrito especificamente com propósito litúrgico, que pode não ser totalmente histórico. Além disso, há uma disputa quanto ao conteúdo. A versão hebraica de Ester é consideravelmente menor do que a versão grega.

Daniel: Daniel não figura em algumas das listas mais antigas. O mais provável, contudo, é que isso se deva por ter sido o livro mais recente da Bíblia Hebraica, posterior a algumas de tais listas, tendo sido escrito durante a Revolta dos Macabeus. Além disso, há uma diferença no conteúdo. A versão grega de Daniel é mais extensa, trazendo outros contos da corte babilônia.

Salmos: Embora os 150 salmos da Bíblia Hebraica sejam aparentemente unânimes, outros cânons figuram salmos que não aparecem nessa lista. Na Septuaginta, temos 151 salmos. Na Peshitta Aramaica, 155. E, no Mar Morto, há também outros que não figuram no texto hebraico. O mais provável é que cada comunidade tenha acrescentado seus próprios salmos com o passar do tempo.

A Provável Lista Mais Antiga
Se considerarmos apenas os livros não-controversos e que não estão ausentes das listas mais antigas, provavelmente a mais antiga da Bíblia Hebraica era algo assim:

Instrução (Torá): Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio.
Profetas: Josué, Juízes, Samuel (1 e 2), Reis (1 e 2), Isaías, Jeremias, os Doze Menores (Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias)
Escritos: Crônicas (1 e 2), Esdras/Neemias, Salmos, Jó e Lamentações.

Ou seja, da Bíblia Hebraica atual teríamos apenas 18 dos 24 livros, com 7 ausências. Na contagem cristã, teríamos 32 livros.

Uma curiosidade interessante: Esse é um número relevante na cultura judaica, pois é o número da palavra “vive” (חי – Hay). Teria a lista original primitiva sido composta por 18 livros? Não é uma hipótese improvável!

Dos 7 livros ausentes, dois possuem mais de uma versão. A saber, Daniel e Ester. O mesmo acontece com o livro de Salmos, dentre os livros canônicos e provavelmente ocorria com as versões mais antigas do livro de Provérbios.

Vale ressaltar que nem sempre não-canônico significava ruim ou pouco importante. Apenas, significava que não eram obras vistas unanimemente pelas lideranças. Algumas delas, depois de muito debate e discussão, foram incluídas. Outras, foram relegadas ao esquecimento.

Conclusão Herege
Em boa parte, a dificuldade de se chegar a uma lista original está em dois fatos: O primeiro, a dificuldade arqueológica e histórica de resgatar informações tão antigas.

A segunda está no fato de que talvez não houvesse uma “lista original”. A formação do cânon teve mais a ver com tentar preservar livros essenciais face à perseguição do que criar uma lista exclusiva. De toda forma, consegue-se perceber quais os livros eram, na antiguidade, tidos como os mais importantes para instrução nos caminhos do Criador.

Vale ressaltar ainda o seguinte: Há obras que talvez até por serem extensas demais não tenham figurado no cânon, mas com ensinamentos magníficos. É o caso de Ben Sira (Eclesiástico), que será abordado com mais detalhe noutra ocasião.

Há outros ainda que poderiam ter mudado a cara do que seriam, hoje, Judaísmo e Cristianismo, caso tivessem se tornado unânimes, como Jubileus e 1 Enoque. Mas, novamente, é assunto para outra ocasião.

Por fim, é importante deixar claro que novas descobertas arqueológicas podem trazer novos entendimentos sobre o assunto. O leitor herege deve se recordar que cem anos atrás os Manuscritos do Mar Morto ainda nem haviam sido descobertos; e eles mudaram muito nosso entendimento sobre o panorama geral das Escrituras.

Bibliografia:
ABEGG, Martin Jr. (Org.) et al. The Dead Sea Scrolls Bible. HarperCollins: São Francisco, 1999.

FREHOF, Solomon B. Ezekiel. Disponível em: <http://www.myjewishlearning.com/article/ezekiel/>. Acesso em 20 Jul. 2017.

JOSEFO, Flavio. William Whiston. Contra Apion. Cambridge: Cambridge University Press, 1736.

LEIMAN, S. The Canonization of Hebrew Scripture: The Talmudic and Midrashic Evidencel. Hamden: Connecticut Academy of Arts and Sciences, 1976.

SINGER, Isidor (org.); et al. The Jewish Encyclopedia: BIBLE CANON. Nova Iorque: Funk and Wagnalls Company, 1906.

VERMES, Geza. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Londres: Penguin Books, 1995.

WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

A New English Translation of the Septuagint: Sirach Prologue. Nova Iorque: Oxford University Press, 2007

Babylonian Talmud. Tradução de Rabbi Dr. Isidore Epstein. Soncino Press, Reino Unido: 1934.

Teriam 70 Livros desaparecido da Bíblia Hebraica?

O Cânon da Bíblia Hebraica
A Bíblia Hebraica, compilada pelo povo judeu, tem exatamente o mesmo conteúdo do Antigo Testamento das Bíblias do cânon protestante.

A divisão não é a mesma. Na contagem judaica, há 24 livros. Isso ocorre porque alguns livros foram divididos em dois pelos cristãos para facilitar a cópia, a saber, Samuel, Reis, Crônicas e Esdras/Neemias. Além disso, os 12 profetas menores, na versão judaica, eram todos escritos num único volume, o que aconteceu para evitar que se perdessem devido a serem livros curtos.

Por essa razão, a contagem judaica chega a 24 volumes, enquanto a cristã protestante chega a 39. Mas, conforme dito anteriormente, o conteúdo é fundamentalmente o mesmo. Essa informação será relevante para o restante desse artigo.

Uma Obra Esquecida
Por muitos séculos, as Bíblias Protestantes também incluíam um volume à parte, que continha os livros chamados de Apócrifos. Isto é, livros que em algum momento e em alguma comunidade foram considerados sagrados, mas que não eram considerados canônicos pelo povo judeu.

Alguns desses livros foram mantidos pelos grupos religiosos que seguem o cânon da Septuaginta, tais como a Igreja Católica Romana e sua contraparte oriental, a Igreja Católica Ortodoxa.

Mas há outros livros que não tiveram a mesma sorte e foram excluídos até mesmo de tais volumes.

Dentre esses livros, há uma série de livros atribuídos a Esdras, compilados num volume chamado “2 Esdras”. Algumas dessas obras são de autoria cristã e bem recentes, mas uma obra em particular – chamada 4 Esdras – foi escrita por um judeu à época do Segundo Templo. Mas especificamente, logo após sua destruição.

E esse livro contém uma informação surpreendente, que poderia para sempre alterar tudo o que se conhece sobre a Bíblia Hebraica.

O prof. Michael E. Stone, de Religião Comparada, da Universidade Hebraica de Jerusalém, afirma acerca da obra:

“O livro vem da última década do primeiro século d.e.c. e foi composto em reação à destruição de Jerusalém por roma em 70 d.e.c. Sua primeira preocupação, portanto, é entender esse evento traumático.”

O Trecho Misterioso
Mas, o que realmente nos surpreende acerca desse livro, é um trecho que transcrevo abaixo, na íntegra:

“E o Altíssimo deu entendimento a cinco homens. E alternadamente escreveram o que foi ditado, em caracteres que não conheciam. Eles se sentaram por quarenta dias e escreviam durante o dia e comiam o seu pão à noite.

Quanto a mim, falava durante o dia e não me calava à noite. Então durante quarenta dias noventa e quatro livros foram escritos. E quando os quarenta dias foram concluídos, o Altíssimo falou a mim, dizendo: “Torna públicos os vinte e quatro livros que primeiro escreveste e deixa que os dignos e os indignos os leiam; mas preserva os setenta últimos que foram escritos, para que sejam dados aos sábios de teu povo. Pois neles está a fonte do entendi mento, a fonte da sabedoria e o rio do conhecimento.” E assim eu fiz.” (4 Esdras 14:42-48)

Evidentemente, a narrativa é figurativa. Porém, o autor faz uma afirmação bastante curiosa e ousada: Além dos 24 livros da Bíblia Hebraica, que foram dados para conhecimento popular, haveria ainda mais 70 livros, que foram disponibilizados apenas para os sábios de Israel.

O problema? Ninguém no meio judaico tem conhecimento de que obras sejam essas.

Há, portanto, duas possibilidades: A primeira, que o autor de 4 Esdras tenha inventado a história dos 70 livros. O que não estaria claro, nesse caso, seria o propósito de tal coisa.

A segunda é que realmente os 70 livros tenham existido. Mas, se existiram, a que grupo pertenciam? Qual era o seu conteúdo? E, por fim, perderam-se de forma natural ou foram eliminados por algum motivo específico?

Há quem especule que ainda haja nos cofres do Vaticano muitas obras que foram coletadas desde ainda os tempos do Império Romano. Mas, ninguém de fato pode ter certeza.

Outro fato curioso é a escrita em idiomas desconhecidos. Isso implica numa ideia de que seriam coisas que estariam além do conhecimento do povo àquela época, seu conteúdo acessível somente aos que tivessem adquirido sabedoria.

Seria esse enfoque num público mais seleto a razão pela qual tais obras foram excluídas?

Conclusão Herege
O autor herege acha pouco provável que o autor de 4 Esdras tenham inventado a história de livros adicionais, disponibilizados somente aos sábios.

Seriam, porém, essas obras uma unanimidade entre os sábios de Israel, ou específicos de um dado segmento ou seita judaica? Talvez a segunda hipótese seja a mais provável.

Por fim, o autor herege faz votos de que um dia os arquivos do Vaticano se tornem disponíveis ao público para consulta. Certamente isso mudaria muito de nossa história.

Para os padrões atuais, manter tais obras longe do olhar público é um crime contra a humanidade. Tal como a Igreja Católica já soube rever posicionamentos históricos e tomar atitudes muito louváveis – como o pedido de perdão do papa João Paulo II no Muro das Lamentações pelo extermínio de judeus – esse é um passo importante, que o autor herege espera ver em vida.

Bibliografia
MAYS, JAMES L. (Org.) Harper’s Bible Commentary. Nova Iorque: Harper & Row, 1988.

The Holy Bible 1611 Edition – King James Version. Hendrickson Publishers, 2006.

A Maior Bíblia do Mundo

Introdução
Muita gente acha que Bíblia é tudo a mesma coisa. Alguns ainda sabem que existe uma diferença entre a Bíblia Católica (Romana) e a Bíblia Protestante, ou ainda que a Bíblia original foi a Bíblia Hebraica, do povo judeu, hoje conhecida como Antigo Testamento pela maioria das pessoas.

Porém, a realidade é que existem muito mais Bíblias do que se pode imaginar. Muitas deixaram de existir, juntamente com suas comunidades. Outras só são conhecidas através de fragmentos.

Mas, mesmo assim, se formos considerar os principais grupos judaicos e cristãos da atualidade, ainda assim teríamos algo em torno de umas dez versões.

Dentre elas, o recorde de Bíblia mais extensa, é sem dúvida alguma pertencente à Igreja Ortodoxa Etíope. Pelas suas próprias contas, os etíopes têm nada menos do que 81 livros!

Porém, esse número seria ainda maior se fôssemos adotar a divisão tradicional que a maioria das pessoas conhece, pois os cristãos etíopes ainda combinam várias obras que outrora aparecem separadas.

Se tomássemos, por exemplo, o padrão protestante de divisão dos livros, bem como o padrão de divisão dos livros deuterocanônicos, esse número saltaria para 91 livros, chegando até a 92 se contarmos a curiosa divisão do livro de Provérbios em 2 partes.

Compare isso com os 39 livros da Bíblia Hebraica (ou 24, segundo a divisão judaica), ou ainda os 73 segundo a divisão da Bíblia Católica (Romana). Isso sem contar o fato de algumas dessas obras, tais como Enoque e Jubileus, são enormes!

Abaixo, apresento o cânon etíope:

Antigo Testamento (Bíblia Hebraica) Etíope
Gênesis
Êxodo
Levítico
Números
Deuteronômio
Josué
Juízes
Ruth
I e II Samuel
I e II Reis
I Crônicas
II Crônicas e a Oração de Manassés
Jubileus
Enoque
Esdras (Esdras e Neemias)
2 Esdras (1a. Esdras e Apocalipse de Esdras)
Tobias
Judite
Ester
I Macabeus (Versão Etíope)
II e III Macabeus (Versão Etíope)

Salmos
Provérbios (Pv. 1-24)
Exortações (Pv. 25-31)
Sabedoria de Salomão
Eclesiastes
Cantares
Isaías
Jeremias, Lamentações, a Carta de Jeremias, Baruque e 4 Baruque
Ezequiel
Daniel
Oséias
Amós
Miquéias
Joel
Obadias
Jonas
Naum
Habacuque
Sofonias
Ageu
Zacarias
Malaquias
Eclesiástico
Josefo

Novo Testamento (Bíblia Cristã) Etíope
Mateus
Marcos
Lucas
João
Atos
Romanos
I Coríntios
II Coríntios
Gálatas
Efésios
Filipenses
Colossenses
I Tessalonissences
II Tessalonissences
I Timóteo
II Timóteo
Tito
Filemon
Hebreus
I Pedro
II Pedro
I João
II João
III João
Tiago
Judas
Apocalipse
Sínodos
I e II Alianças
Clemente (Versão Etíope)
Didascália (Versão Etíope)

Tirando os já conhecidos 66 livros tradicionais, mais os 7 adicionais da Bíblia Católica (Romana), todos esses bastante conhecidos, segue uma breve introdução das demais obras:

Jubileus: Uma releitura da história dos patriarcas, até a outorga da Torá, narrada pelos anjos que teriam entregue a Torá a Moisés no Sinai. Essa releitura traz boa parte das práticas ritualísticas da Torá como tendo iniciado com os patriarcas.

Enoque:Também conhecido como 1 Enoque, o livro que narra a queda de anjos que se enamoraram das mulheres, a destruição do mundo por gigantes, traz uma astronomia primitiva e traz visões sobre a história de Israel até o fim do período dos Macabeus.

A Oração de Manassés: Manassés foi o rei mais iníquo de Judá, que acabou por precipitar a invasão babilônia. Nesse texto, ele reconhece suas transgressões e pede perdão ao Eterno

2 Esdras: Também conhecido no grego como 1 Esdras, é uma releitura dos acontecimentos de 1 Esdras, acrescentando detalhes sobre o reinado de Artaxerxes, bem como a história de como jovem Zorobabel teria ganho uma disputa de sabedoria na corte de Dario, o que teria feito Dario permitir o retorno do povo e a reconstrução do Templo

Apocalipse de Esdras: Uma coletânea de visões apocalípticas atribuídas a Esdras, que narram do exílio babilônio, posteriormente, a queda dos impérios que dominaram o mundo, culminando num reinado em que o Messias destruiria o último império.

I, II e III Macabeus (Etíope): Provavelmente, os livros de Macabeus do cânon etíope se perderam, e alguém tentou reconstruí-los, mas cometendo muitas liberalidades. Mistura nomes geográficos antigos (Moabe, Midiã, etc.) com outras nações, mantendo a temática de perseguição aos judeus. O último dos livros também fala sobre recompensa aos justos e punição aos iníquos.

4 Baruque: Trata-se de texto atribuído a Baruque, discípulo de Jeremias. Nele, Jeremias é chamado a ocultar as vestes sacerdotais antes da destruição do Templo. O texto segue com visões figurativas significando o fim do cativeiro babilônio

Josefo Ben-Gurion: Um livro do século 9 d.e.c. que narra a história do povo judeu desde Adão até o rei Oto, o Grande (século 9 d.e.c.), supostamente iniciado por Flavio Josefo e concluído por um escriba posterior.

Sínodos: É um livro que contém as decisões dos principais concílios cristãos ecumênicos, bem como os principais concílios específicos da Igreja Etíope, que expõem sobre temas teológicos, litúrgicos e administrativos.

I e II Alianças: Livros que falam sobre a estrutura da igreja e que se encerram com um discurso de Jesus para seus discípulos.

Clemente: Versão etíope da carta enviada por Clemente de Roma aos Coríntios, abordando os temas de autoridade eclesiástica e outros assuntos polêmicos para a comunidade de Corinto.

Didascalia: Livro que traz um suposto ensinamento dos apóstolos de Jesus acerca da ordem, moral e conduta da igreja, provavelmente derivado das Constituições Apostólicas.

Conclusão Herege
Certamente o povo etíope gosta bastante de ler! Graças a eles temos acesso a algumas obras que foram muito importantes no período do Segundo Templo. Enoque e Jubileus, por exemplo, são indispensáveis para quem estuda o período historicamente.

As demais obras geralmente seguem o mesmo padrão textual da Septuaginta, provavelmente tendo chegado à Etiópia por meio de judeus e cristãos de Alexandria, no Egito.

Quanto à canonicidade, ou não, dessas obras, isso não compete ao autor comentar. Até porque o objetivo do site é informar o leitor, não doutriná-lo.

A propósito, a imagem é meramente ilustrativa.