O Discípulo que morreu no lugar de Jesus

Imagem Universal? Nem Sempre.
A imagem de Jesus pendurado no madeiro, enquanto sacrifício expiatório, é praticamente uma unanimidade no mundo cristão de hoje.

Mas, talvez, surpreenderia a muitos cristãos saber que nem sempre foi assim. Houve um tempo em que muitos cristãos não só consideravam a questão da crucificação algo terrível e sem importância teológica, como ainda chegavam até mesmo a negar que Jesus tivesse de fato morrido na cruz.

Simão de Cirene
Nos episódios que antecedem a morte de Jesus, o evangelho de Mateus (na forma cristã atual) diz:

“E, quando saíam, encontraram um homem cireneu, chamado Simão, a quem constrangeram a levar a sua cruz.” (Mateus 27:32)

Aqui apresenta, portanto, o leitor à figura de Simão de Cirene, um dos seguidores de Jesus que teria oferecido para carregar a cruz quando Jesus se encontrava fraco demais para prosseguir caminho.

No entanto, para uma boa parte dos cristãos gnósticos, a oferta de Simão teria sido de natureza bem diferente.

Simão e os Gnósticos
Embora a Igreja Católica Romana tenha se esforçado ao máximo para eliminar evangelhos e relatos tidos como espúrios, alguns fragmentos permaneceram em citações e em sítios arqueológicos isolados.

No mais importante deles, em Nag Hammadi no Egito, os ensinamentos gnósticos permaneceram. E, segundo eles, Simão teria tido um papel bem mais importante.

Embora apenas fragmentos desse ensinamento tenham permanecido, sabe-se que os cristãos agnósticos acreditam que Simão de Cirene teria se oferecido não para carregar a cruz, mas sim para morrer no lugar de seu mestre.

Esse ensinamento aparece nos fragmentos de um manuscrito – cuja maior parte se perdeu – denominado de Segundo Tratado do Grande Set, numa referência a Set, filho de Adão e Eva.

O Fragmento do Manuscrito
Esse fragmento diz o seguinte:

“Pois minha morte, que eles acreditam ter acontecido, aconteceu a eles em seu erro e cegueira, uma vez que pregaram o homem deles para a morte. Seus pensamentos não me viram, pois eram surdos e cegos. Mas ao fazer tais coisas, condenam a si mesmos.

Sim, eles me viram; eles me puniram. Foi outro, o pai deles, que bebeu do fel e do vinagre; não fui eu. Eles me feriram com vara; foi outro, Simão, que suportou a cruz em seu ombro. Foi sobre outro que eles colocaram a coroa de espinhos. Mas eu regozijava na altura sobre toda a riqueza dos governantes e da descendência de seu erro, de sua glória vazia. E eu me ria da ignorância deles.” (O Segundo Tratado do Grande Set)

Mas, qual seria a relevância teológica para esses cristãos de Jesus não ter morrido na cruz? A resposta pode estar numa citação de Irineu, bispo romano do século 2 a.e.c.

O Evangelho Perdido de Basílides
Ele descreve os ensinamentos heréticos de um certo cristão gnóstico copta chamado Basílides. Esse último teria escrito um evangelho contando as tradições gnósticas. Mas, tal manuscrito infelizmente também se perdeu.

Irineu, contudo, descreve os ensinamentos de Basílides da seguinte forma:

“Ela apareceu na terra como homem e realizou milagres. Mas ele próprio não sofreu. Ao invés disso, um certo Simão de Cirene foi obrigado a carregar a cruz por ele. Foi ele que, errônea e ignorantemente, foi crucificado, tendo sido por ele transfigurado, para que pudessem pensar que era Jesus. Além disso, Jesus assumiu a forma de Simão e permaneceu a seu lado rindo-se deles.

Pois uma vez que ele era um poder incorpóreo, a mente inata do Pai, ele se transfigurava como desejasse, e assim subiu àquele que o enviou, escarnecendo deles, tal como não podia ser capturado e era invisível a todos.

Aqueles, portanto, que conhecem essas coisas se libertaram dos principados que formaram o mundo; de modo que não nos é necessário confessar aquele que foi crucificado, mas aquele que veio à semelhança de um homem, e que pensou-se terem crucificado, que era chamado de Jesus; e que foi enviado pelo pai, para que esta dispensação possa destruir as obras dos que fizeram o mundo.

Se alguém, portanto, declara, confessa o crucificado, aquele homem é um escravo, e sob os poderes daqueles que formaram nossos corpos; mas aquele que a nega [i.e. crucificação] está livre desses seres, se familiarizou com a dispensação do Pai inato.” (Contra Heresias -1:24:4)

Se os relatos de Irineu estiverem precisos, a ideia de Basílides é a de que Jesus não teria vindo ao mundo para ser crucificado, mas sim para encorajar as pessoas a viverem uma vida voltada para a espiritualidade.

Ter a crucificação como cerne doutrinário era algo que – para os gnósticos – fomentava a ideia ignorante de foco naquilo que é carnal.

Muito provavelmente, a atribuição da crucificação a Simão de Cirene teve justamente por objetivo combater a prática da idolatria a Jesus enquanto homem, ou de ter sua cruficiação como sacrifício expiatório.

Afinal, seria muito mais difícil idolatrar uma pessoa crucificada no lugar de Jesus.

Conclusão Herege
O autor herege acha pouco provável que Simão de Cirene tenha mesmo morrido no lugar de Jesus, mas acha de grande importância que se conheça essa questão, para se perceber que a morte de Jesus na cruz – hoje tema central no Cristianismo – já teve importância bem reduzida.

O que se observa entre os cristãos primitivos é que os ensinamentos de Jesus pareciam ter mais relevância do que o ato em si de ter sido crucificado. No entanto, até isso é discutível.

Mesmo não sendo cristão, o autor herege lamenta mais um caso de livros que foram destruídos e eliminados, para se combater uma ideia.

É importante que o leitor compreenda que o cristianismo gnóstico foi, em dado momento, extremamente popular. E, se as reviravoltas políticas tivessem sido diferentes, poderia até mesmo ter se tornado sua forma mais tradicional.

Bibliografia
MEYER, Marvin (Org.). The Nag Hammadi Scripturs: The International Edition. Nova Iorque: HarperCollins, 2009.

ROBERTS, Alexander (Org.) Saint Ireneus of Lyon – Against Heresies: The Complete English Translation from the First Volume of THE ANTE-NICENE FATHERS. Ex Fontibus Co., 2015.

Catholic Encyclopedia: Basilides. Edição de 1917. Disponível em <http://www.newadvent.org/cathen/02326a.htm>. Acessado em 24/07/2017.

O Mistério dos Dois Jesus

Introdução ao Adocionismo
Antes de se aventurar por este texto, recomendo ao leitor que leia este aqui, onde se fala sobre a questão do adocionismo, também conhecido como docetismo.

Resumidamente, era talvez a doutrina cristã primitiva mais popular para falar sobre a divindade de Jesus. Nela, Jesus teria sido um homem comum, revestido do Espírito Santo – também chamado de Espírito de Cristo – e assim “adotado” como filho de Deus, no mesmo sentido em que os reis de Israel eram chamados de filhos de Deus.

A Salvação e os Cristãos Primitivos
Essa doutrina também impactava a maneira como os cristãos primitivos viam a questão da salvação. Para eles, a salvação vinha de crer em e obedecer ao Espírito de Cristo, não de idolatrar a pessoa de Jesus ou procurar ter a pessoa de Jesus como mediador.

Poderia-se dizer, numa linguagem mais condizente com o Judaísmo antigo, que muitos grupos proto-cristãos e cristãos primitivos acreditavam que a salvação vinha por crer em e obedecer ao Espírito Santo. Só assim poderiam se libertar das amarras do pecado.

Combate à Idolatria?
Mas, os adocionistas também se preocupavam muito em combater a ideia de que a pessoa de carne e osso de Jesus viesse a ser idolatrada. Para eles, Jesus teve mérito de ser o veículo para o Espírito Santo, mas não era para ser tomado como objeto de fé.

Um dos textos mais claros sobre isso é o chamado Apocalipse Copta de Pedro. E o próprio texto, em si, é um mistério. Datando do século 2 d.e.c., foi encontrado entre os escritos gnósticos na Biblioteca de Nag Hammadi, um compêndio de textos gnósticos encontrados no Egito em 1945.

Dois Jesus?
Esse texto traz uma forte condenação àqueles que teriam elevado Jesus, o homem, a uma condição de idolatria, ou mesmo de tê-lo como purificação dos pecados.

Para a obra, a purificação ocorreu quando a carne deixou de ser habitada pelo Espírito de Cristo e foi entregue às impurezas. Sendo assim, aceitá-la como mediador seria a mesma coisa que associar-se a tais impurezas.

Como se pode perceber, o autor do Apocalipse Copta de Pedro não estava muito feliz com o ganho de força da doutrina da divindade inata de Jesus.

O Apocalipse Copta de Pedro
Abaixo, trechos da obra:

“E eles se apegarão ao nome de um homem morto, pensando que irão ficar puros. Mas eles se tornaram grandemente contaminados e cairão em um nome de erro, e na mão de um homem enganoso e em muitos dogmas. E serão governados sem lei…

“E o salvador me disse: Aquele que você viu no madeiro, feliz e risonho, esse é o Jesus vivo. Mas esse em cujas mãos e pés eles colocam os pregos é sua parte carnal, que é o substituto colocado à vergonha, aquele que veio a existir à sua imagem. Mas, olhe para e ele e olhe para mim…

Aquele a quem crucificaram é o primogênito, a morada dos demônios, o vaso de pedra no qual habitam, de Deus, da cruz, que está debaixo da lei. Mas aquele que está ao lado dele é o salvador vivo, o primeiro nele, quem tomaram e soltaram, que está alegremente olhando para aqueles que cometeram violência contra ele, enquanto estão divididos entre eles.

Portanto, ele ri da falta de percepção deles, sabendo que nasceram cegos. Então aquele que está suscetível ao sofrimento virá, uma vez que seu corpo é o substituto. Mas o que eles soltaram foi meu corpo incorpóreo. Mas eu sou o Espírito intelectual preenchido de luz radiante.”

Jesus x Espírito de Cristo
Em suma, o autor do Apocalipse Copta de Pedro entende que seria errado depositar sua confiança no homem de carne e osso, que seria uma similitude para o “Espírito de Cristo”.

Observe, portanto, que ele fala da existência de dois Jesus: Um terreno, humano, e o outro que na realidade seria o Espírito de Cristo. Para o leitor cristão de hoje, a existência de dois Jesus seria algo tido como bizarro.

Trata-se de um passo adiante do adocionismo ou docetismo tradicional, mas que provavelmente não seria tido como uma visão assim tão estranha por parte dos próprios adocionistas.

Mas, outro ponto bastante curioso dessa obra é revelar a tensão crescente nas comunidades cristãs acerca da natureza de Jesus.

Se mesmo a Bíblia Cristã em sua forma atual dá margens a diferentes em relação a isso, quando se olha para a história, o que se vê são conflitos bastante tensos acerca dessa questão.

Conclusão Herege
O autor herege é judeu e não cristão. E, assim sendo, não crê em Jesus e evita dar palpites sobre a doutrina cristã. Mas, é inegável que a teoria adocionista, embora não seja essencialmente judaica, está mais próxima do Judaísmo antigo do que doutrinas posteriores, como o Arianismo, o Modalismo ou o próprio Trinitarismo.

Seja qual for a crença do leitor, o autor herege considera interessante que os cristãos conheçam como se desenvolveu a doutrina acerca da figura de Jesus até atingir um certo consenso.

Consenso esse que vem sendo bastante contestado, a medida que a autoridade da Igreja Católica em estabelecê-lo é contestada. E se essas diferenças eram bastante difundidas nos tempos antigos, não deveriam ser mais toleradas entre os próprios cristãos?

Bibliografia
MEYER, Marvin (Org.). The Nag Hammadi Scripturs: The International Edition. Nova Iorque: HarperCollins, 2009

James Brashler; Roger A. Bullurd. The Apocalypse of Peter. Leiden: Brill.

Quando Jesus foi Adotado

Uma Descoberta em Jerusalém
Em 160 d.e.c., o bispo Melito de Sardes, um cristão de origem judaica, viajou para a região da Judéia, em busca da famosa Igreja de Jerusalém, que teria dado início ao Cristianismo. O que ele encontrou, porém, surpreenderia qualquer cristão, desde os mais ortodoxos aos mais hereges.

Melito encontraria um grupo que ele descreveu como os ‘ebionitas’, uma corruptela do hebraico eviyonim que significa pobres. Eram homens que haviam deixado tudo o que tinham para se dedicar aos ensinamentos de seu Mestre. Um grupo que, posteriormente, os cristãos romanos descreveriam como uma grande heresia.

O Caçador de Hereges
E, como geralmente acontece com todo pensamento heterodoxo, esse grupo não sobreviveu. Seus escritos foram para sempre destruídos e hoje em dia só podem ser encontrados em fragmentos de citações dos autores ortodoxos. As mais importantes delas descritas por Epifânio, na obra Panarion.

Ironicamente, Epifânio havia escrito tal obra para denunciar heresias. No entanto, essa é uma das obras que mais preservou as ideias que viriam a ser combatidas. Se não fosse por Epifânio, nunca conheceríamos obras que posteriormente a nascente Igreja Católica Romana veio a destruir. A fogueira era destino comum, tanto para textos quanto para homens hereges.

A Crença Adocionista
Epifânio descreve que os ebionitas usavam uma versão “mutilada” do Evangelho de Mateus. Provavelmente porque essa obra começava como o Evangelho de Marcos: No ponto em que Jesus era batizado por João Batista. Há quem defenda que essa tenha sido a versão original de Mateus, bem como há quem diga que os ebionitas escreveram sua própria obra baseada em Mateus.

O mais interessante, contudo, é como Epifânio descreve a Cristologia desse grupo, dizendo: “E por essa razão eles dizem que Jesus nasceu da semente do homem, e foi escolhido; e então pela escolha de Deus ele foi chamado Filho de Deus a partir do Cristo que entrou nele de cima, à semelhança de uma pomba.” (Panarion – Seção II – 16:3)

Explicando o Adocionismo
Para o leitor cristãos, habituado ao pensamento tradicional, essa ideia pode parecer estranha. No entanto, ela já foi muito comum no meio cristão, defendida por uma grande quantidade de igrejas primitivas, sobre as quais hoje se sabe muito pouco. É uma teoria conhecida no meio acadêmico como Adocionismo.

Para que o leitor entenda melhor a questão, a visão adocionista parte primeiramente da promessa feita por Deus a Davi, referindo-se a Salomão:

“Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; e, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens, e com açoites de filhos de homens.” (2 Samuel 7:14)

Nesse momento, entende-se que Deus teria “adotado” Salomão, que passa a ser chamado de “filho de Deus”. Ou seja, o termo é aplicado ao rei de Israel.

Vale também recordar que qualquer líder que fosse conduzir alguém nos caminhos do Senhor recebia dEle o “seu Espírito.” Vemos isso em vários casos ao longo da história de Israel, com Josué (Dt. 34:9), com Saul (1 Sm. 10:10) e com o próprio Davi (1 Sm. 16:14).

Divindade x Espírito de Cristo
Em outras palavras, o Adocionismo entendia que o Messias seria considerado filho de Deus porque nele repousaria o Espírito de Deus. Sua divindade, portanto, não seria no sentido de ter nascido um ser divino, mas de ter se tornado divino porque sobre ele habitaria o Espírito de Deus. Da mesma forma que Moisés foi divino, que Josué foi divino, etc.

Para diferenciar de outras formas de receber o Espírito de Deus – como, por exemplo, Bezalel recebeu para construir os objetos do Tabernáculo, ou como os profetas recebiam – alguns autores passaram a chamar e ideia do Espírito de Deus conduzir o rei de Israel como o “Espírito do Ungido”. Em grego, passaria a se chamar “Espírito de Cristo”.

Em suma: Os ebionitas acreditavam que Jesus não era um homem-deus, mas sim um homem em quem habitava a divindade. Isto é, um homem em quem habitava o Espírito de Cristo.

Epifânio descreve isso, de forma um pouco distorcida, dizendo: “Isso é porque eles afirmam que Jesus é na realidade um homem, como eu disse, mas que Cristo, que desceu na forma de uma pomba, entrou nele – conforme já vimos noutras seitas – e se uniu a ele. Cristo em vem de Deus no alto, mas Jesus é a descendência da semente de um homem e uma mulher.” (Panarion – Seção II – 14:4)

E não é por acaso que Epifânio diz que essa forma de pensamento também era vista noutras seitas. De fato, ele descreve vários outros grupos que criam exatamente da mesma forma.

Uma Obra Banida
Seria mais fácil classificar isso como esquisitice de uma ou mais seitas de judeus-cristãos. Mas, infelizmente a verdade é muito mais profunda e dolorosa do que isso. Essa foi uma ideia extremamente popular, que só foi silenciada pelo poderio político da Igreja Católica, quando o poder eclesiástico se fundiu com o poder político.

Poucos sabem, mas havia uma obra extremamente popular nas igrejas cristãs primitivas, chamada “O Pastor de Hermas”. A teoria mais aceita é que ela tenha sido escrita por Clemente de Roma, ou pelo próprio Hermas, nomeado por Paulo de Tarso na sua Epístola aos Romanos (Rm. 16:14).

Essa obra foi considerada herege em vários concílios promulgados pela nascente Igreja Romana quanto à formação do cânon do que viria a ser conhecido como o Novo Testamento.

Sobre isso, a Enciclopédia Católica New Advent afirma: “Eusébio nos diz que [o Pastor de Hermas] era lido publicamente nas igrejas; e apesar de alguns negarem que ele fosse canônico, outro o consideravam extremamente necessário.”

O Pastor de Hermas chegou a figurar no Novo Testamento da Bíblia Sinaítica Alpeh, do quarto século e era tão popular que chegou a sobreviver por alguns séculos. Ele chega a aparecer até no Códice Claromontano, um manuscrito do Novo Testamento em grego e em latim, do século 6 d.e.c..

O Trecho Herege
É bem possível que o Pastor de Hermas tenha sido considerado extremamente necessário porque é o documento cristão primitivo que fala mais abertamente sobre o Adocionismo, o mesmo encontrado entre os ebionitas de Jerusalém.

Em dado trecho, o Pastor de Hermas diz o seguinte:

“O Santo Espírito pré-existente, que criou toda a criação, Deus fez habitar na carne que Ele desejou. Essa carne, portanto, na qual o Espírito Santo habitou, era sujeita ao Espírito, andando de maneira honrada em santidade e pureza, sem de forma alguma profanar o Espírito.

Quando então ela viveu em pureza, e operou com o Espírito, e colaborou com ele em todas as coisas, comportando-se de forma ousada e com bravura, Ele a escolheu por parceira do Espírito Santo; pois a carreira dessa carne agradou [o Senhor], vendo que, possuindo o Espírito Santo, não se contaminou sobre a terra.” (O Pastor de Hermas – Quinta Parábola – 6:6)

O texto é bastante claro. A Cristologia, portanto, dessas igrejas era a de que Jesus era um homem comum, em quem teria habitado o Espírito de Deus. E seria esse Espírito de Deus habitando em Jesus que seria divino, e não a pessoa de Jesus em si.

Herege e Quase Judaico?
É mais fácil compreender porque a seita dos ebionitas, encontrada por Melito em Jerusalém, acreditava dessa forma. Seria impossível para um judeu conceber a ideia da Trindade, ou de Jesus ser uma divindade. Se a identidade do Messias já foi fator de grande contenda em Israel ao longo da história, como revelam as histórias de Jesus, Bar Kokhba e Shabetai Sevi, imagine a questão de mexer no entendimento da divindade.

E, contrariando o dogma trinitário, o Pastor de Hermas traz: “E tudo isso o pastor, o anjo do arrependimento, me ordenou a escrever: Primeiro de tudo, creia que Deus é Um; Aquele que criou todas as coisas e as colocou em ordem, e trouxe todas as coisas da não-existência à existência; Quem compreende todas as coisas, sendo ele próprio incompreensível.

Crê nEle, portanto, e teme-O, e nesse temor seja firme. Guarda estas coisas, e tu lançaras para longe de ti toda iniquidade e te revestirás de toda excelência de retidão e viverás para Deus, se cumprires este mandamento.” (O Pastor de Hermas – Quinta Visão 5:7 a Primeiro Mandamento 1:1)

Esse trecho da obra poderia facilmente fazer parte de um tratado judaico sobre o Monoteísmo e talvez reflita um tempo anterior, em que o Cristianismo ainda estava mais arraigado nas raízes da religião de onde saiu.

Vitória Teológica… ou Política?
Certamente para quem é cristão, essa visão seria considerada uma grande heresia. Porém, frequentemente, heresia e ortodoxia são definidos não por quem tem a teoria mais provável, mas sim por quem tem maior poder político.

Se os proponentes do Pastor de Hermas tivessem conseguido mantê-lo no cânon do Novo Testamento, ou se sua Cristologia tivesse saído vitoriosa nos inúmeros concílios da Igreja Católica, provavelmente você que é cristão seria adocionista. E talvez jamais viesse a ouvir sobre a doutrina da Trindade, ou mesmo outras formas que teorias que tenham surgido.

Conclusão Herege
O autor herege deste artigo é judeu e não cristão. Como não professa fé em Jesus, não se sente no direito de arbitrar sobre questões cristãs. O que foi aqui apresentado, portanto, tem como objetivo resgatar a história de um grupo cujas crenças foram literalmente banidas da fé cristã, nos primeiros séculos da Igreja Católica.

Se, contudo, o Adocionismo for mesmo o dogma mais antigo como sugere a maioria dos historiadores não-religiosos, o que não podemos (nem pretendemos) afirmar com certeza absoluta, isso traz toda uma diferença na maneira como os textos cristãos seriam lidos.

Hoje em dia, um adocionista não seria morto, nem teria suas Escrituras queimadas. Porém, talvez ainda sofresse bastante perseguição ideológica numa igreja, como todo herege costuma sofrer.

Mesmo se você for um cristão de linha mais ortodoxa, conhecer a própria história é sempre importante, bem como talvez admitir uma maior pluralidade de pensamentos, pois as coisas só parecem lineares quando alguém apagar os discordantes de sua própria história.

Bibliografia
MENZIES, Allan (org.) Ante-Nicene Fathers Volume 8: Melito, The Philosopher. Michigan, Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1911

Charles H. Hoole. The Shepherd of Hermas. London: Rivingtons, 1870.

Frank Williams. The Panarion of Epiphanius of Salamis: Book I (Sects 1-46). Leiden: Brill, 2009.

Joseph Barber Lightfoot. The Shepherd of Hermas. Amazon Digital Services, 2010.

Montague Rhodes James. The Apocryphal New Testament: being the Apocryphal Gospels, Acts, Epistles and Apocalypses. Oxford: Clarendon Press, 1924.

Catholic Encyclopedia: Hermas. Edição de 1917. Disponível em <http://www.newadvent.org/cathen/07268b.htm>