As Festas Perdidas do Templo de Jerusalém

Introdução
Em Levítico 23, a Bíblia apresenta uma série de festividades que seriam celebradas no Tabernáculo ou, posteriormente, no Templo de Jerusalém. Elas são bastante conhecidas nos meios judaico e cristão.

Porém, o que muitos não sabem é que, à época do Segundo Templo, essa lista não era unânime. E um manuscrito surpreendente, descoberto nas cavernas do Mar Morto, traz pelo menos duas festividades que não se encontram na lista de nenhuma das Bíblias de que temos notícia.

Apelidado de “Manuscrito do Templo”, traz recomendações de como seria a vida de Israel no fim dos tempos, com sua vida religiosa centrada no Templo de Jerusalém.

As Festas do Vinho e do Óleo
E é justamente esse manuscrito que apresenta duas festividades adicionais de peregrinação: A Festa do Vinho Novo e a Festa do Óleo Novo.

É importante se recordar que a primeira festa de peregrinação na Bíblia é a Festa dos Ázimos, que ocorre no começo da primavera, quando da colheita da cevada. A festa seguida, denominada de Festa das Semanas, ocorre sete semanas depois, quando da ocasião da colheita do trigo.

A Festa do Vinho Novo viria justamente sete semanas depois da Festa das Semanas, quando seria realizada a colheita das uvas e a apresentação das primícias do vinho que fosse feito naquele ano. Nessa festividade, Israel deveria novamente se reunir para celebrar perante o Eterno, no Templo, em moldes semelhantes aos das outras duas solenidades.

Já a Festa do Óleo Novo viria sete semanas depois da Festa do Vinho Novo, marcando o momento em que os israelitas apresentariam uma colheita de olivas e ofereceriam azeite ao Criador. A ocasião seria também marcada por uma festividade.

Trecho do Manuscrito do Templo
Abaixo, trecho que fala sobre essas solenidades:

“Contarás a partir do dia em que trouxeres a nova oferta ao ETERN[O] – o pão das primícias – sete semanas, sete semanas completas, até o dia depois do sétimo Shabat. Contarás cinquenta dias, então [sa]crifícarás vinho novo como oferta de bebida: quatro hin de todas as tribos de Israel, um terço de hin para cada tribo. Além do vinho, ofertarás naquele dia doze carneiros para o ETERNO…

Então comerão no átrio perante o ETERNO, e [os sacerdo]tes beberão um pouco do novo vinho. Eles beberão lá primeiro, então os Levitas em segundo… [e depois deles…]; então todo o povo, gran[de] e pequeno, poderá beber o novo vinho e comer uvas das videiras, quer maduras ou verdes, pois [n]este [di]a farão expiação pelo vinho. Então os filhos de Israel se regozijarão pera[nte] o ETERNO, sendo este um [estatuto] perpétuo, geração por geração, onde quer que habitem. Eles se alegrarão neste d[ia] no festival do [vinho novo] para derramar oferta de vinho fermentado, novo vinho sobre o altar do ETERNO, um culto anual.

V[ós] contareis daquele dia sete semanas – sete vezes sete dias , quarenta e nove dias, sete semanas completas – até o dia depois do sétimo Shabat: contareis cinquenta dias. Então oferecereis óleo novo dos lugares onde as [tr]ibos dos fi[lhos de Is]rael habitarem, meio hin de cada tribo, óleo recém-extraído. [Oferecerão as primícias do] óleo no altar de oferta queimada, como primícias perante o ETERNO […]…

Então apresentarão ao ETERNO uma oferta dos carneiros e cordeiros; a coxa direita, o peito da oferta movida e, como a melhor parte, [a perna dianteira.] As faces e o estômago pertencerão aos sacerdotes como sua porção, seguindo as regulamentações costumeiras. Os levitas receberão o ombro.

Depois, as porções serão trazidas para fora até os filhos de Israel, que darão aos sacerdotes um carneiro e um cordeiro, os levitas o mesmo, e cada tribo o mesmo. Eles os comerão perante o SENHOR naquele mesmo dia no átrio. Esse é um estatuto perpétuo, de geração em geração, como rito anual. Depois de terem comido, ungirão a si mesmos com novo óleo e comerão azeitonas, pois naquele dia terão feito expiação por [t]odo [o óleo] da terra perante o ETERNO, como rito anual uma vez por ano. Os filhos de Israel se regozijarão […].” (11Q19 – Col. 19:11-16,12-16,8-16)

Análise do Manuscrito
Como o manuscrito é fragmentado, não está claro se as solenidades seriam ocasiões em que se proibiria o trabalho, a exemplo das festas bíblicas tradicionais. Porém, considerando que o mesmo tipo de prescrição é feito em termos de sacrifícios, bem como considerando que na Col. 11 do mesmo manuscrito as menciona todas juntas, é bem provável que seguisse o modelo das demais festividades.

O mais curioso dessa festividade é que, de fato, a Bíblia não menciona datas para se trazer as primícias de tais elementos, que eram bastante importantes na economia israelita.

A Bíblia fala das primícias da colheita à época da cevada, do trigo e do começo do outono. Mas, e as demais? Não é muito claro quando seriam trazidos.

Provavelmente, o objetivo dessa lei era justamente regulamentar essa questão, fazendo com que pudessem entregar tais coisas em datas mais organizadas, para suprir o Templo.

É pouco provável que essa ideia tenha se originado nas cavernas de Qumran, no Mar Morto, pois a seita de Qumran estava afastada do convívio do Templo. No mínimo, deve ter havido algum tipo de prática semelhante em que a comunidade se inspirou para poder escrever o “Manuscrito do Templo”.

Conclusão Herege
O autor herege acredita que é bem provável que originalmente o sistema do Tabernáculo e, posteriormente, do Templo tenha mesmo se fixado mais nas primícias dos grãos. Há quem diga, contudo, que essas solenidades remontam até os tempos bíblicos.

Na opinião do autor, o mais provável é que o texto supracitado seja uma inovação da seita de Qumran, mas que deva estar baseada numa prática já existente no Templo, de organizar as primícias.

No mínimo, serve para ajudar a compreender que a questão das solenidades bíblicas estava muito mais ligada a questões logísticas do que pode parecer ao leitor das Escrituras.

Bibliografia
VERMES, Geza. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Londres: Penguin Books, 1995.

WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

Qual a Bíblia mais antiga?

As Listas Mais Antigas
Muita gente se pergunta: Qual a Bíblia mais antiga de todas?

Quando o assunto é Bíblia Hebraica, existe bem menos controvérsia do que, por exemplo, quanto à Bíblia Cristã. Mas, isso não significa que o assunto tenha sempre sido unânime. Para chegar ao cânon mais antigo, três testemunhos são importantes.

A lista mais antiga de todas elas é a que aparece no texto do livro de Josué Ben Sira, também conhecido apenas como Ben Sira ou como Eclesiástico.

Essa obra faz menção a todos os livros da Bíblia, à exceção de Ruth, Cantares, Ester e Daniel. Os dois últimos, provavelmente por serem posteriores a Ben Sira, ou ainda não terem atingido um status de canônicos à sua época. Não se sabe, contudo, a razão pela qual Ruth e Cantares se fazem ausentes.

Outra lista importante é a de livros que aparecem nas cavernas do Mar Morto. Deles, observa-se que todos os livros da Bíblia Hebraica se fazem presentes, à exceção de Ester. Não é certo se isso ocorre pelo fato de Ester ser um livro posterior, ou se era rejeitado pela seita de Qumran.

Porém, em Qumran aparecem Tobias e Ben Sira, um dos livros que figuram entre os chamados Apócrifos da Septuaginta, hoje presentes nas Bíblias Católicas. E também aparecem duas obras que hoje só estão presentes entre as comunidades etíopes (cristã e judaica). A saber, 1 Enoque e Jubileus.

Já Flávio Josefo menciona 22 livros, dos 24 livros hoje presentes na Bíblia Judaica. Mas, ele não os menciona por nome. Sendo assim, quais seriam os 2 livros que estariam ausentes? Uns suspeitam de Ester, e talvez de Ezequiel. Outros, contudo, acreditam que era apenas uma questão de dividir os livros de maneira diferente.

Prova Por Ausência?
O mais difícil quanto a essas listas está no fato de que estamos lidando com o que se chama de “prova por ausência.” Isto é, a ausência de menção a determinadas obras sendo interpretada como tais obras não sendo canônicas. Não há nada que garanta isso, pois pode se tratar de simples coincidência.

Disputas Internas no Judaísmo
Mas, há obras que foram, em vários momentos da história, questionadas. A seguir, as principais delas:

No Talmude Babilônio, há registro de várias discussões sobre os status de determinadas obras. Especialmente porque os judeus da antiguidade consideravam que os manuscritos bíblicos poderiam afetar as regras de pureza cerimonial. Então, saber quais obras eram inspiradas ou não era importante, para fins cerimoniais.

Os seguintes livros eram apontados por alguns como livros não-inspirados. Vale ressaltar que os livros tidos como não-inspirados não eram necessariamente vistos como livros ruins. No fim, a conclusão foi a de que todos eles eram inspirados. Porém, se foram debatidos é porque nem sempre foi assim.

Dos livros tidos como históricos: Ruth e Ester;
Dos livros poéticos e de sabedoria: Eclesiastes, Cantares e Provérbios;
Dos livros proféticos: Ezequiel;

Referências: b. Shabat 14a; b. Meguilá 7a;

Motivos dos Questionamentos
Abaixo, um resumo das possíveis razões para os questionamentos. Não apenas talmúdicos, mas em geral:

Ruth: As razões de questionamento provavelmente revolvem em torno de uma moabita como personagem principal. É um livro também considerado por muitos como uma estória romanceada.

Eclesiastes: A visão de mundo bastante ácida e pesada do autor certamente não agradou a todos. Porém, a oposição a essa obra foi relativamente pequena.

Cantares: O conteúdo da obra fala da relação entre homem e mulher e, por isso, houve bastante polêmica. A tendência posterior foi a espiritualização do relato, associando-o a Deus e Israel.

Provérbios: O livro de Provérbios sempre foi visto como uma obra louvável. Porém, por se tratar de uma coletânea de conselhos, trechos de sua obra em dados momentos foram questionados. Embora, na essência, tenha sido amplamente aceito.

Ezequiel: O livro mais polêmico do cânon judaico. Em virtude de seu sistema litúrgico divergir da Torá e ser um livro de caráter mais espiritualizado, alguns sábios judeus se opuseram fortemente a ele. No fim, porém, prevaleceu a visão da maioria, de que o livro deveria ser incluído.

Ester: Três eram as razões para o questionamento. A primeira, sua possível composição exílica. A segunda, a ausência de menção a Deus. E a terceira, o fato de ser uma Meguilá, isto é, um texto escrito especificamente com propósito litúrgico, que pode não ser totalmente histórico. Além disso, há uma disputa quanto ao conteúdo. A versão hebraica de Ester é consideravelmente menor do que a versão grega.

Daniel: Daniel não figura em algumas das listas mais antigas. O mais provável, contudo, é que isso se deva por ter sido o livro mais recente da Bíblia Hebraica, posterior a algumas de tais listas, tendo sido escrito durante a Revolta dos Macabeus. Além disso, há uma diferença no conteúdo. A versão grega de Daniel é mais extensa, trazendo outros contos da corte babilônia.

Salmos: Embora os 150 salmos da Bíblia Hebraica sejam aparentemente unânimes, outros cânons figuram salmos que não aparecem nessa lista. Na Septuaginta, temos 151 salmos. Na Peshitta Aramaica, 155. E, no Mar Morto, há também outros que não figuram no texto hebraico. O mais provável é que cada comunidade tenha acrescentado seus próprios salmos com o passar do tempo.

A Provável Lista Mais Antiga
Se considerarmos apenas os livros não-controversos e que não estão ausentes das listas mais antigas, provavelmente a mais antiga da Bíblia Hebraica era algo assim:

Instrução (Torá): Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio.
Profetas: Josué, Juízes, Samuel (1 e 2), Reis (1 e 2), Isaías, Jeremias, os Doze Menores (Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias)
Escritos: Crônicas (1 e 2), Esdras/Neemias, Salmos, Jó e Lamentações.

Ou seja, da Bíblia Hebraica atual teríamos apenas 18 dos 24 livros, com 7 ausências. Na contagem cristã, teríamos 32 livros.

Uma curiosidade interessante: Esse é um número relevante na cultura judaica, pois é o número da palavra “vive” (חי – Hay). Teria a lista original primitiva sido composta por 18 livros? Não é uma hipótese improvável!

Dos 7 livros ausentes, dois possuem mais de uma versão. A saber, Daniel e Ester. O mesmo acontece com o livro de Salmos, dentre os livros canônicos e provavelmente ocorria com as versões mais antigas do livro de Provérbios.

Vale ressaltar que nem sempre não-canônico significava ruim ou pouco importante. Apenas, significava que não eram obras vistas unanimemente pelas lideranças. Algumas delas, depois de muito debate e discussão, foram incluídas. Outras, foram relegadas ao esquecimento.

Conclusão Herege
Em boa parte, a dificuldade de se chegar a uma lista original está em dois fatos: O primeiro, a dificuldade arqueológica e histórica de resgatar informações tão antigas.

A segunda está no fato de que talvez não houvesse uma “lista original”. A formação do cânon teve mais a ver com tentar preservar livros essenciais face à perseguição do que criar uma lista exclusiva. De toda forma, consegue-se perceber quais os livros eram, na antiguidade, tidos como os mais importantes para instrução nos caminhos do Criador.

Vale ressaltar ainda o seguinte: Há obras que talvez até por serem extensas demais não tenham figurado no cânon, mas com ensinamentos magníficos. É o caso de Ben Sira (Eclesiástico), que será abordado com mais detalhe noutra ocasião.

Há outros ainda que poderiam ter mudado a cara do que seriam, hoje, Judaísmo e Cristianismo, caso tivessem se tornado unânimes, como Jubileus e 1 Enoque. Mas, novamente, é assunto para outra ocasião.

Por fim, é importante deixar claro que novas descobertas arqueológicas podem trazer novos entendimentos sobre o assunto. O leitor herege deve se recordar que cem anos atrás os Manuscritos do Mar Morto ainda nem haviam sido descobertos; e eles mudaram muito nosso entendimento sobre o panorama geral das Escrituras.

Bibliografia:
ABEGG, Martin Jr. (Org.) et al. The Dead Sea Scrolls Bible. HarperCollins: São Francisco, 1999.

FREHOF, Solomon B. Ezekiel. Disponível em: <http://www.myjewishlearning.com/article/ezekiel/>. Acesso em 20 Jul. 2017.

JOSEFO, Flavio. William Whiston. Contra Apion. Cambridge: Cambridge University Press, 1736.

LEIMAN, S. The Canonization of Hebrew Scripture: The Talmudic and Midrashic Evidencel. Hamden: Connecticut Academy of Arts and Sciences, 1976.

SINGER, Isidor (org.); et al. The Jewish Encyclopedia: BIBLE CANON. Nova Iorque: Funk and Wagnalls Company, 1906.

VERMES, Geza. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Londres: Penguin Books, 1995.

WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

A New English Translation of the Septuagint: Sirach Prologue. Nova Iorque: Oxford University Press, 2007

Babylonian Talmud. Tradução de Rabbi Dr. Isidore Epstein. Soncino Press, Reino Unido: 1934.

As Palavras Perdidas do Arcanjo Miguel

Um Manuscrito Surpreendente
Um dos mais ousados textos descobertos nas cavernas do Mar Morto é também, infelizmente, um dos mais fragmentados.

O texto, conhecido como “As Palavras do Arcanjo Miguel”, foi encontrado num vaso de barro, na quarta caverna de Qumran, no deserto da Judéia. Um outro fragmento do mesmo texto na sexta caverna.

Abaixo, o que restou do texto:

“As palavras do livro que Miguel disse aos anjos […] ele disse, eu lá encontrei tropas de fogo […] […] nove montanhas, duas ao leste, [duas ao oeste, duas ao norte e duas] ao sul. Lá eu vi o anjo Gabriel […] […] ele me mostrou uma visão e me disse […] no meu livro do Grandioso, Senhor Eterno, está escrito […] os filhos de Ham e os filhos de Sem, e eis o Grandioso, Senhor Eterno […] quando as lágrimas fluírem livremente […] e eis que uma cidade será construída no nome do Grandioso, [Senhor Eterno… e nada] maligno será feito perante o Grandioso, o Senhor [Eterno] […] e o Grandioso, Senhor Eterno, se lembrará da Sua criação […] misericórdia pertence ao Grandioso, Senhor Eterno, e também […] nas terras distantes haverá um homem […] é ele, e dirá a ele: Esta é [minha Santa montanha…] a mim prata e ouro […] e o homem justo” (4Q529 & 6Q23)

Análise do Texto
O texto é pós-exílico, escrito em aramaico, datando de cerca do século 2 a.e.c. Nele, o arcanjo Miguel se dirige aos anjos do Senhor, bem como ao arcanjo Gabriel.

Há uma referência a exércitos de seres ardentes, numa provável alusão a anjos que executariam juízo sobre uma cidade iníqua.

O texto fala sobre uma cidade onde se fazia apenas o mal. O mais provável é que essa seja uma referência à Babilônia, por causa da contextualização que se refere aos filhos de Noé. Porém, frequentemente nos tempos antigos, os textos eram escritos de forma figurativa.

Assim sendo, há acadêmicos que entendem que as palavras são ditas contra Roma, outros entendem que se referem à própria Jerusalém.

O texto também se refere a uma cidade que seria construída no futuro, cercada por nove montanhas. Para Michael Wise, é uma referência a uma reconstrução de Sião. Já Geza Vermes afirma que a referência pode ser também ao monte Sinai.

Chamado do Justo na Terra Distante
Outra grande surpresa é uma referência a um homem, aparentemente justo, que seria supostamente chamado em uma terra distante.

Seria esse homem um libertador de Israel, como foi, por exemplo, Ciro da Pérsia? Seria um profeta chamado pelo Senhor, que a comunidade de Qumran esperava?

E a Santa montanha que aparece em conexão com esse local? Trata-se, certamente, de um lugar próspero, pois fala-se de ouro e de prata. Mas, seria essa a montanha na mesma cidade em que se refere o manuscrito anteriormente, ou seria ainda noutro lugar?

Considerando o contexto ultra-nacionalista de Qumran, parece mais provável que seja mesmo uma referência à própria Sião. Porém, o espalhar da glória do Senhor pelas nações também é mencionado na literatura do Segundo Templo.

O Misterioso Livro do Arcanjo Miguel
Por fim… que livro é esse, que aparece ditado pelo arcanjo Miguel numa visão? Não há qualquer referência a isso em lugar algum, dentro da literatura da época do Segundo Templo.

A ideia de anjos trazendo livros revelados em visões pode soar estranha ao leitor, mas era bastante comum na época. O livro apócrifo conhecido como Jubileus, por exemplo, atribui até a Torá, a Lei de Moisés, a visões que ele teria tido com anjos no monte Sinai.

Se Vernes estiver certo, e as nove montanhas forem atribuídas à região do Sinai, então é possível que fizesse alusão a Moisés ter supostamente recebido essa revelação. Se, contudo, for referência a Sião, pode ser uma visão de um dos profetas.

De todo jeito, não temos a mínima ideia de que obra é essa. O que, infelizmente, mostra o quão pouco sobreviveu das obras do Segundo Templo.

Teria essa obra se perdido acidentalmente, não tendo tido a sorte de ser preservada? Ou teria ela sido suprimida intencionalmente? Ou ainda, estaria ela por ser descoberta? Ninguém sabe.

Conclusão Herege
O autor herege acredita que os dados são muito pequenos e o manuscrito muito fragmentado para que se possa tirar muitas conclusões.

O manuscrito traz mais perguntas do que respostas. De todo jeito, parece indicar um tempo posterior, no qual o Senhor finalmente traria juízo, pondo fim a iniquidade. E esse é um tema bastante comum na Bíblia, uma ocasião que todos esperam ansiosamente.

Bibliografia
WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

VERMES, Geza. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Londres: Penguin Books, 1995.

Quando Enoque virou Messias

I – Introdução: Dois Mistérios
Duas passagens bíblicas são cercadas de muito mistério. E, por razão disso, já foram tema de muitas especulações. E, quando necessário, foram muito usadas para construir teologias.

Uma dessas passagens é a da morte (?) de Enoque: “E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou.” (Gênesis 5:24)

Ora, por que Deus teria tomado Enoque para si? Uma resposta predileta de muitos é: Para livrá-lo da destruição causada pelo dilúvio em Gênesis 5. Ou seja, Enoque era tão justo que Deus resolveu preservá-lo.

Outra passagem enigmática é a do filho do homem em Daniel: “Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele. E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído.” (Daniel 7:13,14)

O versículo 27 do mesmo capítulo de Daniel parece indicar que o filho do homem aí mencionado é alusão ao Reino de Israel, nos tempos finais, quando seu reino teria domínio por toda a terra. Porém… Será que o filho do homem representa Israel como reino, ou representa o Messias que Israel aguarda? Ambas as leituras existem mesmo no meio judaico.

Juntar essas duas passagens era apenas questão de uma pitada de criatividade. Será que Enoque teria sido preservado por Deus justamente para poder voltar depois como um glorioso governante?

 

II – A Angústia por um Libertador
Agora vamos ao pano-de-fundo histórico: Desde o retorno do exílio babilônio, o Judaísmo começou a experimentar fragmentações cada vez maiores. E, com isso, crescia a insatisfação de determinados grupos com seus governantes.

Avançamos um pouco e vamos para a época da dominação dos selêucidas até a Revolta dos Macabeus: Líderes corruptos, brigas políticas, o Templo profanado, acordos de bastidores, e a religião judaica ameaçada. Para muitos judeus, aquele era tempo final. O tão temido apocalipse judaico havia chegado!

Temos pelo menos um fruto desse tempo dentro da própria Bíblia Hebraica: O livro de Daniel. Que, justamente, descreve a Revolta dos Macabeus como culminando na vinda da Era Messiânica. E muitas outras obras foram escritas nessa linha.

Um dos grupos de sacerdotes descontentes, e seus discípulos, refugiou-se nas cavernas do Mar Morto, depois de terem sido provavelmente expulsos do convívio com o Templo. Num de seus textos, lemos:

“’As serpentes são os reis das nações; e ‘o vinho deles’ são os seus costumes; e o ‘veneno das víboras’ é o chefe dos reis da Grécia, que vem fazer vingança sobre eles.” (4Q266 – Col. 8)

Com o sacerdócio profanado, a liderança corrompida e Israel sofrendo ocupação, era apenas natural que alguns grupos passassem a pensar: A saída não está num filho de Davi, nem no sacerdócio levítico. É preciso olhar para um tempo anterior a esse, para alguém que não se corrompeu.

 

III – Enoque como Solução
E aí, então, chegamos em Enoque. Um homem tão justo que foi poupado da destruição, tomado por Deus. Teria ele sido preservado justamente para vir a ser esse rei escatológico que comandaria os justos de Israel?

É assim que o próprio livro de Enoque se refere ao “filho do homem”, que também aprece na tradição de Daniel. Observe as passagens abaixo:

“Desde o princípio o Filho do Homem foi ocultado, e o Altíssimo o preservou na presença da Sua força e o revelou aos escolhidos.” (1 Enoque 62:1)

“E a soma do juízo foi dada ao Filho do Homem; e ele fez os pecadores perecerem e serem destruídos da face da terra; e aqueles que corromperam o mundo.” (1 Enoque 69:27)

A medida que as coisas iam se tornando mais tensas e o sofrimento do povo ia ficando maior, começava a crescer em Israel a ideia de um Messias poderoso. Porém, ele não poderia vir do meio desse pandemônio maluco. Ele teria que ser isento, incorruptível, totalmente alheio a esse contexto.

Foi em meio a isso, que Enoque se tornou o filho do homem, o Messias prometido.

Nesses momentos, criatividade não faltava para lidar com os “requisitos”. Da mesma forma que os Hasmoneus encontraram uma maneira de se manter no poder, também os “enoquianos” encontraram uma forma de vincular Enoque a esses requisitos. Teria, por exemplo, havido uma tradição de Enoque enquanto um rei na região de Jerusalém, tal como Melquisedeque?

Nos manuscritos do Mar Morto, encontramos referências desse tipo para ambos, inclusive. Teriam os membros da seita de Qumran acreditado que Melquisedeque e Enoque fossem a mesma pessoa? Tudo é possível. Mas, estamos na esfera da conjectura.

 

IV – Enoque como Messias Vindouro
Porém, fato é que encontramos o seguinte no livro de Enoque:

“E então o anjo veio a mim e com sua voz me saudou, dizendo: Tu és o Filho do Homem, que nasceu para a justiça, e a justiça repousou sobre ti.

E a retidão do Ancião de Dias não te abandonará… De ti procederá a paz em nome do mundo vindouro. Pois de lá procedeu a paz desde a criação do mundo, e assim te sucederá para sempre. Contigo será a habitação deles; nem de ti se separarão para todo sempre.” (1 Enoque 71:14-15)

Considerando a popularidade do Livro de 1 Enoque, fica muito evidente que um grande grupo de judeus acreditava que Enoque voltaria dos céus, pois tinha sido preservado para que pudesse reinar sobre os homens no Reino de Paz, que aconteceria logo depois que as nações fossem envergonhadas.

 

V – A Crença no Cristianismo Primitivo
Há um fator que também surpreende: Como poderia essa obra, que identifica Enoque como Messias, ter sido tão popular no meio cristão?

Que ela era considerada Escritura inspirada por, pelo menos, boa parte dos primeiros cristãos é fato inegável, pois ela é citada como tal pela Epístola de Judas 1:14-15, que a chama de profética.

Como, então, poderia tal livro influenciar cristãos, se ele trazia um “concorrente” para a própria figura de Jesus? E não podemos sequer afirmar que se tratava de outra obra, pois 1 Enoque foi preservada justamente pelo Cristianismo Ortodoxo, mais especificamente pela Igreja Etíope.

Há, então, quatro possibilidades:

1) Falta de Compreensão.
Não seria surpresa se a falta de entendimento do texto possa ter feito essa contradição passar desapercebida. Afinal, isso aconteceu com um dos mais renomados tradutores de 1 Enoque, Robert Henry Charles.

Em sua tradução, quando chega no ponto de Enoque identificado como Filho do Homem, Charles afirma: “Aqui há uma passagem perdida, em que o Filho do Homem era descrito como acompanhando o Ancião de Dias; e Enoque indagou a um dos anjos (como no 46:3) acerca do Filho do Homem e quem ele era.”

Alegar que havia uma “passagem perdida” era uma boa saída. Mas, é bastante improvável, pois o texto etíope está muito completo e bem preservado. Talvez Charles não tenha feito de propósito. Talvez ele tenha mesmo achado o texto estranho nesse trecho.

Semelhantemente, pode ser que os primeiros cristãos também tenham passado batido por esse trecho.

2) Mais de um Messias
Nos Manuscritos do Mar Morto, somos apresentados a mais de um Messias. Afinal, o termo ‘messias’ significa literalmente ungido e pode se aplicar a qualquer cargo ou função de destaque.

A seita do Mar Morto, por exemplo, esperava o Messias de Aarão e Israel (conforme o Documento de Damasco) e um Messias governante.

É possível que os cristãos que criam em 1 Enoque também poderiam crer assim. Embora no Judaísmo seja comum a ideia de vários ungidos/messias, no Cristianismo a ideia se consolida unicamente em torno de Jesus. Mas, talvez nem sempre tenha sido assim.

A principal dificuldade dessa ideia, porém, não é a quantidade de Messias, mas sim o fato de que Enoque é apresentado como sendo o Messias mais importante, a saber, o governante das nações na Era de Paz.

Será que, em dado momento, alguns dentre os primeiros cristãos consideraram Jesus um Messias secundário? Epifânio, por exemplo, cita um grupo chamado de “os pobres” (eviyonim/ebionitas) que tinham Jesus como uma espécie de profeta, mas não como Messias davídico. A ideia, portanto, não seria totalmente estranha.

3) A Mesma Pessoa
Não era estranho ao Judaísmo o hábito de vincular duas ou mais figuras importantes. Nos comentários judaicos, frequentemente vemos Sem virando Melquisedeque, Queturá sendo o nome próprio de Hagar, Lemuel sendo um dos nomes de Salomão e muitos outros.

Não seria de todo estranho conjecturar que alguns grupos pudessem associar Enoque a Jesus.

A maior dificuldade dessa posição seria a ausência de textos confirmadores de tal hipótese. Mas, como a história é contada pelos vencedores, isso não pode ser totalmente descartado.

4) Messiologia Diferente
Aqui está a mais provável hipótese: A de que os primeiros cristãos diferenciassem entre o “Espírito de Messias” e Jesus. Isto é, terem Jesus como um ser humano, que teria sido revestido de uma função espiritual messiânica.

Essa função espiritual é que seria, por assim dizer, um caráter divino ou semi-divino daquele que fosse escolhido. Isso permitiria que Enoque e Jesus partilhassem de uma mesma função no imaginário dos cristãos primitivos, sem haver aí contradição de ideias.

 

VI – O Impacto no Judaísmo
No Judaísmo, o livro de 1 Enoque não sobreviveu, salvo pelos fragmentos encontrados no Mar Morto, que são suficientes para indicar a grande importância da obra em dado momento histórico.

Porém, há um resquício dela na parábola judaica denominada Midrash de Shemhazai e Azael, no Midrash Rabatai.

Em dado trecho, essa parábola diz: “No momento da decisão da vinda do Dilúvio ao mundo chegou, o Sagrado, bendito seja Ele, enviou Metatron como mensageiro a Shemzahai. Ele lhe reportou: ‘O Sagrado, bendito seja Ele, está planejando destruir o mundo.’ Shemzahai se levantou e chorou em alta voz e lamentou, e se entristeceu pelo mundo e por seus filhos.”

Metatron, uma hebraicização da figura de Mitra da Pérsia, era tido pelos místicos judeus como uma espécie de ‘messias celestial’, bem como um mediador. A saber, o principal anjo que habitava na presença do Criador e governava os demais.

Em 1 Enoque, é justamente Enoque o primeiro a anunciar a destruição do mundo, logo no capítulo 1. E é justamente ele quem aparece dizendo o que acima é trazido pelo Midrash Rabatai:

“Os Sentinelas me chamaram – Enoque o escriba – e me disseram: Enoque, tu és o escriba da justiça, vai e declara aos Sentinelas que deixaram o alto céu, o santo lugar eterno e se profanaram com mulheres, e fizeram conforme os filhos da terra fazem, e tomaram para si esposas… mesmo que eles se deleitem em seus filhos, o assassinato de seus amados eles verão, e sobre a destruição de seus filhos lamentarão, e faram súplica pela eternidade, mas não terão misericórdia nem paz.” (1 Enoque 12:4-6)

Numa obra mística denominada Sefer Raziel haMalakh (o Livro de Raziel, o anjo), da Idade Média, preservou-se a tradição de associar Enoque com Metatron:

“A transformação de Enoque em Metatron foi feroz: sua carne se transformou em chama, seus ossos em carvões brilhantes, seus olhos brilhavam com brilho estelar, seus globos oculares se tornaram centelhas ardentes.”

Outras obras cabalistas posteriores preservaram a ideia. Essa ideia evoluiu e, com o passar do tempo, foi reinterpretada como simbólica do potencial humano de tornar-se divino através de suas boas ações.

 

Conclusão do Herege
Como se pode observar, Enoque foi no passado uma figura de grande importância, associada tanto nas tradições judaica e cristã com as criaturas mais elevadas, seja na terra ou na mitologia celestial.

Talvez a idolatria tenha tornado isso desconfortável, ao ponto da ideia praticamente desaparecer de ambas as tradições.

Embora não acredite em Messias algum (nem aguarde tal figura), o autor herege está aqui para lembrar que para uma importante parcela de pessoas na antiguidade, tanto no Judaísmo quanto no Cristianismo, Enoque um dia já foi Messias, tanto terreno quanto celestial.

Talvez se os desdobramentos políticos tivessem sido outros, essa ideia poderia ter se tornado mais tradicional nos tempos atuais.

Há um viés interessante nisso tudo. A elevação de Enoque simboliza o desejo do povo de se desprender das autoridades terrenas, corruptíveis, que eram vistas como responsáveis pelas calamidades que assolaram o povo judeu.

Ou seja, a mitologia enoquiana acaba por também lembrar da importância da pureza e da liberdade no serviço do Criador. E esses conceitos não merecem cair no esquecimento, mesmo que ninguém hoje pense em Enoque como um Messias ou um homem que se tornou anjo.

Bibliografia
BOCCACCINI, Gabriele (Org.) Enoch and Qumran Origins: New Light on a Forgotten Connection. Michigan, Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 2005.

HURST, L. D. Did Qumran Expect Two Messiahs? Davis: University of California, 1999.

SHAPIRO, Rami. Enoch’s Ascent: A Tale of a Jewish Angel. Zeek, 2009. Disponível em <http://zeek.forward.com/articles/115651/>. Acesso em 28 Jun. 2017.

WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

Midrash Bereshit Rabbati. Hanokh Albeck. Jerusalém: Mekitze Nirdamim, 1940.

The Book of Enoch. Robert Henry Charles. Oxford: The Clarendon Press, 1906.

The Book of Enoch the Prophet. Richard Laurence. Londres: Kegan Paul, Trench & Co., 1883.