Moisés: Anjo, Messias e Rei da Humanidade

Além de Libertador e Profeta
A importância de Moisés nas religiões que crêem na Bíblia Hebraica é inegável. Figura central na libertação do povo de Israel do Egito, Moisés também foi o grande revelador que recebeu a Lei do Senhor no monte Sinai.

Apesar de sua grande importância, hoje o status de Moisés perante tais religiões é o de um homem grandemente honrado. Porém, no Judaísmo pós-exílico a coisa nem sempre ficou apenas nisso.

Moisés enquanto Anjo
Um dos manuscritos do Mar Morto, do século 2 a.e.c. conhecido como “Um Apócrifo de Moisés”, parece fazer alusão ao profeta como mais do que apenas um ser humano:

“Enquanto isso Moisés, o homem de Deus, estava com Deus na nuvem. E a nuvem o cobria, pois […] a medida que era santificado. Deus falava através de sua boca como um anjo; de fato, que mensageiro das boas novas houve como ele? […] Ele era homem piedoso e […] tal como nunca foi criado antes, e que para sempre […]” (4Q377 – Frag. 2 – Col. 2)

Aqui, Moisés parece como mais do que um simples ser humano. Trata-se de um ser humano especial, tal qual nunca fora criado. E ele também é chamado de Mensageiro das Boas Novas.

A “angelização” de Moisés – por assim dizer – aparece de forma mais explícita um pouco mais acima: Quando Deus fala através de sua boca, como um anjos.

É verdade que o texto acima poderia ser lido apenas como uma espécie de homenagem exagerada. Mas, ele não está sozinho. E indica uma tendência de divinização de Moisés.

A Exaltação de Moisés
Preservado entre os escritos de Eusébio de Cesaréia estão uma série de citações de um poema conhecido como Exagogue, que significa “conduzindo para fora”, e que conta a narrativa do êxodo.

Essa obra foi escrita por Ezequiel, um poeta judeu que viveu em Alexandria no século 3 a.e.c.. E ela traz uma descrição de uma visão de Moisés que é bastante peculiar. Observe:

“Tive uma visão de um grande trono no topo do monte Sinai e ele se estendia até os batentes dos céus. Um nobre estava sentado sobre ele, com uma coroa e um grande cetro em sua mão esquerda.

Ele me chamou com sua destra e eu me aproximei e me coloquei perante o trono. Ele me deu o cetro e me instruiu a me sentar no grande trono. Então ele me deu uma coroa real e se levantou do trono.

Contemplei toda a terra à volta e vi além da terra e acima dos céus. E uma multidão de estrelas se ajoelhou perante mim e eu as contei. Elas desfilaram perante mim como um batalhão de homens. Então acordei de meu sono em temor.

Raguel [disse:] Meu amigo, este é um sinal de Deus. Que eu possa viver para ver o dia em que essas coisas se cumprirão. Tu estabelecerás um grande trono e te tornarás um juiz e líder dos homens. Quanto à tua visão de toda a terra, o mundo abaixo e o acima dos céus – isso significa que tu verás o que é, o que era e o que há de ser.” (Fragmento da Visão de Moisés)

Repare que o texto também traz uma divinização de Moisés. A linguagem é semelhante ao que se chama no Judaísmo pós-exílico de “Anjo da Presença”, um conceito de origem persa que fala sobre o primeiro em comando da divindade, capaz de executar suas obras na Criação. Originalmente, a função era atribuída a Mitra da Pérsia, tornando-se Metatron no Judaísmo.

Anjo da Presença, Messias e Rei
No texto, Moisés é descrito como alguém que toma um trono divino e se assenta, como o Anjo da Presença do Eterno.

No entanto, a coisa também não para por aí: A ele é dado domínio primeiramente dos filhos de Israel, mas também de toda a humanidade.

Moisés é apontado como o grande juiz que veria o passado, presente e futuro da humanidade e julgaria os filhos dos homens segundo a palavra do Senhor.

Em outras palavras: Em termos inequívocos, Ezequiel de Alexandria aponta Moisés como Messias.

As Razões de Alexandria
Isso não surpreende, pois a insatisfação dos judeus de Alexandria para com a liderança judaica em Jerusalém após o exílio, bem como para com o próprio Templo, era fato notório e é tema de muitas obras, inclusive de livros pseudo-epígrafes.

Ter Moisés como Messias, que possivelmente viria a julgar a humanidade no futuro, certamente serviria como bom substituto da autoridade corrupta (à visão da comunidade de Alexandria) à época do Segundo Templo.

Além disso, em meio às discussões sobre a legitimidade da liderança, quem ousaria questionar um governo do próprio Moisés?

Mas, mais interessante ainda, a glorificação de personagens como Enoque e Moisés na literatura da época do Segundo Templo mostra um fenômeno curioso: O da exaltação gradual dos profetas.

É bom recordar que de personagem desconhecido, Enoque passa a ser escriba celestial e posteriormente Messias (na obra de 1 Enoque) – posteriormente, seria também ele exaltado à condição de Anjo da Presença noutras outras.

Semelhantemente, aqui temos Moisés passando de profeta a anjo. E de anjo a Anjo da Presença, rei da humanidade e Messias de Israel.

Essas figuras do passado, glorificadas, visavam estabelecer contraste com os líderes corruptos ou reprováveis da geração dos autores, bem como demonstravam uma expectativa de tempos melhores.

Conclusão Herege
Evidentemente, o autor herege não crê que Moisés tenha se tornado anjo. E vê com ressalvas até mesmo a ênfase em reis ou governantes humanos exaltados, pois entende que isso tira o foco da figura do próprio Eterno.

Todavia, é interessante observar esse fenômeno para compreender porque, por exemplo, profetas ou mestres carismáticos – a exemplo do próprio Jesus do Cristianismo – tenham gradativamente deixado de ser vistos como homens comuns e passados a ser enxergados com algum grau de divindade.

O movimento de glorificação de Moisés pode não ter sobrevivido no Judaísmo por muito tempo, mas a observação da relação da ultra-ortodoxia judaica com seus líderes – a atribuição de grandes milagres, a mediação depois de mortos, entre outros – indica que, de fato, não há nada de novo debaixo do sol.

Mas, é difícil argumentar contra Ezequiel de Alexandria. Se fosse para exaltar alguém a essa condição, quem melhor do que Moisés?

Bibliografia
JACOBSON, H. The Exagoge of Ezekiel. Cambridge: Cambridge University Press, 1983.

HOLLADAY, C. R. Fragments from Hellenistic Jewish Authors: Vol. II, Poets. Atlanta: Scholars, 1989.

VERMES, Geza. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Londres: Penguin Books, 1995.

WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.