Quando os Justos viravam Anjos

A Angelologia Israelita
É inegável que o povo judeu trouxe consigo do exílio uma angelologia bastante sofisticada, onde os anjos eram descritos dentro de hierarquia e cheios de supostos atributos físicos extraordinários.

O próprio Midrash Rabá afirma disso, dizendo: “R. Yanina disse: Os nomes dos meses vieram conosco da Babilônia. R. Shim`on Ben Lakish disse: Também os nomes dos anjos, Miguel, Rafael e Gabriel.” (Bereshit Rabá 48:9)

Mas, ainda era possível encontrar uma angelologia mais simples, na qual as aparições aos vivos eram realizadas por pessoas que já se foram, ou que talvez ainda não houvessem nascido.

Ideia de Pré-Existência
Há um texto no livro de Jó que certamente inspirou muitas ideias. Ele diz:

“Onde você estava quando lancei os alicerces da terra? Responda-me, se é que você sabe tanto. Quem marcou os limites das suas dimensões? Vai ver que você sabe! E quem estendeu sobre ela a linha de medir? E as suas bases, sobre o que foram postas? E quem colocou sua pedra de esquina, enquanto as estrelas matutinas juntas cantavam e todos os filhos do Senhor se regozijavam?” (Jó 38:4-7)

É sabido que muitos comentaristas judeus viam nesse texto a ideia de uma pré-existência. E não é preciso muita criatividade para que começassem a supor que haviam, eles próprios, um dia sido anjos. Afinal, “estrelas do céu”, que aqui aparecem como sinônimo poético de “filhos do Senhor”, é um dos termos usados para se referir aos descendentes de Abraão. (vide Gn. 15:5, 22:17 e 26:4)

Um Manuscrito Perdido
A ideia de que pessoas não-nascidas, ou depois de partirem, sejam anjos ministradores perante o Senhor, e até mesmo que venham a trazer mensagens aos vivos, hoje em dia é bastante rara, tanto no Judaísmo, quanto no Cristianismo.

No entanto, um manuscrito perdido, citado por um antigo comentarista católico, pode trazer mais informações sobre o que, pelo menos, algumas comunidades judaicas criam quanto a isso.

Esse manuscrito, intitulado ‘A Oração de José’ se perdeu, possivelmente em meio às inúmeras perseguições sofridas pelo povo judeu. Sabe-se apenas que ele era tido como Escritura entre os judeus egípcios da comunidade de Alexandria.

Felizmente, contudo, um pequeno fragmento desse texto sobreviveu na forma de uma citação feita por Orígenes Adamantino, um cristão egípcio que viveu justamente em Alexandria no século 3 d.e.c..

Assim sendo, esses judeus de Alexandria provavelmente acreditavam que, embora essas pessoas tivessem seus nomes terrenos (tal como o caso de Jacó) e que quando atuavam como espíritos ministradores das mensagens de Deus, eles teriam também nomes celestiais.

O Manuscrito e a Comunidade de Alexandria
Em um comentário ao evangelho de João, Orígenes escreve sobre os judeus de Alexandria, em sua época:

“Se o texto intitulado ‘A Oração de José’, uma das obras apócrifas atuais comum aos hebreus, for confiável, esse dogma é encontrado expressado claramente… Aqueles [que foram criados] no princípio… tendo alguma distinção marcada para além dos homens, e sendo muito maiores do que outras almas, porque eram anjos, eles desceram à natureza humana.” (Capítulo 25 – Livro I)

Como o manuscrito se perdeu, ou foi destruído, nada sabemos sobre ele, salvo o fato de que a linguagem é pós-exílica e que ele já existia no século 3 d.e.c. Também não sabemos se era exclusivo da comunidade de Alexandria, ou se mais comunidades de judeus no Oriente também a tinham em alto apreço.

O fato de ser importante para a comunidade de Alexandria não deve ser subestimado, pois trata-se de uma das comunidades judaicas mais importantes de todos os tempos no exílio. Formada por volta do século III a.e.c., tendo durado cerca de 2,3 mil anos, pois a comunidade só veio a ser praticamente extinta na última década.

O Texto do Fragmento que Sobreviveu
Abaixo, o texto na íntegra do fragmento citado por Orígenes, seguido de comentários:

“Eu, Jacó, que falo a ti, e Israel, sou um anjo do Senhor, um espírito governador, e Abraão e Isaque foram criados antes de toda obra do Senhor; e eu sou Jacó, chamado Jacó pelos homens, mas meu nome é Israel, chamado Israel pelo Senhor, um homem que vê o Senhor, porque eu sou o primogênito de toda criatura que o Senhor fez viver…

Quando estava vindo da Mesopotâmia na Síria, Uriel, o anjo do Senhor, se aproximou e disse: Vim e fiz minha morada entre os homens, e sou chamado Jacó por nome. Ele contendeu comigo e lutou contra mim, dizendo que seu nome e o nome daquele que estava perante todo anjo deveria vir antes do meu nome.

E eu lhe contei o seu nome e como ele era grande dentre os filhos do Senhor: Acaso não és Uriel, o oitavo desde mim, e eu sou Israel o arcanjo do poder do Eterno e capitão chefe dentre os filhos do Senhor? Acaso não sou Israel, o primeiro a ministrar na presença do Senhor, e acaso não invoquei meu Senhor pelo Nome inextinguível?”

Tão interessante quanto o texto é Orígenes citá-lo como apócrifo, mas ao mesmo tempo também dizer que acreditava piamente que Jacó tenha mesmo dito isso. Ele chega a afirmar: “É provável que Jacó tenha mesmo dito isso, e que portanto isso foi escrito…” Ele segue, tentando explicar a questão como uma causa para a eleição de Jacó.

Os Justos como Anjos Encarnados
Ao que tudo indica, portanto, o autor do manuscrito acreditava que os justos já existiam com o Senhor antes da fundação do mundo, na forma de espíritos, que o autor chama de anjos.

Além disso, o manuscrito afirma explicitamente que Abraão, Isaque e Jacó eram anjos de grande patente, por assim dizer. Muito provavelmente, segue-se a isso a ideia de que os justos viveriam como espíritos ministradores perante o Criador após a vida, ou mesmo antes dela.

Em seu comentário, Orígenes tenta afirmar que esses espíritos teriam tomado forma humana para seguir Jesus, que teria feito a mesma coisa. Evidentemente, não era assim que criam os judeus de Alexandria. Afinal, não eram cristãos.

Infelizmente, Orígenes não menciona o motivo dado pelo manuscrito para que esses espíritos pré-existentes, anjos por assim dizer, teriam tomado forma humana. E, assim sendo, salvo se o manuscrito for descoberto em algum outro lugar, é algo que nunca saberemos.

Essa doutrina desenvolvida no manuscrito talvez possa explicar como os primeiros cristãos tenham desenvolvido a teoria de uma suposta pré-existência de Jesus. Considerando que Alexandria também se tornou um importante polo cristão, é certo que tomaram contato com essa ideia, e a tenham desenvolvido na direção da figura central da fé cristã.

Também não sabemos se essa doutrina é originalmente judaica, ou foi influenciada por algum outro pensamento. O texto do manuscrito é muito pequeno para que se possa traçar paralelos com outras culturas.

O Desaparecimento
Porém, se chegou a ser tomado em alta estima entre os judeus de Alexandria, é um grande mistério que essa doutrina não tenha sobrevivido. Da mesma forma, é um grande mistério o porquê desse manuscrito ter desaparecido.

Será que desapareceu simplesmente porque não foi preservado, já que a escrita em tempos antigos era bem mais trabalhosa e vulnerável à ação do tempo? Ou teria sido intencionalmente eliminada? Não temos como ter certeza, embora a primeira opção pareça mais razoável.

Conclusão Herege
Essa é uma teoria bastante curiosa e o autor herege acredita que ela seja plenamente possível. Mas, diferentemente de Orígenes, não acredita que o texto seja mesmo de Jacó, por conter uma linguagem pós-exílica, evidenciada por coisas como o nome do anjo Uriel.

Há outros elementos interessantes na narrativa, tais como a identificação de Uriel como o possível anjo (ou homem) contra o qual Jacó teria lutado, bem como sua curiosa colocação como o oitavo no ranking angelical, ao invés de aparecer como um arcanjo, o que costuma ser posição mais comum.

Mas, esses temas pediriam artigos próprios, pois trazem muitas ideias curiosas e que merecem ser exploradas, juntamente com outras fontes.

Por fim, apenas a título de curiosidade, essa doutrina também veio a surgir bem posteriormente no Espiritismo. Mas, é bom esclarecer que não parece haver interdependência neste caso. Ao que tudo indica, o Espiritismo chegou a essa doutrina por vias próprias.

Bibliografia
MENZIES, Allan (org.) Ante-Nicene Fathers Volume 9: The Writings of the Fathers Down to A.D. 325. Michigan, Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1911

SINGER, Isidor (org.); et al. The Jewish Encyclopedia: Alexandria, Egypt. Nova Iorque: Funk and Wagnalls Company, 1906.

SINGER, Isidor (org.); et al. The Jewish Encyclopedia: Angelology. Nova Iorque: Funk and Wagnalls Company, 1906.