Quando Elias e a Profecia Retornaram a Israel

Promessas Proféticas

“Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor.” (Malaquias 4:5)

A enigmática profecia feita por Malaquias gera, até hoje, muita discussão com relação à pergunta que ela própria deixa: Quem cumpriu a profecia do retorno do profeta Elias, ou quando ela viria a ser cumprida?

Para deixar as coisas mais enigmáticas, uma profecia de Oséias diz:

“Porque os filhos de Israel ficarão por muitos dias sem rei, e sem príncipe, e sem sacrifício, e sem estátua, e sem éfode ou terafim.” (Oséias 3:4)

Muitos associam ambas as passagens e entendem que o retorno de Elias marcaria também o tempo em que a profecia voltaria a Israel. Hoje em dia, as religiões entendem que isso ainda está por se cumprir. Mas, nem sempre foi assim.

E muito antes da associação que viria a ser feita pelos cristãos entre João Batista e Elias, o povo judeu já havia feito outra associação de Elias com um personagem de sua história.

O Sumo-Sacerdote
Refiro-me a João Hircano (Yo’hanan Hurqanus, no hebraico). Filho de Simão o macabeu e, portanto, sobrinho de Judá o macabeu, João Hircano foi sumo sacerdote na região da província independente da Judéia por trinta anos, entre 134 a.e.c. e 100 a.e.c..

A biografia de João Hircano é extensa demais para ser citada neste artigo, porém a figura de João Hircano geralmente é cercada de amor e ódio, como ocorre com todo líder forte.

Uma pessoa de muitas posses, João Hircano reabasteceu o Templo do Senhor com muitos tesouros, frutos de sua imensa generosidade. Uma pessoa bastante compromissada com sua fé, João Hircano combateu o helenismo e foi muito querido pela seita dos fariseus, no começo de sua existência.

Amado e Odiado
Porém, viria a ser visto com desconfiança pelos próprios fariseus, quando começou a se aproximar dos saduceus. Há quem diga que isso ocorreu por afinidade doutrinária e há quem diga que isso aconteceu por pressão dos fariseus de que ele abdicasse do trono de Israel em favor de um descendente da família de Davi.

Também foi odiado por samaritanos, em virtude de sua guerra com Samaria, bem como visto com desconfiança também pela seita de Qumran, que esperava que Israel fosse governado por um sacerdote da linhagem de Zadoque.

Profeta ou Falso Profeta?
Porém, há três referências históricas a ele que impressionam. Observe o que diz o historiador judeu Flavio Josefo (século 1 d.e.c.):

“Quando [João] Hircano colocou fim a essa divisão, depois disso viveu alegremente e administrou o governo da melhor maneira por trinta e um anos e então morreu, deixando depois dele cinco filhos. Ele era estimado por Deus como digno dos maiores privilégios – o governo de sua não, a dignidade do sumo sacedócio e a profecia; pois Deus era com ele e o capacitou a conhecer o futuro; e a prever, particularmente quanto a seus dois filhos mais velhos, que não continuariam nos assuntos públicos do governo; cuja infeliz catástrofe será digna de nossa descrição, para que possamos então aprender quanto a como foram inferiores à fortitude de seu pai.” (Antiguidades 13:10:7)

Josefo afirma categoricamente que ele teria tido dons proféticos. Mas, o mais curioso é que a seita de Qumran, do século 2 a.e.c., confirma isso, porém o categoriza entre os falsos profetas de Israel, dizendo:

“[F]alsos profetas que se levantaram em I[srael:] Balaão [filho de] Beor; [O] idoso de BEtel; [Zede]quias filho de Que[na]aná; [Aca]be filho de C[ol]aías; [Zede]quias filho de Ma[a]séias; [Semaías o n]elamita; [Hananias filho de A]zur; [João filho de Sim]ão… [o profeta que foi de Gibe]ão.” (4Q339)

Para que se tenha uma ideia da importância de João Hircano, todos os demais nomes listados nesse manuscrito são de pessoas descritas pela própria Bíblia. Ao que tudo indica, essa lista foi compilada justamente com o propósito de dizer que o sumo-sacerdote João Hircano teria sido um falso profeta.

Se ele era tido como falso profeta, então isso significa que realmente seus supostos dons proféticos seriam conhecidos pelo povo.

Rei, Sumo-Sacerdote, Profeta e… Elias
E o mais impressionante é que esse pensamento acerca de João Hircano perdurou bastante, pois o Targum Pseudo-Jonathan, do século 8 d.e.c., afirma:

“Abençoa, Senhor, o sacrifício da casa de Levi, que dá o dízimo do dízimo; e a oblação pela mão de Elias o sacerdote, que oferecerá no monte Carmelo, recebe-a com tua aceitação; quebra os lombos de Acabe seu inimigo e o pescoço dos falsos profetas que se levantam contra ele, que os inimigos de João o sumo sacerdote não tenham pé em que se levantar.” (Targum Pseudo-Jonathan – Deuteronômio 33:11)

Aqui temos uma identificação de João Hircano como o próprio Elias! Certamente que essa tradição é bastante antiga e reflete a grande popularidade do sumo sacerdote, bem como o reconhecimento do povo de seus dons proféticos.

Como se pode perceber, os dons proféticos de João Hircano eram bastante conhecidos em Israel. Curiosamente, se ele era um falso profeta ou um profeta verdadeiro tem mais a ver com conflitos e disputas políticas do que com cumprimento, ou não, daquilo que dizia.

De fato, na época do Segundo Templo, a profecia não era tida como um dom perdido, mas sim algo bastante presente. Há, por exemplo, inúmeros manuscritos do Mar Morto que fazem profecias acerca do destino de Israel, da Era Messiânica e até do fim dos tempos.

O que elas dizem? Isso é assunto para outros artigos hereges.

Conclusão Herege
Como este é um site de natureza histórica, não compete ao autor herege avaliar se João Hircano foi ou não um profeta, ou seria o cumprimento da profecia de Malaquias sobre o retorno de Elias.

Porém, é inegável que João Hircano, além de rei sobre a Judéia e sumo-sacerdote, era também tido como um grande profeta por muitos e um falso profeta por seus adversários.

Em virtude das aspirações das religiões em estabelecer suas visões tradicionalistas, essa associação e atribuição foi para sempre esquecida, lacrada a sete chaves, mas ainda lembrada pelos livros históricos e teses acadêmicas.

Bibliografia
VERMES, Geza. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Londres: Penguin Books, 1995.

JOSEFO, Flavio. Whiston, William. The Antiquities of the Jews. Project Gutemberg, 2001.

WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

John Wesley Etheridge. The Targums of Onkelos and Jonathan Ben Uzziel: On the Pentateuch With The Fragments of the Jerusalem Targum From the Chaldee. 1862.