O Misterioso Desaparecimento dos Cristãos Reencarnacionistas

Introdução

Que fique claro desde o princípio: Este é um artigo histórico, e não doutrinário. Seu objetivo não é defender reencarnação, mas sim perguntar: Por que um ramo inteiro do Cristianismo primitivo simplesmente desapareceu sob o poder romano, praticamente sem deixar rastros?

Para os cristãos de hoje, a questão é muito óbvia: Cristianismo e Reencarnação são como água e óleo, e assim não se misturam. Mas, poucos sabem que nem sempre foi assim. Existiam nos primórdios do Cristianismo alguns grupos que acreditavam nas doutrinas básicas do Cristianismo, mas também defendiam o princípio da Reencarnação.

Porém, pouco sabemos sobre esses grupos, porque a maioria de seus textos básicos simplesmente desapareceram, assim como boa parte da literatura que foi considerada como herética por parte da nascente Igreja Católica.

 

Orígenes e seus Discípulos

O pouco que sabemos sobre o assunto vem de algumas citações de Orígenes, um teólogo cristão nascido em Alexandria no século II d.e.c., e considerado por alguns o maior erudito da Igreja Cristã primitiva. Discípulo de Clemente de Alexandria, é possível que tenha tomado contato com essa doutrina através deste último que, além de teólogo, era filósofo neo-platonista.

Os discípulos de Orígenes ficaram conhecidos como Origenistas, provavelmente seriam enquadrados entre os cristãos gnósticos, tendo a doutrina da reencarnação como uma espécie de doutrina secreta, transmitida apenas aos mais experientes, iniciados em seus mistérios.

Sobre isso, a Enciclopédia Católica afirma:

“São Jerônimo nos diz que a metempsicose era uma doutrina secreta de certos sectários em sua época, mas era tão evidentemente oposta à doutrina Católica da Redenção que nunca se firmou. Era defendida, contudo, de uma forma platônica pelos gnósticos, e era assim ensinada por Orígenes, em sua grande obra, Peri archon.

A existência corpórea, segundo Orígenes, era uma condição penal e não-natural, uma punição pelo pecado cometido em um estado prévio de bênção, a grosseria do pecado sendo a medida da queda.” (Catholic Encyclopedia – Metempsychosis)

 

Referências à Reencarnação

Uma leitura atenta do Peri archon, também conhecido como De Principiis, revela que Orígenes não tinham nenhuma postura muito diferente sobre a questão da salvação, do sacrifício expiatório de Jesus, ou mesmo da ressurreição, todos temas centrais dentro da doutrina cristã.

Porém, há momentos na obra em que ele faz sutis referências à Reencarnação, sem adentrar muitos pormenores. Curiosamente, ele a utiliza, por exemplo, para atribuir as profecias do reajuntamento de Israel à Igreja Cristã:

“Todos, sendo assim, dentre os que descendem à terra são, segundo seus desertos, ou conforme a posição que lá ocupavam, ordenados a nascerem neste mundo, em um país diferente, ou em meio a uma nação diferente, ou em um diferente modo de vida, ou cercados por enfermidades de um tipo diferente, ou descendendo de pais religiosos, ou pais que não são religiosos; de modo que pode às vezes acontecer que um israelita descenda entre os císsicos, e um pobre egípcio é trazido para a Judéia.

E ainda assim nosso Salvador veio juntar as ovelhas perdidas da casa de Israel; e tantos quantos dos israelitas não aceitaram Seu ensinamento, aqueles que pertenciam às nações foram chamados. Disso parece suceder que aquelas profecias entregues às nações individuais devem se referir na verdade às almas e suas diferentes mansões celestiais.” (De Principiis – Livro 3 – Capítulo 1 – seção 3)

Em alguns trechos de sua obra Contra Celsum, onde rebate os argumentos de Celso, um filósofo pagão que era contra o Cristianismo, Orígenes faz algumas referências defendendo a doutrina da Reencarnação. Abaixo, duas dessas principais referências:

“Ou não é mais em conformidade com a razão que toda alma, por certas razões misteriosas… é introduzida num corpo e introduzida segundo seus desertos e ações passadas?

É provável, portanto, que essa alma também, que também outorgou mais benefício por sua morada na carne do que muitos homens… permaneceu em necessidade de um corpo não apenas superior aos outros, mas investido de suas excelentes qualidades.” (Contra Celso 1:32)

“Mas nós sabemos que a alma, que é imaterial e indivisível em sua natureza, não existe em lugar material, sem ter um corpo adequado à natureza daquele lugar.

Semelhantemente, às vezes deixa para trás um corpo que era necessário antes, mas que não é mais adequado em seu estado modificado, e o troca por um segundo; e noutro momento assume outra adição ao primeiro, que é necessária para melhor cobertura, adequada às regiões etéreas mais puras do céu.

Quando vem a este mundo nascer, lança fora as camadas que necessitava no ventre; e antes de fazer isso, se reveste de outro corpo adequado à sua vida sobre a terra.” (Contra Celso 7:32)

Fora essas, a única coisa que sobreviveu dos grupos cristãos reencarnacionistas são algumas críticas aos Origenistas, feitas especialmente por Jerônimo e Epifânio, no século IV d.e.c.. Provavelmente pelo fato de Orígenes ter sido um importante apologista cristão, os Origenistas provavelmente foram mais tolerados do que os demais, e sobreviveram mais tempo. Por exemplo:

“Primeiramente se, como os Origenistas dizem, outro corpo sucede este, então o juízo de Deus não é justo, pois ou Ele estará condenando o novo corpo pelos pecados do primeiro, ou ele estará concedendo.a ele sua gloriosa e celestial herança em reconhecimento aos jejuns, vigílias e perseguições sofridas pelo Nome de Deus em um corpo anterior.” (Epifânio, Ancoratus 87)

 

O Mistério do Pensamento de Orígenes

Dos escritos de Orígenes, sabemos que ele cita algumas obras que não foram consideradas canônicas pela Igreja Católica, quando os bispos de Roma definiram o cânon final do Novo Testamento.

Delas, Orígenes cita como livros inspirados o Evangelho de Pedro, o Evangelho dos Hebreus, os Atos de Paulo, a Epístola de I Clemente, a Epístola de Barnabás, o Didaquê, e o Pastor de Hermas. Nem todas sobreviveram. Dentre as que temos acesso, contudo, nenhuma delas fala explicitamente sobre reencarnação.

O que nos faz indagar: Teria Orígenes deduzido a reencarnação puramente a partir dos textos bíblicos? Ou teria ele tido acesso a alguma literatura que hoje está perdida?

A segunda hipótese não é nada improvável, considerando duas coisas:

1) A Reencarnação era uma doutrina popular na Grécia, em virtude do pensamento de Platão;
2) Via de regra, todas doutrinas cristãs primitivas tidas como heréticas tinham algum livro tido por sagrado que as defendesse;

Um outro mistério é igualmente intrigante: Aparentemente, Orígenes em dado momento mudou de ideia.

Observe o que ele diz acerca de João Batista:

“Neste lugar não me parece que por ‘Elias’ se fale da alma, para que não caia no dogma da transmigração, que é estranho à Igreja de Deus, e não foi transmitido pelos Apóstolos, nem em lugar algum apontado nas Escrituras.” (Comentário de Mateus 13:1)

Teria Orígenes se tornado reencarnacionista com o tempo? Ou teria ele abdicado de tal doutrina? E, se abdicou dessa doutrina, o fez por convicção pessoal ou foi forçado a fazê-lo por perseguição ideológica? E por que seus seguidores mantiveram tal doutrina?

 

Conclusão Herege

É importante lembrar que o autor deste material é judeu, e apresenta os fatos acima como curiosidade histórica. Mas ressalta que mesmo no Judaísmo, a Reencarnação não é uma crença que deriva do Tanakh (Bíblia Hebraica), mas sim de obras terceiras, geralmente comentários místicos da Idade Média. Porém, como no Judaísmo a questão não mexe com nenhuma doutrina essencial, a polêmica acerca disso foi muito menor.

Embora não seja cristão, o autor reconhece que o chamado Novo Testamento, sozinho, não respaldaria a doutrina da Reencarnação. Mas, é absolutamente inegável historicamente que existiram cristãos reencarnacionistas. Sendo assim, o autor é da opinião de que esses grupos cristãos tinham alguma literatura sagrada própria, que infelizmente não sobreviveu à perseguição ideológica.

Seja qual for a opinião do leitor, contrária ou favorável à Reencarnação, numa coisa espero que todos concordem: É muito triste que livros tenham sido destruídos e parte da história tenha sido apagada por razões ideológicas. Todo grupo religioso tem direito a defender seus dogmas, mas queimar livros e destruir textos sagrados deve ser considerado crime contra o patrimônio da humanidade.

 

Bibliografia

ADAMANTIUS, Orígenes. Frederick Crombie (Trad.). Contra Celsum. Ante-Nicene Fathers, Vol. 4. Buffalo: Christian Literature Publishing Co., 1885.

ADAMANTIUS, Orígenes. Philip Schaff (Trad.). De Principiis. Ante-Nicene: Volume IV. Fathers of the Third Century: Tertullian, Minucius Felix; Commodian; Origen, Parts First and Second. CreateSpace Independent Publishing Platform, 2017.

DAVIS, Glenn. Origen. The Development of the Canon of. the New Testament. Disponível em <http://www.ntcanon.org/Origen.shtml>. Acessado em 16/11/2017.

EPIFÂNIO de Salamis. Young Richard Kim (Trad.). Ancoratus. Fathers of the Church, vol. 128. Washington: The Catholic University of America Press, 2014.

MENZIES, Allan (Org.). Ante-Nicene Fathers, Vol. 9. Buffalo: Christian Literature Publishing Co., 1885.

Catholic Encyclopedia: Metempsychosis. Edição de 1917. Disponível em <http://www.newadvent.org/cathen/10234d.htm>. Acessado em 16/11/2017.