Qual a Bíblia mais antiga?

As Listas Mais Antigas
Muita gente se pergunta: Qual a Bíblia mais antiga de todas?

Quando o assunto é Bíblia Hebraica, existe bem menos controvérsia do que, por exemplo, quanto à Bíblia Cristã. Mas, isso não significa que o assunto tenha sempre sido unânime. Para chegar ao cânon mais antigo, três testemunhos são importantes.

A lista mais antiga de todas elas é a que aparece no texto do livro de Josué Ben Sira, também conhecido apenas como Ben Sira ou como Eclesiástico.

Essa obra faz menção a todos os livros da Bíblia, à exceção de Ruth, Cantares, Ester e Daniel. Os dois últimos, provavelmente por serem posteriores a Ben Sira, ou ainda não terem atingido um status de canônicos à sua época. Não se sabe, contudo, a razão pela qual Ruth e Cantares se fazem ausentes.

Outra lista importante é a de livros que aparecem nas cavernas do Mar Morto. Deles, observa-se que todos os livros da Bíblia Hebraica se fazem presentes, à exceção de Ester. Não é certo se isso ocorre pelo fato de Ester ser um livro posterior, ou se era rejeitado pela seita de Qumran.

Porém, em Qumran aparecem Tobias e Ben Sira, um dos livros que figuram entre os chamados Apócrifos da Septuaginta, hoje presentes nas Bíblias Católicas. E também aparecem duas obras que hoje só estão presentes entre as comunidades etíopes (cristã e judaica). A saber, 1 Enoque e Jubileus.

Já Flávio Josefo menciona 22 livros, dos 24 livros hoje presentes na Bíblia Judaica. Mas, ele não os menciona por nome. Sendo assim, quais seriam os 2 livros que estariam ausentes? Uns suspeitam de Ester, e talvez de Ezequiel. Outros, contudo, acreditam que era apenas uma questão de dividir os livros de maneira diferente.

Prova Por Ausência?
O mais difícil quanto a essas listas está no fato de que estamos lidando com o que se chama de “prova por ausência.” Isto é, a ausência de menção a determinadas obras sendo interpretada como tais obras não sendo canônicas. Não há nada que garanta isso, pois pode se tratar de simples coincidência.

Disputas Internas no Judaísmo
Mas, há obras que foram, em vários momentos da história, questionadas. A seguir, as principais delas:

No Talmude Babilônio, há registro de várias discussões sobre os status de determinadas obras. Especialmente porque os judeus da antiguidade consideravam que os manuscritos bíblicos poderiam afetar as regras de pureza cerimonial. Então, saber quais obras eram inspiradas ou não era importante, para fins cerimoniais.

Os seguintes livros eram apontados por alguns como livros não-inspirados. Vale ressaltar que os livros tidos como não-inspirados não eram necessariamente vistos como livros ruins. No fim, a conclusão foi a de que todos eles eram inspirados. Porém, se foram debatidos é porque nem sempre foi assim.

Dos livros tidos como históricos: Ruth e Ester;
Dos livros poéticos e de sabedoria: Eclesiastes, Cantares e Provérbios;
Dos livros proféticos: Ezequiel;

Referências: b. Shabat 14a; b. Meguilá 7a;

Motivos dos Questionamentos
Abaixo, um resumo das possíveis razões para os questionamentos. Não apenas talmúdicos, mas em geral:

Ruth: As razões de questionamento provavelmente revolvem em torno de uma moabita como personagem principal. É um livro também considerado por muitos como uma estória romanceada.

Eclesiastes: A visão de mundo bastante ácida e pesada do autor certamente não agradou a todos. Porém, a oposição a essa obra foi relativamente pequena.

Cantares: O conteúdo da obra fala da relação entre homem e mulher e, por isso, houve bastante polêmica. A tendência posterior foi a espiritualização do relato, associando-o a Deus e Israel.

Provérbios: O livro de Provérbios sempre foi visto como uma obra louvável. Porém, por se tratar de uma coletânea de conselhos, trechos de sua obra em dados momentos foram questionados. Embora, na essência, tenha sido amplamente aceito.

Ezequiel: O livro mais polêmico do cânon judaico. Em virtude de seu sistema litúrgico divergir da Torá e ser um livro de caráter mais espiritualizado, alguns sábios judeus se opuseram fortemente a ele. No fim, porém, prevaleceu a visão da maioria, de que o livro deveria ser incluído.

Ester: Três eram as razões para o questionamento. A primeira, sua possível composição exílica. A segunda, a ausência de menção a Deus. E a terceira, o fato de ser uma Meguilá, isto é, um texto escrito especificamente com propósito litúrgico, que pode não ser totalmente histórico. Além disso, há uma disputa quanto ao conteúdo. A versão hebraica de Ester é consideravelmente menor do que a versão grega.

Daniel: Daniel não figura em algumas das listas mais antigas. O mais provável, contudo, é que isso se deva por ter sido o livro mais recente da Bíblia Hebraica, posterior a algumas de tais listas, tendo sido escrito durante a Revolta dos Macabeus. Além disso, há uma diferença no conteúdo. A versão grega de Daniel é mais extensa, trazendo outros contos da corte babilônia.

Salmos: Embora os 150 salmos da Bíblia Hebraica sejam aparentemente unânimes, outros cânons figuram salmos que não aparecem nessa lista. Na Septuaginta, temos 151 salmos. Na Peshitta Aramaica, 155. E, no Mar Morto, há também outros que não figuram no texto hebraico. O mais provável é que cada comunidade tenha acrescentado seus próprios salmos com o passar do tempo.

A Provável Lista Mais Antiga
Se considerarmos apenas os livros não-controversos e que não estão ausentes das listas mais antigas, provavelmente a mais antiga da Bíblia Hebraica era algo assim:

Instrução (Torá): Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio.
Profetas: Josué, Juízes, Samuel (1 e 2), Reis (1 e 2), Isaías, Jeremias, os Doze Menores (Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias)
Escritos: Crônicas (1 e 2), Esdras/Neemias, Salmos, Jó e Lamentações.

Ou seja, da Bíblia Hebraica atual teríamos apenas 18 dos 24 livros, com 7 ausências. Na contagem cristã, teríamos 32 livros.

Uma curiosidade interessante: Esse é um número relevante na cultura judaica, pois é o número da palavra “vive” (חי – Hay). Teria a lista original primitiva sido composta por 18 livros? Não é uma hipótese improvável!

Dos 7 livros ausentes, dois possuem mais de uma versão. A saber, Daniel e Ester. O mesmo acontece com o livro de Salmos, dentre os livros canônicos e provavelmente ocorria com as versões mais antigas do livro de Provérbios.

Vale ressaltar que nem sempre não-canônico significava ruim ou pouco importante. Apenas, significava que não eram obras vistas unanimemente pelas lideranças. Algumas delas, depois de muito debate e discussão, foram incluídas. Outras, foram relegadas ao esquecimento.

Conclusão Herege
Em boa parte, a dificuldade de se chegar a uma lista original está em dois fatos: O primeiro, a dificuldade arqueológica e histórica de resgatar informações tão antigas.

A segunda está no fato de que talvez não houvesse uma “lista original”. A formação do cânon teve mais a ver com tentar preservar livros essenciais face à perseguição do que criar uma lista exclusiva. De toda forma, consegue-se perceber quais os livros eram, na antiguidade, tidos como os mais importantes para instrução nos caminhos do Criador.

Vale ressaltar ainda o seguinte: Há obras que talvez até por serem extensas demais não tenham figurado no cânon, mas com ensinamentos magníficos. É o caso de Ben Sira (Eclesiástico), que será abordado com mais detalhe noutra ocasião.

Há outros ainda que poderiam ter mudado a cara do que seriam, hoje, Judaísmo e Cristianismo, caso tivessem se tornado unânimes, como Jubileus e 1 Enoque. Mas, novamente, é assunto para outra ocasião.

Por fim, é importante deixar claro que novas descobertas arqueológicas podem trazer novos entendimentos sobre o assunto. O leitor herege deve se recordar que cem anos atrás os Manuscritos do Mar Morto ainda nem haviam sido descobertos; e eles mudaram muito nosso entendimento sobre o panorama geral das Escrituras.

Bibliografia:
ABEGG, Martin Jr. (Org.) et al. The Dead Sea Scrolls Bible. HarperCollins: São Francisco, 1999.

FREHOF, Solomon B. Ezekiel. Disponível em: <http://www.myjewishlearning.com/article/ezekiel/>. Acesso em 20 Jul. 2017.

JOSEFO, Flavio. William Whiston. Contra Apion. Cambridge: Cambridge University Press, 1736.

LEIMAN, S. The Canonization of Hebrew Scripture: The Talmudic and Midrashic Evidencel. Hamden: Connecticut Academy of Arts and Sciences, 1976.

SINGER, Isidor (org.); et al. The Jewish Encyclopedia: BIBLE CANON. Nova Iorque: Funk and Wagnalls Company, 1906.

VERMES, Geza. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Londres: Penguin Books, 1995.

WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

A New English Translation of the Septuagint: Sirach Prologue. Nova Iorque: Oxford University Press, 2007

Babylonian Talmud. Tradução de Rabbi Dr. Isidore Epstein. Soncino Press, Reino Unido: 1934.

Quando Elias e a Profecia Retornaram a Israel

Promessas Proféticas

“Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor.” (Malaquias 4:5)

A enigmática profecia feita por Malaquias gera, até hoje, muita discussão com relação à pergunta que ela própria deixa: Quem cumpriu a profecia do retorno do profeta Elias, ou quando ela viria a ser cumprida?

Para deixar as coisas mais enigmáticas, uma profecia de Oséias diz:

“Porque os filhos de Israel ficarão por muitos dias sem rei, e sem príncipe, e sem sacrifício, e sem estátua, e sem éfode ou terafim.” (Oséias 3:4)

Muitos associam ambas as passagens e entendem que o retorno de Elias marcaria também o tempo em que a profecia voltaria a Israel. Hoje em dia, as religiões entendem que isso ainda está por se cumprir. Mas, nem sempre foi assim.

E muito antes da associação que viria a ser feita pelos cristãos entre João Batista e Elias, o povo judeu já havia feito outra associação de Elias com um personagem de sua história.

O Sumo-Sacerdote
Refiro-me a João Hircano (Yo’hanan Hurqanus, no hebraico). Filho de Simão o macabeu e, portanto, sobrinho de Judá o macabeu, João Hircano foi sumo sacerdote na região da província independente da Judéia por trinta anos, entre 134 a.e.c. e 100 a.e.c..

A biografia de João Hircano é extensa demais para ser citada neste artigo, porém a figura de João Hircano geralmente é cercada de amor e ódio, como ocorre com todo líder forte.

Uma pessoa de muitas posses, João Hircano reabasteceu o Templo do Senhor com muitos tesouros, frutos de sua imensa generosidade. Uma pessoa bastante compromissada com sua fé, João Hircano combateu o helenismo e foi muito querido pela seita dos fariseus, no começo de sua existência.

Amado e Odiado
Porém, viria a ser visto com desconfiança pelos próprios fariseus, quando começou a se aproximar dos saduceus. Há quem diga que isso ocorreu por afinidade doutrinária e há quem diga que isso aconteceu por pressão dos fariseus de que ele abdicasse do trono de Israel em favor de um descendente da família de Davi.

Também foi odiado por samaritanos, em virtude de sua guerra com Samaria, bem como visto com desconfiança também pela seita de Qumran, que esperava que Israel fosse governado por um sacerdote da linhagem de Zadoque.

Profeta ou Falso Profeta?
Porém, há três referências históricas a ele que impressionam. Observe o que diz o historiador judeu Flavio Josefo (século 1 d.e.c.):

“Quando [João] Hircano colocou fim a essa divisão, depois disso viveu alegremente e administrou o governo da melhor maneira por trinta e um anos e então morreu, deixando depois dele cinco filhos. Ele era estimado por Deus como digno dos maiores privilégios – o governo de sua não, a dignidade do sumo sacedócio e a profecia; pois Deus era com ele e o capacitou a conhecer o futuro; e a prever, particularmente quanto a seus dois filhos mais velhos, que não continuariam nos assuntos públicos do governo; cuja infeliz catástrofe será digna de nossa descrição, para que possamos então aprender quanto a como foram inferiores à fortitude de seu pai.” (Antiguidades 13:10:7)

Josefo afirma categoricamente que ele teria tido dons proféticos. Mas, o mais curioso é que a seita de Qumran, do século 2 a.e.c., confirma isso, porém o categoriza entre os falsos profetas de Israel, dizendo:

“[F]alsos profetas que se levantaram em I[srael:] Balaão [filho de] Beor; [O] idoso de BEtel; [Zede]quias filho de Que[na]aná; [Aca]be filho de C[ol]aías; [Zede]quias filho de Ma[a]séias; [Semaías o n]elamita; [Hananias filho de A]zur; [João filho de Sim]ão… [o profeta que foi de Gibe]ão.” (4Q339)

Para que se tenha uma ideia da importância de João Hircano, todos os demais nomes listados nesse manuscrito são de pessoas descritas pela própria Bíblia. Ao que tudo indica, essa lista foi compilada justamente com o propósito de dizer que o sumo-sacerdote João Hircano teria sido um falso profeta.

Se ele era tido como falso profeta, então isso significa que realmente seus supostos dons proféticos seriam conhecidos pelo povo.

Rei, Sumo-Sacerdote, Profeta e… Elias
E o mais impressionante é que esse pensamento acerca de João Hircano perdurou bastante, pois o Targum Pseudo-Jonathan, do século 8 d.e.c., afirma:

“Abençoa, Senhor, o sacrifício da casa de Levi, que dá o dízimo do dízimo; e a oblação pela mão de Elias o sacerdote, que oferecerá no monte Carmelo, recebe-a com tua aceitação; quebra os lombos de Acabe seu inimigo e o pescoço dos falsos profetas que se levantam contra ele, que os inimigos de João o sumo sacerdote não tenham pé em que se levantar.” (Targum Pseudo-Jonathan – Deuteronômio 33:11)

Aqui temos uma identificação de João Hircano como o próprio Elias! Certamente que essa tradição é bastante antiga e reflete a grande popularidade do sumo sacerdote, bem como o reconhecimento do povo de seus dons proféticos.

Como se pode perceber, os dons proféticos de João Hircano eram bastante conhecidos em Israel. Curiosamente, se ele era um falso profeta ou um profeta verdadeiro tem mais a ver com conflitos e disputas políticas do que com cumprimento, ou não, daquilo que dizia.

De fato, na época do Segundo Templo, a profecia não era tida como um dom perdido, mas sim algo bastante presente. Há, por exemplo, inúmeros manuscritos do Mar Morto que fazem profecias acerca do destino de Israel, da Era Messiânica e até do fim dos tempos.

O que elas dizem? Isso é assunto para outros artigos hereges.

Conclusão Herege
Como este é um site de natureza histórica, não compete ao autor herege avaliar se João Hircano foi ou não um profeta, ou seria o cumprimento da profecia de Malaquias sobre o retorno de Elias.

Porém, é inegável que João Hircano, além de rei sobre a Judéia e sumo-sacerdote, era também tido como um grande profeta por muitos e um falso profeta por seus adversários.

Em virtude das aspirações das religiões em estabelecer suas visões tradicionalistas, essa associação e atribuição foi para sempre esquecida, lacrada a sete chaves, mas ainda lembrada pelos livros históricos e teses acadêmicas.

Bibliografia
VERMES, Geza. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Londres: Penguin Books, 1995.

JOSEFO, Flavio. Whiston, William. The Antiquities of the Jews. Project Gutemberg, 2001.

WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

John Wesley Etheridge. The Targums of Onkelos and Jonathan Ben Uzziel: On the Pentateuch With The Fragments of the Jerusalem Targum From the Chaldee. 1862.