As Festas Perdidas do Templo de Jerusalém

Introdução
Em Levítico 23, a Bíblia apresenta uma série de festividades que seriam celebradas no Tabernáculo ou, posteriormente, no Templo de Jerusalém. Elas são bastante conhecidas nos meios judaico e cristão.

Porém, o que muitos não sabem é que, à época do Segundo Templo, essa lista não era unânime. E um manuscrito surpreendente, descoberto nas cavernas do Mar Morto, traz pelo menos duas festividades que não se encontram na lista de nenhuma das Bíblias de que temos notícia.

Apelidado de “Manuscrito do Templo”, traz recomendações de como seria a vida de Israel no fim dos tempos, com sua vida religiosa centrada no Templo de Jerusalém.

As Festas do Vinho e do Óleo
E é justamente esse manuscrito que apresenta duas festividades adicionais de peregrinação: A Festa do Vinho Novo e a Festa do Óleo Novo.

É importante se recordar que a primeira festa de peregrinação na Bíblia é a Festa dos Ázimos, que ocorre no começo da primavera, quando da colheita da cevada. A festa seguida, denominada de Festa das Semanas, ocorre sete semanas depois, quando da ocasião da colheita do trigo.

A Festa do Vinho Novo viria justamente sete semanas depois da Festa das Semanas, quando seria realizada a colheita das uvas e a apresentação das primícias do vinho que fosse feito naquele ano. Nessa festividade, Israel deveria novamente se reunir para celebrar perante o Eterno, no Templo, em moldes semelhantes aos das outras duas solenidades.

Já a Festa do Óleo Novo viria sete semanas depois da Festa do Vinho Novo, marcando o momento em que os israelitas apresentariam uma colheita de olivas e ofereceriam azeite ao Criador. A ocasião seria também marcada por uma festividade.

Trecho do Manuscrito do Templo
Abaixo, trecho que fala sobre essas solenidades:

“Contarás a partir do dia em que trouxeres a nova oferta ao ETERN[O] – o pão das primícias – sete semanas, sete semanas completas, até o dia depois do sétimo Shabat. Contarás cinquenta dias, então [sa]crifícarás vinho novo como oferta de bebida: quatro hin de todas as tribos de Israel, um terço de hin para cada tribo. Além do vinho, ofertarás naquele dia doze carneiros para o ETERNO…

Então comerão no átrio perante o ETERNO, e [os sacerdo]tes beberão um pouco do novo vinho. Eles beberão lá primeiro, então os Levitas em segundo… [e depois deles…]; então todo o povo, gran[de] e pequeno, poderá beber o novo vinho e comer uvas das videiras, quer maduras ou verdes, pois [n]este [di]a farão expiação pelo vinho. Então os filhos de Israel se regozijarão pera[nte] o ETERNO, sendo este um [estatuto] perpétuo, geração por geração, onde quer que habitem. Eles se alegrarão neste d[ia] no festival do [vinho novo] para derramar oferta de vinho fermentado, novo vinho sobre o altar do ETERNO, um culto anual.

V[ós] contareis daquele dia sete semanas – sete vezes sete dias , quarenta e nove dias, sete semanas completas – até o dia depois do sétimo Shabat: contareis cinquenta dias. Então oferecereis óleo novo dos lugares onde as [tr]ibos dos fi[lhos de Is]rael habitarem, meio hin de cada tribo, óleo recém-extraído. [Oferecerão as primícias do] óleo no altar de oferta queimada, como primícias perante o ETERNO […]…

Então apresentarão ao ETERNO uma oferta dos carneiros e cordeiros; a coxa direita, o peito da oferta movida e, como a melhor parte, [a perna dianteira.] As faces e o estômago pertencerão aos sacerdotes como sua porção, seguindo as regulamentações costumeiras. Os levitas receberão o ombro.

Depois, as porções serão trazidas para fora até os filhos de Israel, que darão aos sacerdotes um carneiro e um cordeiro, os levitas o mesmo, e cada tribo o mesmo. Eles os comerão perante o SENHOR naquele mesmo dia no átrio. Esse é um estatuto perpétuo, de geração em geração, como rito anual. Depois de terem comido, ungirão a si mesmos com novo óleo e comerão azeitonas, pois naquele dia terão feito expiação por [t]odo [o óleo] da terra perante o ETERNO, como rito anual uma vez por ano. Os filhos de Israel se regozijarão […].” (11Q19 – Col. 19:11-16,12-16,8-16)

Análise do Manuscrito
Como o manuscrito é fragmentado, não está claro se as solenidades seriam ocasiões em que se proibiria o trabalho, a exemplo das festas bíblicas tradicionais. Porém, considerando que o mesmo tipo de prescrição é feito em termos de sacrifícios, bem como considerando que na Col. 11 do mesmo manuscrito as menciona todas juntas, é bem provável que seguisse o modelo das demais festividades.

O mais curioso dessa festividade é que, de fato, a Bíblia não menciona datas para se trazer as primícias de tais elementos, que eram bastante importantes na economia israelita.

A Bíblia fala das primícias da colheita à época da cevada, do trigo e do começo do outono. Mas, e as demais? Não é muito claro quando seriam trazidos.

Provavelmente, o objetivo dessa lei era justamente regulamentar essa questão, fazendo com que pudessem entregar tais coisas em datas mais organizadas, para suprir o Templo.

É pouco provável que essa ideia tenha se originado nas cavernas de Qumran, no Mar Morto, pois a seita de Qumran estava afastada do convívio do Templo. No mínimo, deve ter havido algum tipo de prática semelhante em que a comunidade se inspirou para poder escrever o “Manuscrito do Templo”.

Conclusão Herege
O autor herege acredita que é bem provável que originalmente o sistema do Tabernáculo e, posteriormente, do Templo tenha mesmo se fixado mais nas primícias dos grãos. Há quem diga, contudo, que essas solenidades remontam até os tempos bíblicos.

Na opinião do autor, o mais provável é que o texto supracitado seja uma inovação da seita de Qumran, mas que deva estar baseada numa prática já existente no Templo, de organizar as primícias.

No mínimo, serve para ajudar a compreender que a questão das solenidades bíblicas estava muito mais ligada a questões logísticas do que pode parecer ao leitor das Escrituras.

Bibliografia
VERMES, Geza. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Londres: Penguin Books, 1995.

WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.