As Palavras Perdidas do Arcanjo Miguel

Um Manuscrito Surpreendente
Um dos mais ousados textos descobertos nas cavernas do Mar Morto é também, infelizmente, um dos mais fragmentados.

O texto, conhecido como “As Palavras do Arcanjo Miguel”, foi encontrado num vaso de barro, na quarta caverna de Qumran, no deserto da Judéia. Um outro fragmento do mesmo texto na sexta caverna.

Abaixo, o que restou do texto:

“As palavras do livro que Miguel disse aos anjos […] ele disse, eu lá encontrei tropas de fogo […] […] nove montanhas, duas ao leste, [duas ao oeste, duas ao norte e duas] ao sul. Lá eu vi o anjo Gabriel […] […] ele me mostrou uma visão e me disse […] no meu livro do Grandioso, Senhor Eterno, está escrito […] os filhos de Ham e os filhos de Sem, e eis o Grandioso, Senhor Eterno […] quando as lágrimas fluírem livremente […] e eis que uma cidade será construída no nome do Grandioso, [Senhor Eterno… e nada] maligno será feito perante o Grandioso, o Senhor [Eterno] […] e o Grandioso, Senhor Eterno, se lembrará da Sua criação […] misericórdia pertence ao Grandioso, Senhor Eterno, e também […] nas terras distantes haverá um homem […] é ele, e dirá a ele: Esta é [minha Santa montanha…] a mim prata e ouro […] e o homem justo” (4Q529 & 6Q23)

Análise do Texto
O texto é pós-exílico, escrito em aramaico, datando de cerca do século 2 a.e.c. Nele, o arcanjo Miguel se dirige aos anjos do Senhor, bem como ao arcanjo Gabriel.

Há uma referência a exércitos de seres ardentes, numa provável alusão a anjos que executariam juízo sobre uma cidade iníqua.

O texto fala sobre uma cidade onde se fazia apenas o mal. O mais provável é que essa seja uma referência à Babilônia, por causa da contextualização que se refere aos filhos de Noé. Porém, frequentemente nos tempos antigos, os textos eram escritos de forma figurativa.

Assim sendo, há acadêmicos que entendem que as palavras são ditas contra Roma, outros entendem que se referem à própria Jerusalém.

O texto também se refere a uma cidade que seria construída no futuro, cercada por nove montanhas. Para Michael Wise, é uma referência a uma reconstrução de Sião. Já Geza Vermes afirma que a referência pode ser também ao monte Sinai.

Chamado do Justo na Terra Distante
Outra grande surpresa é uma referência a um homem, aparentemente justo, que seria supostamente chamado em uma terra distante.

Seria esse homem um libertador de Israel, como foi, por exemplo, Ciro da Pérsia? Seria um profeta chamado pelo Senhor, que a comunidade de Qumran esperava?

E a Santa montanha que aparece em conexão com esse local? Trata-se, certamente, de um lugar próspero, pois fala-se de ouro e de prata. Mas, seria essa a montanha na mesma cidade em que se refere o manuscrito anteriormente, ou seria ainda noutro lugar?

Considerando o contexto ultra-nacionalista de Qumran, parece mais provável que seja mesmo uma referência à própria Sião. Porém, o espalhar da glória do Senhor pelas nações também é mencionado na literatura do Segundo Templo.

O Misterioso Livro do Arcanjo Miguel
Por fim… que livro é esse, que aparece ditado pelo arcanjo Miguel numa visão? Não há qualquer referência a isso em lugar algum, dentro da literatura da época do Segundo Templo.

A ideia de anjos trazendo livros revelados em visões pode soar estranha ao leitor, mas era bastante comum na época. O livro apócrifo conhecido como Jubileus, por exemplo, atribui até a Torá, a Lei de Moisés, a visões que ele teria tido com anjos no monte Sinai.

Se Vernes estiver certo, e as nove montanhas forem atribuídas à região do Sinai, então é possível que fizesse alusão a Moisés ter supostamente recebido essa revelação. Se, contudo, for referência a Sião, pode ser uma visão de um dos profetas.

De todo jeito, não temos a mínima ideia de que obra é essa. O que, infelizmente, mostra o quão pouco sobreviveu das obras do Segundo Templo.

Teria essa obra se perdido acidentalmente, não tendo tido a sorte de ser preservada? Ou teria ela sido suprimida intencionalmente? Ou ainda, estaria ela por ser descoberta? Ninguém sabe.

Conclusão Herege
O autor herege acredita que os dados são muito pequenos e o manuscrito muito fragmentado para que se possa tirar muitas conclusões.

O manuscrito traz mais perguntas do que respostas. De todo jeito, parece indicar um tempo posterior, no qual o Senhor finalmente traria juízo, pondo fim a iniquidade. E esse é um tema bastante comum na Bíblia, uma ocasião que todos esperam ansiosamente.

Bibliografia
WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

VERMES, Geza. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Londres: Penguin Books, 1995.

Teriam 70 Livros desaparecido da Bíblia Hebraica?

O Cânon da Bíblia Hebraica
A Bíblia Hebraica, compilada pelo povo judeu, tem exatamente o mesmo conteúdo do Antigo Testamento das Bíblias do cânon protestante.

A divisão não é a mesma. Na contagem judaica, há 24 livros. Isso ocorre porque alguns livros foram divididos em dois pelos cristãos para facilitar a cópia, a saber, Samuel, Reis, Crônicas e Esdras/Neemias. Além disso, os 12 profetas menores, na versão judaica, eram todos escritos num único volume, o que aconteceu para evitar que se perdessem devido a serem livros curtos.

Por essa razão, a contagem judaica chega a 24 volumes, enquanto a cristã protestante chega a 39. Mas, conforme dito anteriormente, o conteúdo é fundamentalmente o mesmo. Essa informação será relevante para o restante desse artigo.

Uma Obra Esquecida
Por muitos séculos, as Bíblias Protestantes também incluíam um volume à parte, que continha os livros chamados de Apócrifos. Isto é, livros que em algum momento e em alguma comunidade foram considerados sagrados, mas que não eram considerados canônicos pelo povo judeu.

Alguns desses livros foram mantidos pelos grupos religiosos que seguem o cânon da Septuaginta, tais como a Igreja Católica Romana e sua contraparte oriental, a Igreja Católica Ortodoxa.

Mas há outros livros que não tiveram a mesma sorte e foram excluídos até mesmo de tais volumes.

Dentre esses livros, há uma série de livros atribuídos a Esdras, compilados num volume chamado “2 Esdras”. Algumas dessas obras são de autoria cristã e bem recentes, mas uma obra em particular – chamada 4 Esdras – foi escrita por um judeu à época do Segundo Templo. Mas especificamente, logo após sua destruição.

E esse livro contém uma informação surpreendente, que poderia para sempre alterar tudo o que se conhece sobre a Bíblia Hebraica.

O prof. Michael E. Stone, de Religião Comparada, da Universidade Hebraica de Jerusalém, afirma acerca da obra:

“O livro vem da última década do primeiro século d.e.c. e foi composto em reação à destruição de Jerusalém por roma em 70 d.e.c. Sua primeira preocupação, portanto, é entender esse evento traumático.”

O Trecho Misterioso
Mas, o que realmente nos surpreende acerca desse livro, é um trecho que transcrevo abaixo, na íntegra:

“E o Altíssimo deu entendimento a cinco homens. E alternadamente escreveram o que foi ditado, em caracteres que não conheciam. Eles se sentaram por quarenta dias e escreviam durante o dia e comiam o seu pão à noite.

Quanto a mim, falava durante o dia e não me calava à noite. Então durante quarenta dias noventa e quatro livros foram escritos. E quando os quarenta dias foram concluídos, o Altíssimo falou a mim, dizendo: “Torna públicos os vinte e quatro livros que primeiro escreveste e deixa que os dignos e os indignos os leiam; mas preserva os setenta últimos que foram escritos, para que sejam dados aos sábios de teu povo. Pois neles está a fonte do entendi mento, a fonte da sabedoria e o rio do conhecimento.” E assim eu fiz.” (4 Esdras 14:42-48)

Evidentemente, a narrativa é figurativa. Porém, o autor faz uma afirmação bastante curiosa e ousada: Além dos 24 livros da Bíblia Hebraica, que foram dados para conhecimento popular, haveria ainda mais 70 livros, que foram disponibilizados apenas para os sábios de Israel.

O problema? Ninguém no meio judaico tem conhecimento de que obras sejam essas.

Há, portanto, duas possibilidades: A primeira, que o autor de 4 Esdras tenha inventado a história dos 70 livros. O que não estaria claro, nesse caso, seria o propósito de tal coisa.

A segunda é que realmente os 70 livros tenham existido. Mas, se existiram, a que grupo pertenciam? Qual era o seu conteúdo? E, por fim, perderam-se de forma natural ou foram eliminados por algum motivo específico?

Há quem especule que ainda haja nos cofres do Vaticano muitas obras que foram coletadas desde ainda os tempos do Império Romano. Mas, ninguém de fato pode ter certeza.

Outro fato curioso é a escrita em idiomas desconhecidos. Isso implica numa ideia de que seriam coisas que estariam além do conhecimento do povo àquela época, seu conteúdo acessível somente aos que tivessem adquirido sabedoria.

Seria esse enfoque num público mais seleto a razão pela qual tais obras foram excluídas?

Conclusão Herege
O autor herege acha pouco provável que o autor de 4 Esdras tenham inventado a história de livros adicionais, disponibilizados somente aos sábios.

Seriam, porém, essas obras uma unanimidade entre os sábios de Israel, ou específicos de um dado segmento ou seita judaica? Talvez a segunda hipótese seja a mais provável.

Por fim, o autor herege faz votos de que um dia os arquivos do Vaticano se tornem disponíveis ao público para consulta. Certamente isso mudaria muito de nossa história.

Para os padrões atuais, manter tais obras longe do olhar público é um crime contra a humanidade. Tal como a Igreja Católica já soube rever posicionamentos históricos e tomar atitudes muito louváveis – como o pedido de perdão do papa João Paulo II no Muro das Lamentações pelo extermínio de judeus – esse é um passo importante, que o autor herege espera ver em vida.

Bibliografia
MAYS, JAMES L. (Org.) Harper’s Bible Commentary. Nova Iorque: Harper & Row, 1988.

The Holy Bible 1611 Edition – King James Version. Hendrickson Publishers, 2006.

A Maior Bíblia do Mundo

Introdução
Muita gente acha que Bíblia é tudo a mesma coisa. Alguns ainda sabem que existe uma diferença entre a Bíblia Católica (Romana) e a Bíblia Protestante, ou ainda que a Bíblia original foi a Bíblia Hebraica, do povo judeu, hoje conhecida como Antigo Testamento pela maioria das pessoas.

Porém, a realidade é que existem muito mais Bíblias do que se pode imaginar. Muitas deixaram de existir, juntamente com suas comunidades. Outras só são conhecidas através de fragmentos.

Mas, mesmo assim, se formos considerar os principais grupos judaicos e cristãos da atualidade, ainda assim teríamos algo em torno de umas dez versões.

Dentre elas, o recorde de Bíblia mais extensa, é sem dúvida alguma pertencente à Igreja Ortodoxa Etíope. Pelas suas próprias contas, os etíopes têm nada menos do que 81 livros!

Porém, esse número seria ainda maior se fôssemos adotar a divisão tradicional que a maioria das pessoas conhece, pois os cristãos etíopes ainda combinam várias obras que outrora aparecem separadas.

Se tomássemos, por exemplo, o padrão protestante de divisão dos livros, bem como o padrão de divisão dos livros deuterocanônicos, esse número saltaria para 91 livros, chegando até a 92 se contarmos a curiosa divisão do livro de Provérbios em 2 partes.

Compare isso com os 39 livros da Bíblia Hebraica (ou 24, segundo a divisão judaica), ou ainda os 73 segundo a divisão da Bíblia Católica (Romana). Isso sem contar o fato de algumas dessas obras, tais como Enoque e Jubileus, são enormes!

Abaixo, apresento o cânon etíope:

Antigo Testamento (Bíblia Hebraica) Etíope
Gênesis
Êxodo
Levítico
Números
Deuteronômio
Josué
Juízes
Ruth
I e II Samuel
I e II Reis
I Crônicas
II Crônicas e a Oração de Manassés
Jubileus
Enoque
Esdras (Esdras e Neemias)
2 Esdras (1a. Esdras e Apocalipse de Esdras)
Tobias
Judite
Ester
I Macabeus (Versão Etíope)
II e III Macabeus (Versão Etíope)

Salmos
Provérbios (Pv. 1-24)
Exortações (Pv. 25-31)
Sabedoria de Salomão
Eclesiastes
Cantares
Isaías
Jeremias, Lamentações, a Carta de Jeremias, Baruque e 4 Baruque
Ezequiel
Daniel
Oséias
Amós
Miquéias
Joel
Obadias
Jonas
Naum
Habacuque
Sofonias
Ageu
Zacarias
Malaquias
Eclesiástico
Josefo

Novo Testamento (Bíblia Cristã) Etíope
Mateus
Marcos
Lucas
João
Atos
Romanos
I Coríntios
II Coríntios
Gálatas
Efésios
Filipenses
Colossenses
I Tessalonissences
II Tessalonissences
I Timóteo
II Timóteo
Tito
Filemon
Hebreus
I Pedro
II Pedro
I João
II João
III João
Tiago
Judas
Apocalipse
Sínodos
I e II Alianças
Clemente (Versão Etíope)
Didascália (Versão Etíope)

Tirando os já conhecidos 66 livros tradicionais, mais os 7 adicionais da Bíblia Católica (Romana), todos esses bastante conhecidos, segue uma breve introdução das demais obras:

Jubileus: Uma releitura da história dos patriarcas, até a outorga da Torá, narrada pelos anjos que teriam entregue a Torá a Moisés no Sinai. Essa releitura traz boa parte das práticas ritualísticas da Torá como tendo iniciado com os patriarcas.

Enoque:Também conhecido como 1 Enoque, o livro que narra a queda de anjos que se enamoraram das mulheres, a destruição do mundo por gigantes, traz uma astronomia primitiva e traz visões sobre a história de Israel até o fim do período dos Macabeus.

A Oração de Manassés: Manassés foi o rei mais iníquo de Judá, que acabou por precipitar a invasão babilônia. Nesse texto, ele reconhece suas transgressões e pede perdão ao Eterno

2 Esdras: Também conhecido no grego como 1 Esdras, é uma releitura dos acontecimentos de 1 Esdras, acrescentando detalhes sobre o reinado de Artaxerxes, bem como a história de como jovem Zorobabel teria ganho uma disputa de sabedoria na corte de Dario, o que teria feito Dario permitir o retorno do povo e a reconstrução do Templo

Apocalipse de Esdras: Uma coletânea de visões apocalípticas atribuídas a Esdras, que narram do exílio babilônio, posteriormente, a queda dos impérios que dominaram o mundo, culminando num reinado em que o Messias destruiria o último império.

I, II e III Macabeus (Etíope): Provavelmente, os livros de Macabeus do cânon etíope se perderam, e alguém tentou reconstruí-los, mas cometendo muitas liberalidades. Mistura nomes geográficos antigos (Moabe, Midiã, etc.) com outras nações, mantendo a temática de perseguição aos judeus. O último dos livros também fala sobre recompensa aos justos e punição aos iníquos.

4 Baruque: Trata-se de texto atribuído a Baruque, discípulo de Jeremias. Nele, Jeremias é chamado a ocultar as vestes sacerdotais antes da destruição do Templo. O texto segue com visões figurativas significando o fim do cativeiro babilônio

Josefo Ben-Gurion: Um livro do século 9 d.e.c. que narra a história do povo judeu desde Adão até o rei Oto, o Grande (século 9 d.e.c.), supostamente iniciado por Flavio Josefo e concluído por um escriba posterior.

Sínodos: É um livro que contém as decisões dos principais concílios cristãos ecumênicos, bem como os principais concílios específicos da Igreja Etíope, que expõem sobre temas teológicos, litúrgicos e administrativos.

I e II Alianças: Livros que falam sobre a estrutura da igreja e que se encerram com um discurso de Jesus para seus discípulos.

Clemente: Versão etíope da carta enviada por Clemente de Roma aos Coríntios, abordando os temas de autoridade eclesiástica e outros assuntos polêmicos para a comunidade de Corinto.

Didascalia: Livro que traz um suposto ensinamento dos apóstolos de Jesus acerca da ordem, moral e conduta da igreja, provavelmente derivado das Constituições Apostólicas.

Conclusão Herege
Certamente o povo etíope gosta bastante de ler! Graças a eles temos acesso a algumas obras que foram muito importantes no período do Segundo Templo. Enoque e Jubileus, por exemplo, são indispensáveis para quem estuda o período historicamente.

As demais obras geralmente seguem o mesmo padrão textual da Septuaginta, provavelmente tendo chegado à Etiópia por meio de judeus e cristãos de Alexandria, no Egito.

Quanto à canonicidade, ou não, dessas obras, isso não compete ao autor comentar. Até porque o objetivo do site é informar o leitor, não doutriná-lo.

A propósito, a imagem é meramente ilustrativa.

Expiação Coletiva pelos Mortos

A Prática de Orar Pelos Mortos
A passagem abaixo provavelmente é desconhecida da maior parte dos judeus e também dos cristãos protestantes, uma vez que figura apenas o cânon da Septuaginta. Trata-se do livro de 2 Macabeus que, a exemplo do primeiro, contém informações históricas muito relevantes sobre a época do Segundo Templo, independente de ser ou não canônico:

“Depois, tendo organizado uma coleta individual, enviou a Jerusalém cerca de duas mil dracmas de prata, a fim de que se oferecesse um sacrifício pelo pecado: agiu assim absolutamente bem e nobremente, com o pensamento na ressurreição. De fato, se ele não esperasse que os que haviam sucumbido iriam ressuscitar, seria supérfluo e tolo rezar pelos mortos. Mas, se considerava que uma belíssima recompensa está reservada para os que adormecem na piedade, então era santo e piedoso o seu modo de pensar. Eis por que ele mandou oferecer esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido, a fim de que fossem absolvidos do seu pecado.” (2 Macabeus 12:43-45)

Essa passagem é teologicamente estranha para cristãos protestantes, já para os judeus é algo absolutamente normal, bem como para várias outras vertentes do Cristianismo. A saber, a questão de fazer expiação pelos pecados dos mortos.

Um Texto Quase Esquecido
Embora o tema em si seja relativamente conhecido, o que será apresentado neste artigo provavelmente não é, pois trata-se de um texto mais obscuro, que só sobrevive em duas comunidades religiosas minoritárias.

Refiro-me à obra conhecida como Testamento de Abraão, um texto judaico que foi escrito no máximo no século 1 d.e.c., que apresenta uma série de ideias através de uma alegoria de Abraão sendo levado aos céus, perto de sua morte.

Indubitavelmente de origem judaica pós-exílica, pois fala de arcanjos, céu e inferno, não se sabe exatamente se essa obra se originou na Judéia, ou se sua origem está na comunidade de Alexandria, que já tinha grande importância na ocasião.

A obra foi introduzida dos Beta Israel, judeus de origem etíope. Por maior isolamento geográfico de seus pares, acabaram preservando tradições muito distintas da ortodoxia judaica. E o Testamento de Abraão está entre elas.

Um Tema Central
O mais interessante dessa obra está justamente na questão da expiação pelos mortos. Muito mais do que apenas citá-la de passagem, como o faz a obra de 2 Macabeus, essa obra coloca a questão do justo fazer expiação pelos mortos como um tema central.

Isso ocorre como resposta a um sentimento que é bastante tardio nas religiões de origem Monoteísta: A ideia de que mesmo os ímpios mereçam o perdão. Embora o arrependimento esteja presente nos textos judaicos e cristãos, a ideia dos ímpios serem amplamente perdoados, ao invés de sumariamente destruídos, era inovadora.

Tão inovadora que ela ocupa também lugar central nesse texto, onde Abraão aparece aprendendo a lição de que não se deve desejar o mal para os ímpios. Algo muito diferente, por exemplo, dos desabafos dos justos nos livros dos Salmos.

Essa ideia gera, naturalmente, uma grande angústia: Como fazer para que o ímpio tenha uma chance de redenção, mesmo após a morte?

O Texto
O texto apresenta uma solução curiosa. Comentarei sobre ela após apresentar trechos da obra:

Após Abraão pedir ao Senhor para ver a terra toda antes de morrer, o Senhor ordena que Miguel, o arcanjo, o tome numa carruagem de querubins. A partir daí, temos a seguinte narrativa:

“E passando por eles viu homens com espadas, empunhando em suas mãos espadas afiadas, e Abraão perguntou ao capitão-chefe: Quem são esses? O capitão-chefe disse: Esses são ladrões, que intencionam cometer assassinato, e roubar e queimar e destruir. E Abraão disse: Senhor, Senhor, ouve minha voz, e ordena que feras selvagens venham da floresta e os devorem. E enquanto falava vieram feras selvagens e os devoraram.

E ele viu noutro lugar um homem com uma mulher cometendo prostituição um com o outro, e disse, Senhor, Senhor, ordena que a terra se abra e os engula, e imediatamente a terra se abriu e os engoliu.

E viu noutro lugar homens pilhando uma casa e levando embora os bens de outros homens, e ele disse: Senhor, Senhor, ordena que venha fogo dos céus e os consuma. E enquanto falava desceu fogo dos céus e os consumiu. E imediatamente uma voz veio do céu para o capitão-chefe, assim dizendo: Miguel, capitão-chefe, ordena que a carruagem pare, e muda o caminho de Abraão para que não veja toda a terra, pois ele verá que todos vivem em iniquidade e destruirá toda criação. Pois eis que Abraão não pecou e não tem piedade dos que pecam, mas Eu fiz o mundo e não desejo destruir nenhum deles, mas espero pela morte do pecador, até que ele se converta e viva. Mas leva Abraão ao primeiro portão do céu, para que veja julgamentos e recompensas e o arrependimento das almas dos pecadores que ele destruiu.” (Testamento de Abraão 10)

A passagem acima apresenta Abraão tendo a típica reação dos justos, indignados com a destruição da terra promovida pelos iníquos. Chega a ser difícil ler a passagem acima e não pensar: “Bem-feito!”

Porém, mais adiante, Abraão vê o juízo dos justos e dos iníquos e as coisas começam a mudar:

“Então Miguel virou a carruagem e trouxe Abraão ao Leste, ao primeiro portão do céu; e Abraão viu dois caminhos, um estreito e curto, outro largo e espaçoso, e lá viu dois portões: o portão largo no caminho largo, e o outro estreito no caminho estreito…

E eles viram muitas almas conduzidas pelos anjos ao longo do caminho largo, e outras almas, menores em número, que foram conduzidas pelos anjos pelo caminho estreito…

E Abraão disse ao capitão-chefe, meu senhor o capitão-chefe: A alma que o anjo detinha em sua mão, por que foi julgada e posta no meio? E o capitão-chefe disse: Ouve, oh justo Abraão. Porque o juiz considerou seus pecados, e sua retidão, iguais. Ele nem foi ordenado ao juízo nem salvo, até que o Juiz de tudo venha.

Abraão disse ao capitão-chefe: E o que falta para a alma ser salva? E o capitão-chefe disse: Se ela obtiver uma retidão acima de seus pecados, ela entrará na salvação. Abraão disse ao capitão-chefe: Vem aqui, capitão-chefe Miguel, façamos oração por essa alma e veremos se o Senhor nos ouvirá. O capitão-chefe disse: Amém, assim seja. E eles fizeram oração e pediram pela alma.

E Deus os ouviu e, quando se levantaram de sua oração, não viram a alma lá parada. E Abraão disse ao anjo: Onde está a alma que detinhas aqui no meio? E o anjo respondeu: Foi salva por causa de tua oração justa. E eis que um anjo de luz a tomou e a conduziu ao paraíso. E Abraão disse ao anjo: Glorifico o nome de meu Deus, o Altíssimo, em sua incomensurável misericórdia.

E Abraão disse ao capitão-chefe: Eu te imploro, arcanjo, dá ouvido ao meu pedido, e invoquemos o Senhor, e supliquemos Sua compaixão, e peçamos misericórdia para as almas daqueles que eu anteriormente, em minha ira, amaldiçoei e destruí, a quema. terra devorou, que as feras selvagens despedaçaram e que o fogo consumiu através de minhas palavras. Eis que pequei perante o Senhor nosso Deus.

Vem, então, Miguel, capitão-chefe dos exércitos superiores, vem e invoquemos o Senhor com lágrimas para que Ele perdoe meu pecado… E uma voz veio do céu, dizendo: Abraão, Abraão, eu ouvi tua voz e tua oração, e perdoei teu pecado, e aqueles que pensas que destruíste, Eu os chamei e os trouxe à vida pela minha imensa bondade, pois por um tempo os puni com juízo, e aqueles que destruí vivendo sobre a terra, não os punirei na morte.” (Testamento de Abraão 11,14)

Aqui temos a reviravolta. O impasse diante das almas que não são nitidamente justas, nem nitidamente ímpias, mostra a preocupação do autor com aquelas pessoas comuns, com pecados mais corriqueiros, que fizeram coisas boas e coisas ruins.

Depois de perceber que sua oração por aquela alma fez com que ela adentrasse o Paraíso, Abraão se dá conta do erro de desejar o mal para o iníquo.

E aí aparece uma das missões do justo, que é diferente daquilo que o leitor está acostumado: O justo deve se preocupar em fazer orações pelos mortos, para permitir que eles tenham a chance da Redenção.

Mesmo no Judaísmo, a expiação pelos mortos aparece muito pouco, geralmente restrita a fazer algo por uma pessoa próxima. Certamente não é tomada como uma missão nacional, ou incumbência dos justos.

A Árdua Missão do Justo
Mas, nesse texto, o episódio tem posição central. O justo não deve se preocupar apenas em levar o seu próximo, em vida, a se arrepender. Ele deve também fazer algo ativamente para assegurar a redenção dos que já partiram.

Já era clara, naquela época, a ideia de que era importante conduzir os pecadores ao arrependimento, para que pudessem ser remidos. Isso é dito explicitamente, por exemplo, no livro de Ezequiel, que traz:

“Se eu disser ao ímpio: Ó ímpio, certamente morrerás; e tu não falares, para dissuadir ao ímpio do seu caminho, morrerá esse ímpio na sua iniquidade, porém o seu sangue eu o requererei da tua mão. Mas, se advertires o ímpio do seu caminho, para que dele se converta, e ele não se converter do seu caminho, ele morrerá na sua iniquidade; mas tu livraste a tua alma.” (Ezequiel 33:8,9)

Porém, o texto acima fala sobre a morte física como punição ao ímpio. Não entra no mérito do pós-morte, ou mesmo da ressurreição, temas que só passam a ser mais importantes na literatura judaica a partir justamente do exílio.

O passo lógico seguinte seria: Se eu devo fazer algo para trazer os ímpios ao arrependimento, o que fazer quando já morreram? A resposta do autor do Testamento de Abraão é: Buscar orar ao Eterno, preferencialmente de maneira coletiva. Repare que Abraão chama até o arcanjo para orar junto com ele, o que dá a ideia da importância de um esforço coletivo em prol dos mortos.

No texto, o Senhor responde revelando que não punirá os ímpios eternamente. No Judaísmo, essa ideia também é bastante conhecida. No Cristianismo de linha Protestante, a teologia vai na direção oposta, decretando a perdição eterna para o pecador.

Porém, a ideia de fazer algo ativamente pelos que morreram na iniquidade dificilmente teria encontrado terreno fértil nas mentes de um povo que, desde o cativeiro babilônio, foi brutalmente perseguido e massacrado. Uma coisa é orar pela sua família e pessoas queridas. Outra bem diferente é por povos bárbaros, por exemplo.

Ainda assim, surpreendentemente, a ideia permaneceu viva na comunidade dos judeus etíopes. 

Conclusão Herege
O autor herege não considera o texto acima canônico ou inspirado, nem tem a intenção de criar dogmas sobre a morte e o juízo. Até porque, muito pelo contrário, acredita que não é bom ser muito dogmático quanto a isso.

Porém, a mudança de atitude promovida pelo texto é louvável: Encorajar que os justos tenham misericórdia até mesmo das piores pessoas, ao ponto de desejar que elas sejam plenamente recuperadas.

Da mesma forma, o autor não é contrário a qualquer tipo de oração em favor de pessoas que já partiram. Como o Senhor está fora do tempo, não vê problemas quanto a isso. Mas, entende que se o Senhor responderá ou não a isso cabe somente a Ele.

Numa oração, seja ela qual for, mais vale a intenção do coração daquele que pede do que o resultado final daquilo que o Senhor efetivamente fará.

Creia o leitor ou não na possibilidade de interceder pelos mortos, buscar o perdão para os grandes transgressores é uma experiência muito singular e que certamente vale à pena ser buscada.

Bibliografia
DE JONGE, M. (Org.) Outside the Old Testament: Testament of Abraham. Cambridge: Cambridge University Press, 1985.

KOHLER, K. The Pre-Talmudic Haggada. II. C. The Apocalypse of Abraham and Its Kindred. The Jewish Quarterly Review Vol. 7 No. 4. Pennsylvania: University of Pennsylvania Press, 1895.

MENZIES, Allan (org.) Ante-Nicene Fathers Volume 9: The Writings of the Fathers Down to A.D. 325. Michigan, Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1911.

SINGER, Isidor (org.); et al. The Jewish Encyclopedia: ABRAHAM, TESTAMENT OF. Nova Iorque: Funk and Wagnalls Company, 1906.

SPARKS, H.F.D. (Org.) The Apocryphal Old Testament: Testament of Abraham. Oxford: Oxford University Press, 1985.

Quando Jesus foi Adotado

Uma Descoberta em Jerusalém
Em 160 d.e.c., o bispo Melito de Sardes, um cristão de origem judaica, viajou para a região da Judéia, em busca da famosa Igreja de Jerusalém, que teria dado início ao Cristianismo. O que ele encontrou, porém, surpreenderia qualquer cristão, desde os mais ortodoxos aos mais hereges.

Melito encontraria um grupo que ele descreveu como os ‘ebionitas’, uma corruptela do hebraico eviyonim que significa pobres. Eram homens que haviam deixado tudo o que tinham para se dedicar aos ensinamentos de seu Mestre. Um grupo que, posteriormente, os cristãos romanos descreveriam como uma grande heresia.

O Caçador de Hereges
E, como geralmente acontece com todo pensamento heterodoxo, esse grupo não sobreviveu. Seus escritos foram para sempre destruídos e hoje em dia só podem ser encontrados em fragmentos de citações dos autores ortodoxos. As mais importantes delas descritas por Epifânio, na obra Panarion.

Ironicamente, Epifânio havia escrito tal obra para denunciar heresias. No entanto, essa é uma das obras que mais preservou as ideias que viriam a ser combatidas. Se não fosse por Epifânio, nunca conheceríamos obras que posteriormente a nascente Igreja Católica Romana veio a destruir. A fogueira era destino comum, tanto para textos quanto para homens hereges.

A Crença Adocionista
Epifânio descreve que os ebionitas usavam uma versão “mutilada” do Evangelho de Mateus. Provavelmente porque essa obra começava como o Evangelho de Marcos: No ponto em que Jesus era batizado por João Batista. Há quem defenda que essa tenha sido a versão original de Mateus, bem como há quem diga que os ebionitas escreveram sua própria obra baseada em Mateus.

O mais interessante, contudo, é como Epifânio descreve a Cristologia desse grupo, dizendo: “E por essa razão eles dizem que Jesus nasceu da semente do homem, e foi escolhido; e então pela escolha de Deus ele foi chamado Filho de Deus a partir do Cristo que entrou nele de cima, à semelhança de uma pomba.” (Panarion – Seção II – 16:3)

Explicando o Adocionismo
Para o leitor cristãos, habituado ao pensamento tradicional, essa ideia pode parecer estranha. No entanto, ela já foi muito comum no meio cristão, defendida por uma grande quantidade de igrejas primitivas, sobre as quais hoje se sabe muito pouco. É uma teoria conhecida no meio acadêmico como Adocionismo.

Para que o leitor entenda melhor a questão, a visão adocionista parte primeiramente da promessa feita por Deus a Davi, referindo-se a Salomão:

“Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; e, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens, e com açoites de filhos de homens.” (2 Samuel 7:14)

Nesse momento, entende-se que Deus teria “adotado” Salomão, que passa a ser chamado de “filho de Deus”. Ou seja, o termo é aplicado ao rei de Israel.

Vale também recordar que qualquer líder que fosse conduzir alguém nos caminhos do Senhor recebia dEle o “seu Espírito.” Vemos isso em vários casos ao longo da história de Israel, com Josué (Dt. 34:9), com Saul (1 Sm. 10:10) e com o próprio Davi (1 Sm. 16:14).

Divindade x Espírito de Cristo
Em outras palavras, o Adocionismo entendia que o Messias seria considerado filho de Deus porque nele repousaria o Espírito de Deus. Sua divindade, portanto, não seria no sentido de ter nascido um ser divino, mas de ter se tornado divino porque sobre ele habitaria o Espírito de Deus. Da mesma forma que Moisés foi divino, que Josué foi divino, etc.

Para diferenciar de outras formas de receber o Espírito de Deus – como, por exemplo, Bezalel recebeu para construir os objetos do Tabernáculo, ou como os profetas recebiam – alguns autores passaram a chamar e ideia do Espírito de Deus conduzir o rei de Israel como o “Espírito do Ungido”. Em grego, passaria a se chamar “Espírito de Cristo”.

Em suma: Os ebionitas acreditavam que Jesus não era um homem-deus, mas sim um homem em quem habitava a divindade. Isto é, um homem em quem habitava o Espírito de Cristo.

Epifânio descreve isso, de forma um pouco distorcida, dizendo: “Isso é porque eles afirmam que Jesus é na realidade um homem, como eu disse, mas que Cristo, que desceu na forma de uma pomba, entrou nele – conforme já vimos noutras seitas – e se uniu a ele. Cristo em vem de Deus no alto, mas Jesus é a descendência da semente de um homem e uma mulher.” (Panarion – Seção II – 14:4)

E não é por acaso que Epifânio diz que essa forma de pensamento também era vista noutras seitas. De fato, ele descreve vários outros grupos que criam exatamente da mesma forma.

Uma Obra Banida
Seria mais fácil classificar isso como esquisitice de uma ou mais seitas de judeus-cristãos. Mas, infelizmente a verdade é muito mais profunda e dolorosa do que isso. Essa foi uma ideia extremamente popular, que só foi silenciada pelo poderio político da Igreja Católica, quando o poder eclesiástico se fundiu com o poder político.

Poucos sabem, mas havia uma obra extremamente popular nas igrejas cristãs primitivas, chamada “O Pastor de Hermas”. A teoria mais aceita é que ela tenha sido escrita por Clemente de Roma, ou pelo próprio Hermas, nomeado por Paulo de Tarso na sua Epístola aos Romanos (Rm. 16:14).

Essa obra foi considerada herege em vários concílios promulgados pela nascente Igreja Romana quanto à formação do cânon do que viria a ser conhecido como o Novo Testamento.

Sobre isso, a Enciclopédia Católica New Advent afirma: “Eusébio nos diz que [o Pastor de Hermas] era lido publicamente nas igrejas; e apesar de alguns negarem que ele fosse canônico, outro o consideravam extremamente necessário.”

O Pastor de Hermas chegou a figurar no Novo Testamento da Bíblia Sinaítica Alpeh, do quarto século e era tão popular que chegou a sobreviver por alguns séculos. Ele chega a aparecer até no Códice Claromontano, um manuscrito do Novo Testamento em grego e em latim, do século 6 d.e.c..

O Trecho Herege
É bem possível que o Pastor de Hermas tenha sido considerado extremamente necessário porque é o documento cristão primitivo que fala mais abertamente sobre o Adocionismo, o mesmo encontrado entre os ebionitas de Jerusalém.

Em dado trecho, o Pastor de Hermas diz o seguinte:

“O Santo Espírito pré-existente, que criou toda a criação, Deus fez habitar na carne que Ele desejou. Essa carne, portanto, na qual o Espírito Santo habitou, era sujeita ao Espírito, andando de maneira honrada em santidade e pureza, sem de forma alguma profanar o Espírito.

Quando então ela viveu em pureza, e operou com o Espírito, e colaborou com ele em todas as coisas, comportando-se de forma ousada e com bravura, Ele a escolheu por parceira do Espírito Santo; pois a carreira dessa carne agradou [o Senhor], vendo que, possuindo o Espírito Santo, não se contaminou sobre a terra.” (O Pastor de Hermas – Quinta Parábola – 6:6)

O texto é bastante claro. A Cristologia, portanto, dessas igrejas era a de que Jesus era um homem comum, em quem teria habitado o Espírito de Deus. E seria esse Espírito de Deus habitando em Jesus que seria divino, e não a pessoa de Jesus em si.

Herege e Quase Judaico?
É mais fácil compreender porque a seita dos ebionitas, encontrada por Melito em Jerusalém, acreditava dessa forma. Seria impossível para um judeu conceber a ideia da Trindade, ou de Jesus ser uma divindade. Se a identidade do Messias já foi fator de grande contenda em Israel ao longo da história, como revelam as histórias de Jesus, Bar Kokhba e Shabetai Sevi, imagine a questão de mexer no entendimento da divindade.

E, contrariando o dogma trinitário, o Pastor de Hermas traz: “E tudo isso o pastor, o anjo do arrependimento, me ordenou a escrever: Primeiro de tudo, creia que Deus é Um; Aquele que criou todas as coisas e as colocou em ordem, e trouxe todas as coisas da não-existência à existência; Quem compreende todas as coisas, sendo ele próprio incompreensível.

Crê nEle, portanto, e teme-O, e nesse temor seja firme. Guarda estas coisas, e tu lançaras para longe de ti toda iniquidade e te revestirás de toda excelência de retidão e viverás para Deus, se cumprires este mandamento.” (O Pastor de Hermas – Quinta Visão 5:7 a Primeiro Mandamento 1:1)

Esse trecho da obra poderia facilmente fazer parte de um tratado judaico sobre o Monoteísmo e talvez reflita um tempo anterior, em que o Cristianismo ainda estava mais arraigado nas raízes da religião de onde saiu.

Vitória Teológica… ou Política?
Certamente para quem é cristão, essa visão seria considerada uma grande heresia. Porém, frequentemente, heresia e ortodoxia são definidos não por quem tem a teoria mais provável, mas sim por quem tem maior poder político.

Se os proponentes do Pastor de Hermas tivessem conseguido mantê-lo no cânon do Novo Testamento, ou se sua Cristologia tivesse saído vitoriosa nos inúmeros concílios da Igreja Católica, provavelmente você que é cristão seria adocionista. E talvez jamais viesse a ouvir sobre a doutrina da Trindade, ou mesmo outras formas que teorias que tenham surgido.

Conclusão Herege
O autor herege deste artigo é judeu e não cristão. Como não professa fé em Jesus, não se sente no direito de arbitrar sobre questões cristãs. O que foi aqui apresentado, portanto, tem como objetivo resgatar a história de um grupo cujas crenças foram literalmente banidas da fé cristã, nos primeiros séculos da Igreja Católica.

Se, contudo, o Adocionismo for mesmo o dogma mais antigo como sugere a maioria dos historiadores não-religiosos, o que não podemos (nem pretendemos) afirmar com certeza absoluta, isso traz toda uma diferença na maneira como os textos cristãos seriam lidos.

Hoje em dia, um adocionista não seria morto, nem teria suas Escrituras queimadas. Porém, talvez ainda sofresse bastante perseguição ideológica numa igreja, como todo herege costuma sofrer.

Mesmo se você for um cristão de linha mais ortodoxa, conhecer a própria história é sempre importante, bem como talvez admitir uma maior pluralidade de pensamentos, pois as coisas só parecem lineares quando alguém apagar os discordantes de sua própria história.

Bibliografia
MENZIES, Allan (org.) Ante-Nicene Fathers Volume 8: Melito, The Philosopher. Michigan, Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1911

Charles H. Hoole. The Shepherd of Hermas. London: Rivingtons, 1870.

Frank Williams. The Panarion of Epiphanius of Salamis: Book I (Sects 1-46). Leiden: Brill, 2009.

Joseph Barber Lightfoot. The Shepherd of Hermas. Amazon Digital Services, 2010.

Montague Rhodes James. The Apocryphal New Testament: being the Apocryphal Gospels, Acts, Epistles and Apocalypses. Oxford: Clarendon Press, 1924.

Catholic Encyclopedia: Hermas. Edição de 1917. Disponível em <http://www.newadvent.org/cathen/07268b.htm>

Quando os Justos viravam Anjos

A Angelologia Israelita
É inegável que o povo judeu trouxe consigo do exílio uma angelologia bastante sofisticada, onde os anjos eram descritos dentro de hierarquia e cheios de supostos atributos físicos extraordinários.

O próprio Midrash Rabá afirma disso, dizendo: “R. Yanina disse: Os nomes dos meses vieram conosco da Babilônia. R. Shim`on Ben Lakish disse: Também os nomes dos anjos, Miguel, Rafael e Gabriel.” (Bereshit Rabá 48:9)

Mas, ainda era possível encontrar uma angelologia mais simples, na qual as aparições aos vivos eram realizadas por pessoas que já se foram, ou que talvez ainda não houvessem nascido.

Ideia de Pré-Existência
Há um texto no livro de Jó que certamente inspirou muitas ideias. Ele diz:

“Onde você estava quando lancei os alicerces da terra? Responda-me, se é que você sabe tanto. Quem marcou os limites das suas dimensões? Vai ver que você sabe! E quem estendeu sobre ela a linha de medir? E as suas bases, sobre o que foram postas? E quem colocou sua pedra de esquina, enquanto as estrelas matutinas juntas cantavam e todos os filhos do Senhor se regozijavam?” (Jó 38:4-7)

É sabido que muitos comentaristas judeus viam nesse texto a ideia de uma pré-existência. E não é preciso muita criatividade para que começassem a supor que haviam, eles próprios, um dia sido anjos. Afinal, “estrelas do céu”, que aqui aparecem como sinônimo poético de “filhos do Senhor”, é um dos termos usados para se referir aos descendentes de Abraão. (vide Gn. 15:5, 22:17 e 26:4)

Um Manuscrito Perdido
A ideia de que pessoas não-nascidas, ou depois de partirem, sejam anjos ministradores perante o Senhor, e até mesmo que venham a trazer mensagens aos vivos, hoje em dia é bastante rara, tanto no Judaísmo, quanto no Cristianismo.

No entanto, um manuscrito perdido, citado por um antigo comentarista católico, pode trazer mais informações sobre o que, pelo menos, algumas comunidades judaicas criam quanto a isso.

Esse manuscrito, intitulado ‘A Oração de José’ se perdeu, possivelmente em meio às inúmeras perseguições sofridas pelo povo judeu. Sabe-se apenas que ele era tido como Escritura entre os judeus egípcios da comunidade de Alexandria.

Felizmente, contudo, um pequeno fragmento desse texto sobreviveu na forma de uma citação feita por Orígenes Adamantino, um cristão egípcio que viveu justamente em Alexandria no século 3 d.e.c..

Assim sendo, esses judeus de Alexandria provavelmente acreditavam que, embora essas pessoas tivessem seus nomes terrenos (tal como o caso de Jacó) e que quando atuavam como espíritos ministradores das mensagens de Deus, eles teriam também nomes celestiais.

O Manuscrito e a Comunidade de Alexandria
Em um comentário ao evangelho de João, Orígenes escreve sobre os judeus de Alexandria, em sua época:

“Se o texto intitulado ‘A Oração de José’, uma das obras apócrifas atuais comum aos hebreus, for confiável, esse dogma é encontrado expressado claramente… Aqueles [que foram criados] no princípio… tendo alguma distinção marcada para além dos homens, e sendo muito maiores do que outras almas, porque eram anjos, eles desceram à natureza humana.” (Capítulo 25 – Livro I)

Como o manuscrito se perdeu, ou foi destruído, nada sabemos sobre ele, salvo o fato de que a linguagem é pós-exílica e que ele já existia no século 3 d.e.c. Também não sabemos se era exclusivo da comunidade de Alexandria, ou se mais comunidades de judeus no Oriente também a tinham em alto apreço.

O fato de ser importante para a comunidade de Alexandria não deve ser subestimado, pois trata-se de uma das comunidades judaicas mais importantes de todos os tempos no exílio. Formada por volta do século III a.e.c., tendo durado cerca de 2,3 mil anos, pois a comunidade só veio a ser praticamente extinta na última década.

O Texto do Fragmento que Sobreviveu
Abaixo, o texto na íntegra do fragmento citado por Orígenes, seguido de comentários:

“Eu, Jacó, que falo a ti, e Israel, sou um anjo do Senhor, um espírito governador, e Abraão e Isaque foram criados antes de toda obra do Senhor; e eu sou Jacó, chamado Jacó pelos homens, mas meu nome é Israel, chamado Israel pelo Senhor, um homem que vê o Senhor, porque eu sou o primogênito de toda criatura que o Senhor fez viver…

Quando estava vindo da Mesopotâmia na Síria, Uriel, o anjo do Senhor, se aproximou e disse: Vim e fiz minha morada entre os homens, e sou chamado Jacó por nome. Ele contendeu comigo e lutou contra mim, dizendo que seu nome e o nome daquele que estava perante todo anjo deveria vir antes do meu nome.

E eu lhe contei o seu nome e como ele era grande dentre os filhos do Senhor: Acaso não és Uriel, o oitavo desde mim, e eu sou Israel o arcanjo do poder do Eterno e capitão chefe dentre os filhos do Senhor? Acaso não sou Israel, o primeiro a ministrar na presença do Senhor, e acaso não invoquei meu Senhor pelo Nome inextinguível?”

Tão interessante quanto o texto é Orígenes citá-lo como apócrifo, mas ao mesmo tempo também dizer que acreditava piamente que Jacó tenha mesmo dito isso. Ele chega a afirmar: “É provável que Jacó tenha mesmo dito isso, e que portanto isso foi escrito…” Ele segue, tentando explicar a questão como uma causa para a eleição de Jacó.

Os Justos como Anjos Encarnados
Ao que tudo indica, portanto, o autor do manuscrito acreditava que os justos já existiam com o Senhor antes da fundação do mundo, na forma de espíritos, que o autor chama de anjos.

Além disso, o manuscrito afirma explicitamente que Abraão, Isaque e Jacó eram anjos de grande patente, por assim dizer. Muito provavelmente, segue-se a isso a ideia de que os justos viveriam como espíritos ministradores perante o Criador após a vida, ou mesmo antes dela.

Em seu comentário, Orígenes tenta afirmar que esses espíritos teriam tomado forma humana para seguir Jesus, que teria feito a mesma coisa. Evidentemente, não era assim que criam os judeus de Alexandria. Afinal, não eram cristãos.

Infelizmente, Orígenes não menciona o motivo dado pelo manuscrito para que esses espíritos pré-existentes, anjos por assim dizer, teriam tomado forma humana. E, assim sendo, salvo se o manuscrito for descoberto em algum outro lugar, é algo que nunca saberemos.

Essa doutrina desenvolvida no manuscrito talvez possa explicar como os primeiros cristãos tenham desenvolvido a teoria de uma suposta pré-existência de Jesus. Considerando que Alexandria também se tornou um importante polo cristão, é certo que tomaram contato com essa ideia, e a tenham desenvolvido na direção da figura central da fé cristã.

Também não sabemos se essa doutrina é originalmente judaica, ou foi influenciada por algum outro pensamento. O texto do manuscrito é muito pequeno para que se possa traçar paralelos com outras culturas.

O Desaparecimento
Porém, se chegou a ser tomado em alta estima entre os judeus de Alexandria, é um grande mistério que essa doutrina não tenha sobrevivido. Da mesma forma, é um grande mistério o porquê desse manuscrito ter desaparecido.

Será que desapareceu simplesmente porque não foi preservado, já que a escrita em tempos antigos era bem mais trabalhosa e vulnerável à ação do tempo? Ou teria sido intencionalmente eliminada? Não temos como ter certeza, embora a primeira opção pareça mais razoável.

Conclusão Herege
Essa é uma teoria bastante curiosa e o autor herege acredita que ela seja plenamente possível. Mas, diferentemente de Orígenes, não acredita que o texto seja mesmo de Jacó, por conter uma linguagem pós-exílica, evidenciada por coisas como o nome do anjo Uriel.

Há outros elementos interessantes na narrativa, tais como a identificação de Uriel como o possível anjo (ou homem) contra o qual Jacó teria lutado, bem como sua curiosa colocação como o oitavo no ranking angelical, ao invés de aparecer como um arcanjo, o que costuma ser posição mais comum.

Mas, esses temas pediriam artigos próprios, pois trazem muitas ideias curiosas e que merecem ser exploradas, juntamente com outras fontes.

Por fim, apenas a título de curiosidade, essa doutrina também veio a surgir bem posteriormente no Espiritismo. Mas, é bom esclarecer que não parece haver interdependência neste caso. Ao que tudo indica, o Espiritismo chegou a essa doutrina por vias próprias.

Bibliografia
MENZIES, Allan (org.) Ante-Nicene Fathers Volume 9: The Writings of the Fathers Down to A.D. 325. Michigan, Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1911

SINGER, Isidor (org.); et al. The Jewish Encyclopedia: Alexandria, Egypt. Nova Iorque: Funk and Wagnalls Company, 1906.

SINGER, Isidor (org.); et al. The Jewish Encyclopedia: Angelology. Nova Iorque: Funk and Wagnalls Company, 1906.

Medindo o Bem e o Mal no Espírito

A Dificuldade com o Pecado
Você já se perguntou por que tem algumas pessoas têm tanta dificuldade de não pecar e outras parecem ter maior facilidade? Ou por que pessoas que crescem no mesmo ambiente fazem escolhas diferentes?

E se fôssemos capazes de medir a quantidade de inclinação ao mal e a quantidade de inclinação ao bem, cientificamente?

Uma importante comunidade judaica uma vez imaginou que isso pudesse ser possível. E desenvolveu toda uma teoria a esse respeito.

O Misterioso Manuscrito 4Q186
Em meio aos manuscritos tão famosos, de livros bíblicos, um pequeno e fragmentado rolo traz um dos mais fascinantes mistérios da história do povo judeu. Trata-se do manuscrito 4Q186.

Esse misterioso manuscrito de cerca de 2,2 mil anos apresenta uma teoria inédita de que cada um de nós nasce com uma dada quantidade de tendência ao bem, assim como outra quantidade de tendência ao mal.

O conceito das inclinações ao bem e ao mal no Judaísmo não são nenhuma novidade. Porém, tentar definir isso cientificamente é inédito. Bem, pelo menos, com o que se poderia considerar científico naquela época, em que havia, inclusive, menor separação entre ciência e fé.

Segundo o manuscrito 4Q186, nove partes da seu espírito são distribuídas entre a Casa da Luz e a Casa das Trevas. Isto é, você pode ter de 1 a 8 partes de tendência a ser uma boa ou má pessoa.

O Exemplo de Esaú e Jacó
Tome o caso de Esaú como exemplo. Pelos cálculos dos judeus de Qumran, ele era tido como alguém que tinha apenas uma parte de seu espírito na Casa da Luz, e oito partes de seu espírito na Casa das Trevas.

O que serviria para explicar porque ele descambou tanto para a desobediência. E também para explicar porque Jacó, seu irmão gêmeo, precisou também batalhar muito com suas próprias tentações.

Porque essas nove partes de luz ou de trevas teria a ver com a fase da lua em que a pessoa nasceu. Quanto mais iluminada a lua, mais luz o espírito da pessoa teria absorvido ao nascer.

Sobre Esaú, a Bíblia diz: “E saiu o primeiro ruivo e todo como um vestido de pêlo; por isso chamaram o seu nome Esaú.” (Gênesis 25:25)

Talvez isso também possa ter a ver com a raspagem de pelos ser um procedimento de purificação cerimonial: “E aquele que tem de purificar-se lavará as suas vestes, e rapará todo o seu pêlo, e se lavará com água; assim será limpo; e depois entrará no arraial, porém, ficará fora da sua tenda por sete dias.” (Levítico 14:8)

Efeito do Espírito no Corpo?
Segundo os judeus de Qumran, as características físicas de uma pessoa também eram uma manifestação de quanta luz, ou quantas trevas, a pessoa teria. E, portanto, serviriam para ver qual a probabilidade da pessoa ter dificuldades com o pecado.

Veja abaixo algumas das principais características físicas da luz e das trevas. Infelizmente, temos apenas algumas pois o texto é bastante fragmentado.

Indícios de Negatividade
Testa larga; cabeça grande e encurvada; olhos que dão medo; dentes protuberantes; dedos da mão ou do pé grossos e curtos; cabelo grosso e bem abundante;

Indícios de Positividade
Olhos alongados ou fixos; Coxas alongadas ou magras; dedos da mão ou do pé alongados e finos;

Características Neutras
Olhos nem claros nem escuros; barba rala, mediana ou encaracolada; dentes medianos; nem alto nem baixo; solas do pé normais;

Luz e Trevas ao Nascer
Quanto à fase da lua, funcionaria mais ou menos assim: Este que aqui vos fala nasceu um dia depois da lua cheia, que é quando a lua está mais iluminada.

Isso significa que eu teria por volta de umas duas partes na Casa das Trevas e sete partes na Casa da Luz. Ou seja, eu teria mais facilidade de resistir ao pecado do que alguém que tenha mais partes do espírito na Casa das Trevas.

Já meu irmão teria sido o extremo oposto. Nascido logo depois do crescente visível, teria umas duas partes na Casa da Luz e o restante na Casa das Trevas. Assim sendo, ele estaria mais propício a pecar. Será que é por isso que ele foi uma peste terrível quando pequeno?

Se você tem curiosidade de saber se os judeus de Qumran te considerariam uma pessoa boa ou uma praga, você pode clicar aqui para saber a fase da lua no dia em que nasceu.

Ao contrário do que possa parecer, o documento de Qumran não tem por objetivo ser mágico, nem tampouco astrológico, no sentido atual do termo.

Pelo contrário, a preocupação em identificar as características físicas também manifestas de acordo com o nível de luz ou trevas da inclinação da pessoa também tinha por objetivo alertar as pessoas para que pudessem trabalhar com isso.

O manuscrito também entende que isso influencia outros fatores, como por exemplo se a pessoa nascerá em condições de pobreza ou riqueza. E o manuscrito também associa seu nascimento a determinados tipos de pedra, animais e a dadas constelações.

Um Trecho do Manuscrito
Infelizmente, não há informações suficientes para entender melhor essas questões, porque o manuscrito é muito fragmentado.

Abaixo, apenas a título de curiosidade, um pequeno trecho do manuscrito apenas para que o leitor o conheça:

“[E] qualquer pessoa [cujos] olhos são [… e lo]ngos, mas el[e]s são fix[o]s, cujas coxas são longas e magras, cujos dedos do pé são longos e magros e que nasceu durante a segunda fase da lua: ele possui um espírito com seis partes de luz, mas três partes na Casa das Trevas. Essa será a constelação abaixo de qual tal pessoa nascerá: o quadril do touro. Ele será pobre. Esse é o seu animal: o touro.” (4Q186 – Frag. 1 – Col. 2)

Com o passar do tempo, a ideia de algumas pessoas pudessem ter uma inclinação ao bem e/ou ao mal maior do que outras acabou deixando a corrente do pensamento majoritário.

Talvez porque essa ideia não ressoe bem com a de um juízo igual para todos os homens. Contudo, certamente é inevitável imaginar que as circunstâncias na qual um homem nasce – sejam elas influenciadas pelo que forem – também são determinantes em seu comportamento.

Livre Arbítrio?
O que não está claro pelo fragmento que sobreviveu é se há ou não o reconhecimento do livre arbítrio.

Isto é, seriam essas porções na Casa da Luz e na Casa das Trevas uma predestinação da pessoa quanto a agir de acordo com isso?

Ou seriam apenas tendências, com as quais tanto a pessoa, quanto seus pais, deveriam tomar cuidado?

O autor herege supõe que 4Q186 vá mais na segunda direção, de indicar tendências, com o objetivo de alertar as pessoas.

Conclusão Herege
O autor não acredita que a personalidade de uma pessoa possa ser determinada pelas fases da lua. Mas, o texto não deixa de ser interessante.

Embora ele indique uma ciência mais simples, primitiva, mostra uma tentativa de entender o universo, conciliando com a espiritualidade. Não em oposição, mas em complemento.

Tentar encontrar uma forma de explicar a espiritualidade em linguagem científica ainda é um sonho distante para a humanidade, mas não se pode desistir desse objetivo.

É também igualmente interessante o reconhecimento de que nem sem sempre as pessoas têm a mesma dificuldade de viver uma vida mais reta. O que, claro, não serviria de pretexto para o ato em si.

Bibliografia
WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

Quando o Shabat Começava no Sábado

Quando começa o Shabat, isto é, o sábado religioso? Até muitas crianças pequenas hoje em dia saberiam dizer que começa no pôr-do-sol da sexta-feira e vai até o crepúsculo do sábado.

Isso parece tanto óbvio, quanto unânime. Mas, nem sempre foi assim. E essa convicção também expressa uma vitória política de um dado segmento, que se impôs sobre as demais.

Rashbam e o Dia do Gênesis
Muitas pessoas acham que o próprio texto de Gênesis 1 já deixa claro que o dia bíblico começa ao pôr-do-sol. Porém, isso está longe de ser assim tão simples. E, para entender e resgatar a história, devemos olhar para o texto hebraico.

O texto da Torá diz:
וַיְהִי-עֶרֶב וַיְהִי-בֹקֶר, יוֹם אֶחָד
wayehi-`erev wayehi voqer, yom e’had.

Embora todos compreendam que os dias no Gênesis não são literais, a maioria das pessoas está acostumada a ler o versículo acima como se dissesse: “E houve tarde e houve manhã, primeiro dia”, com uma inferência de que primeiro veio a noite e depois o dia.

Mas, há quem diga outra coisa. Por exemplo, Rashbam, um dos maiores comentaristas bíblicos de todos os tempos, escreveu o seguinte sobre essa passagem.

“A Luz sempre antes e depois a escuridão. ‘E foi tarde e foi manhã’ – Aqui não está escrito: ‘E foi noite e foi dia’, mas sim, ‘e foi tarde e foi manhã’ – o primeiro dia se tornou noite e o sol se pôs. E tornou-se manhã, a manhã sucedendo a noite, pois a alva irrompeu…’

O texto não chega ao ponto de afirmar que a tarde e a manhã são parte de um único dia, pois só precisa explicar como houve seis dias – que a manhã irrompeu e a noite se concluiu: Eis que um dia foi concluído e outro começou.” (Comentário de Gênesis 1:4-5)

A maneira como Rashbam entende o texto tem ganhado cada vez mais força no meio acadêmico. Isso porque o texto hebraico não é muito claro. Tudo isso por causa de uma pequena ambiguidade nas palavras.

Yehi [יהי], traduzido como “e houve” pode ser usado para se referir a algo que ocorreu, ou a algo que acabou de chegar. Ou seja, podemos traduzir essa passagem como “e surgiu a tarde; e surgiu a manhã”, dando uma ideia de que a tarde veio primeiro.

Mas, também podemos traduzir como “e entardeceu; e amanheceu” – que é exatamente como Rashbam faz sua leitura. Isto é, entardeceu porque o dia acabou, e amanheceu porque a noite acabou. Ou seja, o segundo dia começaria ao amanhecer.

Dia ou Noite, na Bíblia Hebraica?
A Bíblia Hebraica, como um todo, também não é totalmente clara. Há passagens que parecem indicar que a contagem do dia começa de manhã. E há outras que parecem indicar que a contagem do dia começa ao anoitecer.

Por exemplo, Neemias 13:19 diz: “Sucedeu, pois, que, dando já sombra nas portas de Jerusalém antes do sábado, ordenei que as portas fossem fechadas; e mandei que não as abrissem até passado o sábado; e pus às portas alguns de meus servos, para que nenhuma carga entrasse no dia de sábado.”

A leitura tradicional é a de que o sábado – o shabat judaico – estava prestes a começar, logo ele fechou os portões. Mas, há quem achasse que ele fechou os portões porque não faria sentido sair no meio da madrugada, no escuro, pra ir fechar os portões.

Como o propósito do Portal “O Herege” é dar voz às leituras alternativas, frequentemente esquecidas, o foco deste artigo será essa leitura alternativa. Não porque seja mais provável, mas por ser a mais desconhecida.

Por exemplo, Levítico 7:15 diz: “Mas a carne do sacrifício de ação de graças da sua oferta pacífica se comerá no dia do seu oferecimento; nada se deixará dela até à manhã.”

Aqui temos a dinâmica do Templo funcionando com o dia começando pela manhã. Comentando esse versículo, o Talmude Babilônio chegar a afirmar que havia dois dias: o do Templo, e o do calendário convencional: “Acerca da consagração [de ofertas], a noite sucede o dia.” (b. Terumá 14a)

Calendário Pré e Pós-Exílico?
Ainda sobre isso, o rabino comentarista Israel Drazin afirma: “É bem conhecido que os judeus começam seu dia à noite, ao pôr do sol, não à meia-noite e nem ao nascer do sol, mas nem sempre foi assim. Muitos acadêmicos estão convencidos de que o dia bíblico israelita começava ao raiar do dia. É possível que os judeus que se exilaram na Babilônia aceitaram a prática babilônia de começar o dia na noite anterior…

Muitos acadêmicos crêem que os saduceus, que viveram durante os últimos séculos do período do Segundo Templo, continuaram o costume antigo de começar o dia pela manhã… alguns caraítas, uma seita que começou no século nove e seguiu muita das tradições dos saduceus, começava o Shabat na manhã de sábado.”

Comunidades Hereges, que Observavam o Amanhecer
O fato realmente é bem conhecido de todo aquele que já estudou o desenvolvimento do calendário em Israel. Mas, este é um texto de conteúdo histórico, não apologético. Ou seja, a dúvida é: Existiram mesmo historicamente judeus que observavam o Shabat a partir do nascer do sol de sábado?

A resposta é afirmativa. Isso pode ser visto num comentário do exegeta Ibn `Ezra (1093-1167), enfurecido com a prática. Referindo-se a Êxodo 16:25, ele afirma: “Muitos infiéis têm sido enganados acerca desse versículo (Ex. 16:25) e têm dito que somos ordenados a cumprir o dia de Shabat e a noite seguinte. Pois Moisés disse: ‘Pois hoje é o sábado do Eterno’ e não ‘a noite anterior.’ (Comentário de Êxodo 16)

Cerca de um século depois, Benjamin de Tudela (1130-1173) também atesta para esse costume quando escreve sobre judeus da região do Chipre: “Lá pode-se encontrar tanto judeus rabínicos quanto caraítas. E lá também há seitas judaico-cipriotas que desprezam a lei e são excomungados de Israel em toda parte. E eles profanam a véspera do Shabat e observam a noite que antecede o domingo.”

Considerando que a prática é atestada até, pelo menos, o século 12 d.e.c, pode-se perceber que o tema era encarado com muita seriedade por essas comunidades, pois o preço que pagaram por se manterem fiéis às suas convicções foi muito alto.

Excomungados por terem uma convicção bíblica diferente, e assim condenadas ao isolamento, essas seitas judaicas acabaram se extinguindo.

Hereges também no Cristianismo?
Curiosamente, não é apenas no meio judaico que a questão surgiu. No meio cristão, os adventistas do sétimo dia são conhecidos como os maiores proponentes da observância do sábado, embora o façam de forma totalmente diferente dos judeus da atualidade, ou mesmo dos tempos antigos.

Um dos maiores acadêmicos adventistas, conhecido por sua obra From Sabbath to Sunday, o Dr. Samuele Bacchiocchi (1938-2008) num artigo acadêmico admite a possibilidade do registro bíblico ser lido como referência ao nascer do sol.

Ele utiliza essa possibilidade para propor soluções para a observância do sábado em lugares onde os dias são muito longos no verão e muito curtos no inverno como, por exemplo, nos países escandinavos, bem como para justificar as práticas do princípio de sua religião, no qual muitas comunidades observavam o sábado religioso de um horário fixo, das 18h da sexta às 18h de sábado.

Ele também afirma: “Durante os 10 primeiros anos de sua história, os adventistas geralmente observavam o sábado das 18h de sexta às 18h de sábado, apesar de alguns terem guardado do amanhecer ao amanhecer…

James White escreveu: ‘… alguns mantêm que o sábado começava ao amanhecer enquanto outros afirmavam que a evidência bíblica é a favor do pôr do sol.’”

Ele também chega a dizer, no mesmo artigo: “Não é surpresa que tenhamos visto indícios da existência na Bíblia de tempos em que um método de contar [o dia] do amanhecer…” E ainda conclui, para surpresa de muitos: “É importante observar que, no fim, o método de observar o sábado do pôr-do-sol ao pôr-do-sol é ditado não pelo quarto mandamento em si, mas pelo método de observância do pôr-do-sol ao pôr-do-sol que se tornou normativo na história judaica.”

Como se pode, portanto, perceber, a questão afetou tanto comunidades judaicas quanto cristãs, mesmo que essas últimas sejam bem posteriores.
É bem provável que houvesse ainda muitas outras de ambos os lados, apagados pelas águas do revisionismo histórico promovido pelos vencedores.

Conclusão Herege
É importante deixar claro que o autor herege acha irrelevante o horário que se começa ou termina o repouso sabático. O objetivo, como é o propósito do site, é apresentar uma ideia diferente, heterodoxa, que estava praticamente esquecida no passado.

Assim como é importante dizer que a questão não está fechada. Há ótimos argumentos de ambas as partes. Isto é, também há boas razões para supor que o dia comece ao pôr-do-sol. Como dito, por ser a visão mais tradicional, O Herege se ocupou de falar sobre a visão derrotada, que se tornou minoritária.

Há, contudo, uma lição quanto à questão da excomunhão dos judeus de Chipre: Excluir pessoas de seu convívio simplesmente porque, ao ler a Bíblia, chegam a uma conclusão diferente da sua é fanatismo.

O mesmo pode ser dito quanto àqueles artigos que, com ferocidade, combateram essa conclusão de Bacchiochi como se ele estivesse convocando as pessoas a adorar o capeta sacrificando bebês.

Felizmente, hoje em dia parece que essas coisas já causam um impacto bem menor do que um dia tiveram. Ainda assim, a voz da minoria não deve, e o conhecimento do que lhe aconteceu, não deve ser esquecida.

Bibliografia
BACCHIOCCHI, Samuele. The Reckoning of the Sabbath. Andrews University.

DRAZIN, Israel. Why Women Must Star Shabbat Before Men. Israel Drazin’s Books and Thoughts. Disponível em: <http://booksnthoughts.com/why-women-must-start-shabbat-before-men/>. Acessado em 28 Jun. 2017.

TALMON, Shemaryahu. King, Cult and Calendar in Ancient Israel: Collected Studies (Ancient Near East). Leiden: Brill, 1986.

Ibn Ezra’s Commentary on The Pentateuch: Exodus (Shemot). Arthur M. Silver; H. Norman Strickman. Nova Iorque: Menora Pub. Co., 1997.

Rashbam on Genesis. Sefaria Community Translation. Disponível em <http://www.sefaria.org/Rashbam_on_Genesis?lang=bi> Acessado em 28 Jun. 2017.

The Itinerary of Benjamin of Tudela. Marcus Nathan Adler. Londres: Oxford University Press, 1907.

Quando Enoque virou Messias

I – Introdução: Dois Mistérios
Duas passagens bíblicas são cercadas de muito mistério. E, por razão disso, já foram tema de muitas especulações. E, quando necessário, foram muito usadas para construir teologias.

Uma dessas passagens é a da morte (?) de Enoque: “E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou.” (Gênesis 5:24)

Ora, por que Deus teria tomado Enoque para si? Uma resposta predileta de muitos é: Para livrá-lo da destruição causada pelo dilúvio em Gênesis 5. Ou seja, Enoque era tão justo que Deus resolveu preservá-lo.

Outra passagem enigmática é a do filho do homem em Daniel: “Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele. E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído.” (Daniel 7:13,14)

O versículo 27 do mesmo capítulo de Daniel parece indicar que o filho do homem aí mencionado é alusão ao Reino de Israel, nos tempos finais, quando seu reino teria domínio por toda a terra. Porém… Será que o filho do homem representa Israel como reino, ou representa o Messias que Israel aguarda? Ambas as leituras existem mesmo no meio judaico.

Juntar essas duas passagens era apenas questão de uma pitada de criatividade. Será que Enoque teria sido preservado por Deus justamente para poder voltar depois como um glorioso governante?

 

II – A Angústia por um Libertador
Agora vamos ao pano-de-fundo histórico: Desde o retorno do exílio babilônio, o Judaísmo começou a experimentar fragmentações cada vez maiores. E, com isso, crescia a insatisfação de determinados grupos com seus governantes.

Avançamos um pouco e vamos para a época da dominação dos selêucidas até a Revolta dos Macabeus: Líderes corruptos, brigas políticas, o Templo profanado, acordos de bastidores, e a religião judaica ameaçada. Para muitos judeus, aquele era tempo final. O tão temido apocalipse judaico havia chegado!

Temos pelo menos um fruto desse tempo dentro da própria Bíblia Hebraica: O livro de Daniel. Que, justamente, descreve a Revolta dos Macabeus como culminando na vinda da Era Messiânica. E muitas outras obras foram escritas nessa linha.

Um dos grupos de sacerdotes descontentes, e seus discípulos, refugiou-se nas cavernas do Mar Morto, depois de terem sido provavelmente expulsos do convívio com o Templo. Num de seus textos, lemos:

“’As serpentes são os reis das nações; e ‘o vinho deles’ são os seus costumes; e o ‘veneno das víboras’ é o chefe dos reis da Grécia, que vem fazer vingança sobre eles.” (4Q266 – Col. 8)

Com o sacerdócio profanado, a liderança corrompida e Israel sofrendo ocupação, era apenas natural que alguns grupos passassem a pensar: A saída não está num filho de Davi, nem no sacerdócio levítico. É preciso olhar para um tempo anterior a esse, para alguém que não se corrompeu.

 

III – Enoque como Solução
E aí, então, chegamos em Enoque. Um homem tão justo que foi poupado da destruição, tomado por Deus. Teria ele sido preservado justamente para vir a ser esse rei escatológico que comandaria os justos de Israel?

É assim que o próprio livro de Enoque se refere ao “filho do homem”, que também aprece na tradição de Daniel. Observe as passagens abaixo:

“Desde o princípio o Filho do Homem foi ocultado, e o Altíssimo o preservou na presença da Sua força e o revelou aos escolhidos.” (1 Enoque 62:1)

“E a soma do juízo foi dada ao Filho do Homem; e ele fez os pecadores perecerem e serem destruídos da face da terra; e aqueles que corromperam o mundo.” (1 Enoque 69:27)

A medida que as coisas iam se tornando mais tensas e o sofrimento do povo ia ficando maior, começava a crescer em Israel a ideia de um Messias poderoso. Porém, ele não poderia vir do meio desse pandemônio maluco. Ele teria que ser isento, incorruptível, totalmente alheio a esse contexto.

Foi em meio a isso, que Enoque se tornou o filho do homem, o Messias prometido.

Nesses momentos, criatividade não faltava para lidar com os “requisitos”. Da mesma forma que os Hasmoneus encontraram uma maneira de se manter no poder, também os “enoquianos” encontraram uma forma de vincular Enoque a esses requisitos. Teria, por exemplo, havido uma tradição de Enoque enquanto um rei na região de Jerusalém, tal como Melquisedeque?

Nos manuscritos do Mar Morto, encontramos referências desse tipo para ambos, inclusive. Teriam os membros da seita de Qumran acreditado que Melquisedeque e Enoque fossem a mesma pessoa? Tudo é possível. Mas, estamos na esfera da conjectura.

 

IV – Enoque como Messias Vindouro
Porém, fato é que encontramos o seguinte no livro de Enoque:

“E então o anjo veio a mim e com sua voz me saudou, dizendo: Tu és o Filho do Homem, que nasceu para a justiça, e a justiça repousou sobre ti.

E a retidão do Ancião de Dias não te abandonará… De ti procederá a paz em nome do mundo vindouro. Pois de lá procedeu a paz desde a criação do mundo, e assim te sucederá para sempre. Contigo será a habitação deles; nem de ti se separarão para todo sempre.” (1 Enoque 71:14-15)

Considerando a popularidade do Livro de 1 Enoque, fica muito evidente que um grande grupo de judeus acreditava que Enoque voltaria dos céus, pois tinha sido preservado para que pudesse reinar sobre os homens no Reino de Paz, que aconteceria logo depois que as nações fossem envergonhadas.

 

V – A Crença no Cristianismo Primitivo
Há um fator que também surpreende: Como poderia essa obra, que identifica Enoque como Messias, ter sido tão popular no meio cristão?

Que ela era considerada Escritura inspirada por, pelo menos, boa parte dos primeiros cristãos é fato inegável, pois ela é citada como tal pela Epístola de Judas 1:14-15, que a chama de profética.

Como, então, poderia tal livro influenciar cristãos, se ele trazia um “concorrente” para a própria figura de Jesus? E não podemos sequer afirmar que se tratava de outra obra, pois 1 Enoque foi preservada justamente pelo Cristianismo Ortodoxo, mais especificamente pela Igreja Etíope.

Há, então, quatro possibilidades:

1) Falta de Compreensão.
Não seria surpresa se a falta de entendimento do texto possa ter feito essa contradição passar desapercebida. Afinal, isso aconteceu com um dos mais renomados tradutores de 1 Enoque, Robert Henry Charles.

Em sua tradução, quando chega no ponto de Enoque identificado como Filho do Homem, Charles afirma: “Aqui há uma passagem perdida, em que o Filho do Homem era descrito como acompanhando o Ancião de Dias; e Enoque indagou a um dos anjos (como no 46:3) acerca do Filho do Homem e quem ele era.”

Alegar que havia uma “passagem perdida” era uma boa saída. Mas, é bastante improvável, pois o texto etíope está muito completo e bem preservado. Talvez Charles não tenha feito de propósito. Talvez ele tenha mesmo achado o texto estranho nesse trecho.

Semelhantemente, pode ser que os primeiros cristãos também tenham passado batido por esse trecho.

2) Mais de um Messias
Nos Manuscritos do Mar Morto, somos apresentados a mais de um Messias. Afinal, o termo ‘messias’ significa literalmente ungido e pode se aplicar a qualquer cargo ou função de destaque.

A seita do Mar Morto, por exemplo, esperava o Messias de Aarão e Israel (conforme o Documento de Damasco) e um Messias governante.

É possível que os cristãos que criam em 1 Enoque também poderiam crer assim. Embora no Judaísmo seja comum a ideia de vários ungidos/messias, no Cristianismo a ideia se consolida unicamente em torno de Jesus. Mas, talvez nem sempre tenha sido assim.

A principal dificuldade dessa ideia, porém, não é a quantidade de Messias, mas sim o fato de que Enoque é apresentado como sendo o Messias mais importante, a saber, o governante das nações na Era de Paz.

Será que, em dado momento, alguns dentre os primeiros cristãos consideraram Jesus um Messias secundário? Epifânio, por exemplo, cita um grupo chamado de “os pobres” (eviyonim/ebionitas) que tinham Jesus como uma espécie de profeta, mas não como Messias davídico. A ideia, portanto, não seria totalmente estranha.

3) A Mesma Pessoa
Não era estranho ao Judaísmo o hábito de vincular duas ou mais figuras importantes. Nos comentários judaicos, frequentemente vemos Sem virando Melquisedeque, Queturá sendo o nome próprio de Hagar, Lemuel sendo um dos nomes de Salomão e muitos outros.

Não seria de todo estranho conjecturar que alguns grupos pudessem associar Enoque a Jesus.

A maior dificuldade dessa posição seria a ausência de textos confirmadores de tal hipótese. Mas, como a história é contada pelos vencedores, isso não pode ser totalmente descartado.

4) Messiologia Diferente
Aqui está a mais provável hipótese: A de que os primeiros cristãos diferenciassem entre o “Espírito de Messias” e Jesus. Isto é, terem Jesus como um ser humano, que teria sido revestido de uma função espiritual messiânica.

Essa função espiritual é que seria, por assim dizer, um caráter divino ou semi-divino daquele que fosse escolhido. Isso permitiria que Enoque e Jesus partilhassem de uma mesma função no imaginário dos cristãos primitivos, sem haver aí contradição de ideias.

 

VI – O Impacto no Judaísmo
No Judaísmo, o livro de 1 Enoque não sobreviveu, salvo pelos fragmentos encontrados no Mar Morto, que são suficientes para indicar a grande importância da obra em dado momento histórico.

Porém, há um resquício dela na parábola judaica denominada Midrash de Shemhazai e Azael, no Midrash Rabatai.

Em dado trecho, essa parábola diz: “No momento da decisão da vinda do Dilúvio ao mundo chegou, o Sagrado, bendito seja Ele, enviou Metatron como mensageiro a Shemzahai. Ele lhe reportou: ‘O Sagrado, bendito seja Ele, está planejando destruir o mundo.’ Shemzahai se levantou e chorou em alta voz e lamentou, e se entristeceu pelo mundo e por seus filhos.”

Metatron, uma hebraicização da figura de Mitra da Pérsia, era tido pelos místicos judeus como uma espécie de ‘messias celestial’, bem como um mediador. A saber, o principal anjo que habitava na presença do Criador e governava os demais.

Em 1 Enoque, é justamente Enoque o primeiro a anunciar a destruição do mundo, logo no capítulo 1. E é justamente ele quem aparece dizendo o que acima é trazido pelo Midrash Rabatai:

“Os Sentinelas me chamaram – Enoque o escriba – e me disseram: Enoque, tu és o escriba da justiça, vai e declara aos Sentinelas que deixaram o alto céu, o santo lugar eterno e se profanaram com mulheres, e fizeram conforme os filhos da terra fazem, e tomaram para si esposas… mesmo que eles se deleitem em seus filhos, o assassinato de seus amados eles verão, e sobre a destruição de seus filhos lamentarão, e faram súplica pela eternidade, mas não terão misericórdia nem paz.” (1 Enoque 12:4-6)

Numa obra mística denominada Sefer Raziel haMalakh (o Livro de Raziel, o anjo), da Idade Média, preservou-se a tradição de associar Enoque com Metatron:

“A transformação de Enoque em Metatron foi feroz: sua carne se transformou em chama, seus ossos em carvões brilhantes, seus olhos brilhavam com brilho estelar, seus globos oculares se tornaram centelhas ardentes.”

Outras obras cabalistas posteriores preservaram a ideia. Essa ideia evoluiu e, com o passar do tempo, foi reinterpretada como simbólica do potencial humano de tornar-se divino através de suas boas ações.

 

Conclusão do Herege
Como se pode observar, Enoque foi no passado uma figura de grande importância, associada tanto nas tradições judaica e cristã com as criaturas mais elevadas, seja na terra ou na mitologia celestial.

Talvez a idolatria tenha tornado isso desconfortável, ao ponto da ideia praticamente desaparecer de ambas as tradições.

Embora não acredite em Messias algum (nem aguarde tal figura), o autor herege está aqui para lembrar que para uma importante parcela de pessoas na antiguidade, tanto no Judaísmo quanto no Cristianismo, Enoque um dia já foi Messias, tanto terreno quanto celestial.

Talvez se os desdobramentos políticos tivessem sido outros, essa ideia poderia ter se tornado mais tradicional nos tempos atuais.

Há um viés interessante nisso tudo. A elevação de Enoque simboliza o desejo do povo de se desprender das autoridades terrenas, corruptíveis, que eram vistas como responsáveis pelas calamidades que assolaram o povo judeu.

Ou seja, a mitologia enoquiana acaba por também lembrar da importância da pureza e da liberdade no serviço do Criador. E esses conceitos não merecem cair no esquecimento, mesmo que ninguém hoje pense em Enoque como um Messias ou um homem que se tornou anjo.

Bibliografia
BOCCACCINI, Gabriele (Org.) Enoch and Qumran Origins: New Light on a Forgotten Connection. Michigan, Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 2005.

HURST, L. D. Did Qumran Expect Two Messiahs? Davis: University of California, 1999.

SHAPIRO, Rami. Enoch’s Ascent: A Tale of a Jewish Angel. Zeek, 2009. Disponível em <http://zeek.forward.com/articles/115651/>. Acesso em 28 Jun. 2017.

WISE, Michael; ABEGG Jr., Martin; COOK, Edward. The Dead Sea Scrolls: A New Translation. HarperCollins: São Francisco, 2005.

Midrash Bereshit Rabbati. Hanokh Albeck. Jerusalém: Mekitze Nirdamim, 1940.

The Book of Enoch. Robert Henry Charles. Oxford: The Clarendon Press, 1906.

The Book of Enoch the Prophet. Richard Laurence. Londres: Kegan Paul, Trench & Co., 1883.